A BORBOLETA DE DINARD
EUGENIO MONTALE

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Data J.Y .-.8 . . I.] Num .3.~.Q.~.6 Cota ...............

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A BORBOLETA DE DINARD









ALGUNS DADOS SOBRE EUGENIO MONTALE:

Eugenio Montale nasceu em G6nova, no die 12 de Outubro de 1896. A infancia foi marcada por constantes doenSas.

Terminados os estudos elementares matriculou-se numa escola tecnica. Mais tarde estudou canto, e esta sue formagfio influiu decisivamente na construgfio da sue future obra poetica. em 1916 que Montale escreve a sue primeira poesia.

Com o desencadear da primeira grande guerra, Montale e incorporado como oficial de infantaria.

Em 1922 encontra-se em Parma com Sergio Solmi, vindo ambos a fundar. com o estfmulo de Giacomo Debenedetti, a revista Prlmo Tempo. A primeira poesia publicada por Montale surge precisamente no segundo numero daquela revista.

Em 1925 v8 publicado pelo editor de Turim Piero Gobetti a sue primeira obra: Ossi di Seppia.

Por esta epoca estava Montale integrado no movimento antifascista, que contava com large participagfio de intelectuais.

A part~r de 1927 passe a viver em Fiorenga, once ganha a vida como director da ~sala de leitura. Viersilux. cargo de que vem a ser expulso pelo fascismo. Passa entfio a subsistir gragas 3s excelentes tradu$5es de ingigs que vai fazendo.

No fim da guerra Montale entra pare o jornal de Milao Corriere della Sers, once colabora ainda hoje como jornalista e critico literario e musical.

A publicagfio da sue primeira obra, Ossi de Seppio, seguiu-se, entretanto, em 1939, Le Occasioni. Como se ve, Montale nao era. nem nunca veio a ser. alias, um poeta copioso; a sue bibliografia nao e vasta e as sues obras laboriosa e longamente trabalhadas.

Os poemas de Montale, assim como as sues ~crdnicas., escapam 3 categoria ~poesia. ou cprosa.. Nfio se verifica uma ruptura entre um genero ou outro, mas antes uma osmose constante.

BIBLIOGRAFIA

Poesia: Ossi di Seppia, ed. Gobetti, Turim, 1925; La Casa dei Doganieri e a/tri versi, ed. dell'Antico Fattore, Florenga. 1932; Le Occasioni, ed. Einaudi, Turim, 1939: Finisterre, ed. Quaderni della Collana di Lugano, Lugano, 1943: Lo Sufera e altro, Neri Pozza editore. Veneza, 195B; Accordi e Pastelli ed. Scheiwiller Milfio, 1962: Satura, ed. do autor. Verona, ;962; Xenia, ed. do autor, San Severino Marche, 1966, Sstura, ed. Mondadori, Milfio, 1971: Diario dell'71, ed. Scheiwiller, Milfio, 1972.

Prosa: Farfalla di Dinard, Veneza, 1956 (2.' ed. Mondadori, Milao, 19601; Benedetto Croce, ed. Comunit3, Milfio, 1963: Auto da Fe, ed. II Saggiatore, Milfio, 1956: E. M. e L. Svevo, Lettere con gli scritti do Montale su Svevo, 1966: Fuori di Casa, ed. Mondadori, Milao, 1969: La poesia non esiste, ed. Scheiwiller, Milfio, 1971.

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Eugenio Monble

A BORBOLETA DE DINARD

PUBLICACOES DOM QUIXOTE LISBOA









@) Arnoldo Mondadori Editore, S. p. A., 1975.

Editor Original: Arnoldo Mondodori Editors, S. p. A., Milao.

Titulo original: La Farfalla di Dinard.

Tradutores: Armandina Pugs, Cardigos doe Reis, Corlo Aluigi e Helder Pereira Podrigues.

Capa e orientacao grafica: Fernando Felguoiras.

Todos os direitos pare a lingua Portuguese, inclusive Brasil, reservados por Pub. Dom (Quixote, R. Luciano Cordeiro, 119-Lisboa









HISTC)RIA DE UM DESCONHECIDO

<<Talvez te lembres de ter visto em minha casa 0 Amico delle Famiglie. Todos os sabados de manha, o carteiro me entregava, por entre as grades do portao, o nosso exemplar daquela revistazinha in6cua, nao sei se paroquial se missionaria, da qual uma certa tia de Pietra s ant a no s t inha fei to um a assinatura vitalicia; eu abria-a, dava uma olhadela ansiosa a seccuo de enigmistica e denois ~nl~nri~

em tom triunfal: Buganza!

<<La de dentro, meu pai soltava um murmurio de profunda satisfacao.

aEntre os muitos motivos de discordia existPntes entre mim e ele, um pelo menos, a ansiosa necessidade de que o arcipreste Buganza aparecesse infalivelmente, todos os fins de semana, entre os "solucionadores" dos logogrifos, dos enigmogramas, dos rebus e das mesocliticas do Amico (entre os quais era sorteado um livro edificante), constituia um elemento de coesao, um fio que me tinha ligado a meu pai. A ingenua mania do velho eclesiastico, que decerto se teria sentido desonrado se n~o re~-









pondesse aquele apelo semanal, correspondia de certo modo aquela nossa expectativa, sempre confiante e sempre premiada. Naqueles tempos nao existiam puzzles, palavras cruzadas; mas o que nos estava a acontecer demonstra-te que podiam existir, em vez disso, alguns destinos cruzados. E agora vou contar-te o seguimento.

~Nao saberia dizer-te quem, entre meu pai e eu, reparou primeiro no estranho caso. O arcipreste era-nos desconhecido, nao vivia na nossa cidade, nem procuramos nunca informacoes dele: que fosse velho era apenas uma suposicao nossa. O facto e que ha anos (quantos?) nao falhava na lista dos nomes e que ja nos era necessario, fazia parte dos nossos habitos mais ciosos. Que teria dito de nos se tivesse sabido do abismo que estava a escavar aos nossos pes? Talvez tivesse julgado que era obra do Maligno. E, no entanto, era obra, naquele tempo, profundamente conservadora. A cidade mudava de feicao, abria-se ao influxo nefasto da modernidade. Os cafes cediam lugar aos bares, sobre cujos bancos viviam empoleirados estranhos jovens de chapeu de coco e polainas, que se alimentavam, dia e noite, de batatinhas fritas e de "americanos", se nao ainda de acicatadores cocktails. Em febre de crescimento estavam tambem os teatros, onde as operetas vienenses tinham tomado o lugar da Gran Via, do Boccaccio e de outras consolacoes dos nossos pais. Nao existiam ainda as girls, mas o teatro de variedades, com as suas vedetas e animadoras e as primeiras tentativas do cinemat6grafo, abriam vastas possibilidades a corrupcao da juventude. Eu proprio, que nao frequentava aqueles lugares, tinha colado

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ao espelho do meu quarto o retrato da adoravel estrela pela qual o nome de um venerado soberano da Europa devia mudar-se, um belo dia. no de Cleopoldo. Quando meu pai descobriu o recorte explodiu uma violenta zaragata entre nds. Ameacei fuzer as malas e recuperar, enfim, a minha "independencia". Mas nao tinha dinheiro e podia partir, a sexta-feira, sem esperar pela visita do arcipreste? Na manha seguinte, Buganza, vencedor de uma vida do beato Labre, veio selar-in hoc signo!-a reconciliacao.

~A nossa vida decorria, assim, inalterada. Tal como nos tinha unido durante meses, Buganza, continuou a unir-nos durante anos. Meu pai vivia entre a casa e o escritorio (onde o auxiliavam os meus irmaos, estes independentes a serio); eu, entre a casa e as arcadas das ruas novas, sempre desocupado. 1! claro que procurava um trabalho digno de mim e das minhas inclinacoes; mas quais fossem essas inclinacoes, nem eu nem meu pai tinhamos conseguido ainda descobrir. Nas nossas velhas &milias havia em regra um filho, geralmente o ultimo, o benjamim, ao qual nao se exigia qualquer actividade razoavel. Filho mais novo de pai viuvo, um tanto adoentado desde a infancia e rico de indeterminadas vocacoes extracomerciais, tinha chegado aos 15 e depois aos 20 e depois aos 25 anos sem ter tomado uma decisao. Veio a guerra, que nao me arrancou de casa, e vieram o pos-guerra, a crise e a grande revolucao que devia salvar-nos dos horrores do bolchevismo. Os negocios corriam mal; nao se podia obter autorizacoes de importacao se nao se esqueciam sobrescritos bem recheados nos gabine

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tes dos comendadores, em Roma. Mas Buganza continuava imperterrito as suas visitas, e na nossa vida havia qualquer coisa de imutavel, qualquer coisa que se mantinha.

<`Um sabado de manha houve uma discussao bastante acalorada entre mim e meu pai. Alguns descamisados, na rua, tinham-me dado uns murros, porque nao tinha levantado a mao para saudar um trapo preto, e o meu velho afirmava que tinham feito muito bem e que a minha imprudencia nao merecia mais. Chegou o Amico delle Famiglie, abri-o sem desconfianca e vi a coisa inverosimil, a coisa que mudava todo o curso da nossa vida: o rzome de Buganza ndo vinha la!

a-Adeus Buganza!-exclamei, depois de um breve silencio; em seguida dirigi-me para o meu quarto e comecei os preparativos para a partida. Tinha resolvido de repente; o fio partira-se, a corrente quebrara-se; desaparecido o "baixo continuo Buganza" da nossa vida, tudo podia e devia mudar. Comecava uma nova existencia e nao importava se nao sabia como nem onde. Meu pai acusou o toque com dignidade, sem fazer comentarios. Mas via que enquanto regava as dalias no jardim estava mais caido e preocupado do que habitualmente, embora nao suspeitasse nada da minha decisao. Trabalhei o resto do dia. parte da noite e depois o dia seguinte a destruir velhos papeis (tambem o retrato de Cleo de Merode, encontrado depois de anos, seguiu aquela sorte) e a empacotar outros. Preparei duas malas, sem pressa. Decidido como estava, que podia recear? O sabado seguinte nao me encontraria em casa, e de resto ja nao havia que temer um previ

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sivel reaparecimento da padre-fantasma. Buganza tinha interrompido o seu ritmo, faltado ao pacto: tornava-se uma comparsa na minha vida e podia passar sem ele. Tendo assim tudo previsto, sentia-me ao abrigo de qualquer insidia e senti prazer em prolongar a vigilia da minha partida e em saborea-la com docura. Voltei a percorrer uma a uma as velhas ruas da infancia, voltei a fazer os itinerarios que seguira durante anos para ir a escola; nao tinha amigos, mas nao descurei algumas visitas de despedida, sem aludir a qualquer partida e admirando todos com as minhas conversas estranhas. A meu pai, acabei por dizer que tinha necessidade de me ausentar durante uns dias, e nao sei se ele desconfiava de mais alguma coisa. Em toda a semana troquei poucos monossilabos com ele. Enfim, os breves dias de demora que me tinha concedido voaram, quase sem eu dar por isso, e nao reparei que um novo sabado se aproximava senao quando um assobio do carteiro me chamou ao portao e a capa esverdeada do Amico voltou a cair-me debaixo dos olhos. Abri a revista sem emocao: que la estivesse ou nao o fantasma, que importava? O nome tinha, de facto, voltado ao seu lugar, mas uma nota que fechava a coluna enigmistica vibrou-me um golpe inesperado. "Lamentamos", dizia, "que por um lapso do nosso diligente chefe de tipografia tenha sido omitido no ultimo numero o nome do muito rev. Arc. Pe. F. Buganza, ao qual apresentamos, juntamente com as nossas desculpas, etc., etc."

aO Amico Delle Famiglie escorregou-me da mao. <<Depois de um curto silencio, fui ter com meu

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pai, que estava mergtllhado na leitura do Caffaro, e anunciei-lhe:-Voltou, sabes?

a-Quem? Buganza?

~-Ele. E nunca faltou. Foi um erro tipografico. Realmente, parecia-me estranho.

a-Tambem a mim-disse meu pai, com um suspiro de alivio.

<<Meia-hora depois comecei a desfazer as malas. Nada a fazer! A corrente que me tinha iludido de querer fazer em pedacos estava mais forte do que antes. E agora que meu pai ja nao existe e que o Amico desapareceu e o arcipreste segtuu a mesma sorte e a minha casa continua ainda de pe, s6 uma bomba de grande calibre poderia... Mas nao por agora, diria. Ouves? Esta a tocar o sinal de fim do alarme. Podemos subir~.

Um silvo rouco de sereia, um fa ligeiramente descendente, chegava, de facto, la de fora. Vi o desconhecido levantar-se, agarrar o braco do amigo e encaminhar-se para concluir a sua histbria ao ar livre.

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AS ROSAS AMARELAS

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-Finja que e o meu secretario-disse Gerda a Filippo olhando-o atraves da sua loupe.-Suponha que em vez de nos termos encontrado por acaso, ha duas horas, nesta pensao, respondeu a um anuncio que eu tinha publicado num jornal e que tenho de lhe fazer uma prova. Nao, nao e um exame que lhe faco, e simplesmente uma experiencia que quero fazer depois de o ter ouvido falar. Sao quatro horas ou pouco mais; as oito deveria mandar por correio aereo uma pequena histbria requintadamente feminina que aparecera simultaneamente em vinte e cinco magazines americanos. Novecentas, mil palavras no maximo. Infelizmente o espirito feminino nao abunda em mim- e atirou para tras com altivez uma escovinha de cabelos cor de sorgo-e nestes casos tenho de recorrer sempre a um homem. Voce parece-me o tipo indicado. Como? Voce nao percebe de literatura, nunca experimentou escrever? Tanto melhor, e o que era preciso. Procure em si o assunto de um belo conto italiano. Nao ha aqui, neste quarto ou na paisagem

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que vemos da janela, qualquer coisa que desperte em si uma recordacuo intensa, recente ou antiga desagradavel ou grata? Nao medite, nao pense nisso. Se ha, deve brotar de repente.

-Ha-disse Filippo, apontando um belo ramo de rosas numa jarra.-Mas e um simples pormenor. Estas rosas vermelhas em botao fizeram-me pensar noutras rosas, amarelas, que nao pude levar para casa comigo, para nao levantar suspeitas ou ciumes.

-Rosas amarelas-concordou Gerda semicerrando os olhos.-Ca estamos. Diz que e um pormenor secundario? Nao teria tido tanta importancia para si. De quem as recebeu?

-De uma rapariga pobre e coxa, na praca da catedral de M. Vou contar-lhe tudo.

-Sem ordem, por favor. Tal como se for lembrando.

-Estamos, ou melhor, estavamos, minha mulher e eu, na praca principal de M. Ha mnito nevoeiro. Esperamos a nossa patroa, a humilde vitima e tirana que ficou connosco ate as vesperas das grandes destruigoes. Viemos de proposito para a ver, mas procurando um pretexto, e logo que chegamos marcamos um encontro com ela telefonando-lhe da estacao. Vira? Deve lavar a loica e arranJar um pretexto para se ausentar. Nao e uma <<trabalhadora da cantina~, daquelas que usam chapeu: nunca sai. Nestas condi,coes, era o caso de lhe marcar um encontro para as duas e meia da tarde, numa pra,ca grande e enevoada? Teodora (suponhamos que minha mulher se chame assim) cansar-se-a de estar em pe. Nem de proposito, propoe

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que sc va esperar a chegada do electrico de San Clemente, o suburbio onde agora habita Palmina, a quatro quilometros do centro. Mas e razoavel afastarmo-nos? Discussao, pequena zaragata (nao sei se a zaragata chegou de facto a dar-se).

-Estamos em Italia, pode por zaragatas a vontade-disse Gerda.-E va para a frente.

-Depois chegamos a um compromisso. Eu irei explorar a praca que fica por detras da abside da lgreja; Teodora fica ali a espera. Promete que nao sai de la. Nevoeiro, sombras, corretores e vendeclores que passam a distancia. Dou uma volta lateral em torno da igreja, por baixo das arcadas. Breve parentese para descrever a perturbacao que me da a ideia de voltar a ver Palmina. E se nao viesse? Na luta de amor vence quem foge... e embora aqui nao se trate de amor pode dar-se que ela soja bastante astuta para adaptar ao seu caso o adagio do poeta. Talvez saiba que sentimos muito a falta dela durante a minha doenca. Mas ja nao era possivel vivermos juntos; era um Inferno com todos, com Teodora, com os fornecedores, com o porteiro. Criava em volta de si uma tempestade permanente, mas nao era uma rapariga vulgar. Quando Teodora estava ausente, cantava em altos berros <<sem um tostao para dormir-sem um tostao para comer-nao me resta senao...,> 0 que? Que coisa? Maldita membria! So certas deformidades ou desgracas se podem exprimir com uma voz tao fascinante. Depois, adoeceu com bronquite, parecia curada, o medico nao era do mesmo parecer, ela pos a questao numa forma de chantagem: nada de convalescenca a nossa custa; ou deixava

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o hospital para voltar para nds ou voltava para casa. Os Ingleses estavam as portas da cidade, os bombardeamentos ja nao tinham conta. Apareceu em casa de repente, derreada com os seus embrulhos. Explodiu logo uma discussao, eu nao soube fazer de medianeiro e deixei-a ir-se embora. Comecou, para nos que tinhamos ficado, aquele periodo negro que foi chamado da libertacao. Fome, doencas, desastres de todos os generos. Talvez tivesse sido uma sorte para Palmina ter-se passado a tempo para la da linha gotica. Depois de um ano, chegaram noticias suas. Tinha partido de facto duas horas depois da briga, tomando lugar num camiao que uma bomba tinha destruido nos Apeninos. Quando chegou a casa nao tinha mais do que a camisa. E com as primeiras noticias comecou entre ela e mim, entre ela e Teodora, uma correspondencia semiclandestina, ameacadora e ao mesmo tempo afectuosa. Voltara, nao voltara para nos? De qualquer modo, os fios nao estao cortados, e aqui pode acabar o episodio-antecedentes.

~Dou, inutilmente, a volta a catedral, regresso, vejo o casaco de peles de Teodora perto de um policia (decerto pede informacoes sobre o electrico de San Clemente), depois uma pequena figura sai do nevoeiro e as duas sombras fundem-se num longo abraco. 12 ela, e Palmina, que me estende um grosso rolo de cartao que acaba num ramo de rosas amarelas. As duas mulheres comecam a andar e eu sigo-as levando na mao o misterioso tubo. Sera preciso procurar um cafe. Palmina nunca vem a cidade e nao conhece nenhum, mas por fim consegulmos encontrar um, um casarao deserto que

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da para algumas salas de bilhar. As duas mulheres falam, discutem, abracam-se, reconciliam-se; eu descubro que o pe do ramo de rosas e uma garrafa destinada a mim; as rosas sao para Teodora. Vinho tinto com agulha, de Sorbara. Agradeco confuso. Teodora resolve que tem uma, duas compras a fazer, a outra oferece-se para a acompanhar, eu nao posso caminhar nesta caligem com uma garrafa de vinho e um ramo e resolvo esperar por elas no cafe. Fico uma hora a espera; sozinho num canto cheio de serradura e de sombras de jogadores. Penso que Palmina deve estar curada: as suas faces tem um rubor agradavel (rouge, diz Teodora), o seu andar caracoleante de coxa parece-me ainda um dos seus encantos. Quem sabe o que dirao uma a outra as duas mulheres. No fundo, fizeram bem em deixar-me aqui. As mulheres sao particularmente ineptas para a procura do tempo perdido. Sozinho posso apreciar melhor este mergulho numa vida que julgava acabada para sempre. Recomecara? Nada recomeca. Era muito findria, Palmina, especulava incrivelmente com a minha tendencia interior para me sentir sempre culpado. Patroa ate ao absurdo, dizia sempre "nds pobres criadas", e eu pensava que fosse de facto maltratada. No fundo era apenas uma figura torta, mas atraente pela sua extraordinaria vitalidade. Uma lagartixa a que esta a crescer a cauda que lhe cortaram. Mas tinha o dom de tambem as pessoas nao revoltadas, junto dela revoltadissima, se sentirem pior do que ela. S6 os imbecis, os novos-ricos, as governantes que falam com o erre, se podiam admirar de a termos connosco. Mas era o escandalo de

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todo o predio. Olho para o rel6gio; faltam so vinte minutos para o rapido. Vamos perde-lo e terei de ficar ate a meia-noite aqui em M., com uma garrafa e um ramo de rosas na mao. Nao, nenhum medo, ei-las de regresso, meio zangadas meio abra,cadas. Ainda ha tempo, saimos depressa, Palmina faz-nos entrar num electrico apinhadissimo, vem connosco a esta,cao. Olho para o relogio, e um milagre se chegarmos. (Que Diabo terao maquinado as duas mulheres? Sinto o desejo e ao mesmo tempo a ameaca de que Palmina regresse em breve para nos. Informar-me-ei no comboio, agora nao tenho tempo.) Chegamos a estacao, tiro a correr um bilhete de gare para Palmina, eis-nos debaixo do alpendre na altura em que chega o rapido. Confusao, abracos, abraco-a tambem eu pela primeira vez, depois dizemos-lhe adeus da janela enquanto o comboio se poe em marcha. Estamos de pe, a um solavanco a garrafa de Sorbara escorrega-me da mao e rebola pelo chao, decapitada. Um acre odor adocicado enche o corredor, todos olham para mim aborrecidos e procuram desviar os pes da golfada que escorre para o compartimento das bagagens. O comboio marcha velocissimo, e noite, faz frio. Teodora encontrou lugar e conclui que as garrafas da louca Ja se partiram mais vezes. Passa assim uma hora e meia, o rapido aproxima-se da nossa cidade. "Nao julgues que levas para casa essas rosas", diz Teodora, "senao a que la esta poe-se a andar se desconfia que em M. nos encontramos com a viborazinha. Caluda. Oferece o ramo ao professor Ceramelli, que esta de pe ao fundo; manda-o a mulher dele, que vai apreciar o presente. Nao cometas gaffes, nao

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Ihe digas porque e que nao o podemos levar para casa."

aO professor-uma pessoa de consideracao que eu nao vejo ha anos-admira-se do ins61ito presente. Nao sabe a que atribui-lo, hesita, tenho de ;nventar alguns motivos de gratidao de que ele nao parece muito convencido; por fim resolve aceitar as flores, tanto mais que nao tem estorvos de malas. O comboio chega, ja nao ha nevoeiro, o professor cumprimenta e afasta-se com as flores. Por alguns momentos acompanho ainda os lividos reflexos de um letreiro de neor, sobre o colorido palido das rosas amarelas; uma partiu-se; inclina a cabe,ca. Depois, na neblina ligeira... Isto talvez chegue; com um pouco de ordem, diria que...>>

-Nao, com um pouco mais de desordem-disse Gerda olhando para o relogio.-1! pena que nao tivesse aqui o meu gravador. Mas dentro de duas horas despacharei a minha primeira ~historia italiana>>. As rosas amarelas: e o titulo apropriado. Obrigada.

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~DONNA JUANITA~

O zunido incerto de um radio chegava pela janela aberta. Gerda fechou os vidros com impaciencia e voltou-se para Filippo, olhando-o com os olhos semicerrados, como um tigre em emboscada.

-Nao me abandone agora que a primeira experiencia resultou bem. Preciso de uma segunda suite italiana para a minh-a serie. Vivo disto, voce sabe. Sera possivel que aqui dentro nenhum objecto -quadro, livro, caco, flor ou fotografia-lhe tenha dado o la? Descontraia-se; devo pescar em voce qualquer coisa de espontaneo. A espontaneidade nao e o meu forte; voce pode testemunha-lo a sua custa.

-Nao-disse Filippo.-Aqui dentro, exceptuando voce, nada me falou ao cora,cao. Mas la fora, oh!, la fora! Voce nao imagina quem ficou la fora quando fechou a janela.

-Quem foi entao?-perguntou Gerda olhando com curiosidade para a rua.-Alguem que queria raptar-me?

-Uma mulher: Donna Juanita. A musica que voce pos fora bruscamente era ela: ou melhor, a

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sinfonia da 6pera comica de Suppe que tem este titulo. Mas restituia-me logo ela em pessoa.

-Um primeiro amor?-disse Gerda.

-Um sentimento talvez mais persistente. Um odio infantil, depois uma piedade viril; depois, o esquecimento... ate ao momento em que me chegou aos ouvidos esta sinfonia.

<<Donna Juanita descia a praia para o banho, por volta do meio-dia, envolta num grande roupao e protegida por um largo chapeu de palha preso com uma fita por baixo do mento. Escura e formosa nao permitia olhares indiscretos, e quando se despia, na unica cabina existente, surgia mais vestida do que antes. Saia, calcas ate aos tornozelos, luvas, sapatos de corda, oculos escuros, o chapeu substituido por um turbante de cor escura; todo um equipamento que se enfunava a flor da agua e faz~a dela nao uma banhista mas uma enorme medusa. Nao nadava, sentava-se na agua, flutuando com muita dignidade. O declive da praia nao era suave e todos sabiam que dois metros adiante ja nao havia pe. Mas ela tinha o seu itinerario fixado. Com uma oscilacao de cauda estava no primeiro escolho, o carregun, assim chamado porque tinha a forma de um cadeirao; e la Juanita sentava-se com as sapatilhas na agua e os olhos orgulhosamente voltados para o seu terraco, suspenso sobre o mar. Depois Juanita escorregava de novo para o seio de Tetis (o unico seio visivel naquelas circunstancias), as fraldas da sua tunica enfunavam de sotavento e levavam-na a "rocheta", meta de uma segunda paragem; e depois a "rocha do meio", uma plataforma baixa, quase um atol, ericado de ouricos e de afia

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dos mexilhoes; e tambem ali, meio dentro e meio fora, Juanita repousava alguns instantes. Por ultimo era o voo final: a "rocha grande", dez metros de verdadeiro nado e uma escalada ate ao topo agudo do escolho em piramide, de onde era possivel apreciar uma vista de conjunto da sua grande villa cor de creme, constru~da a forca de cargas explosivas e de dinheiro sobre a alta e inacessivel falesia.

aAs etapas do regresso eram as mesmas, por ordem inversa. Chegada a terra, Juanita deixava esvaziar e escorrer o seu aerdstato, punha por cima um segundo roupao antes que o inv61ucro pudesse aderir a uma forma humana e modela-la, e voltava a subir, por entre os calhaus, para casa. Atras dela, uma criada obsequiosa fechava um portao cor de sangue de boi. Que idade podia ter entao Juanita? Talvez menos de 40 anos.

<<Do alto de um pinhal sobranceiro ao jardim dela eu espiava-a depois entre as duas filhinhas -Pilar e Estrellita-, mergulhada numa cadeira de repouso, ocupada a beber mate e a ler Caras y Carjetas e a Scena lllustrata, as unicas publicacoes que chegavam para la daqueles muros. D. Pedro, marido dela, nem sequer essas lia; passeava no terraco, de panama na cabeca; tinha uns bigodes compridos e macios, o queixo rapado e usava gravatas vistosas e camisas de seda crua. A sua grande ocupacuo era seguir o andamento do jazigo de familia que lhe estavam a construir no cemiterio da aldeia: queria que fosse um templo de marmore de Carrara e com muitos corucheus, digno da sua estirpe. Hospedaram durante muito tempo um escultor de Pietrasanta, o mesmo ao qual confiaram













a criacao do grande Neptuno e dos outros deuses marinhos que suportavam sobre os ombros a imensa ostra do terraco. Mas as estatuas, batidas pelas vagas e pelo vento de sudoeste, perdiam de vez em quando um pe ou uma mao, e assim o trabalho durou anos. Acabou numa cause infindavel porque D. Pedro, atacado de manias political, apresentou-se como candidato no colegio eleitoral, como representante do partido da ordem, perdeu por pouco contra um candidato radical que no entanto gastava menos do que ele e encontrou-se na situacao de nao poder satisfazer o famelico artiste. D. Pedro de Lagorio (substitua o nome, por favor) nao suportou o desaire. Transportado ao manicomio, ali morreu pouco depots, rugindo (nao o tinham certamente previsto os galopins eleitorais que o proclamavam "o leao das duas margens", pare impressionar os que como ele tinham feito fortune na margem de la, a tres mil leguas de distancia).

aE desde essa altura, a villa cor de batido de ovo ficou fechada. D. Juanita pegou nas meninas, as sues cocorite, como Ihes chamava, que ninguem tinha visto na praia, e partiu pare a Boca, o suburbio italiano de Buenos Aires once o leao tinha afiado as garras e dado os primeiros passos pare a riqueza.

aRegressou a patria, pergunta voce? Nao, a sue patria era a Italia e tambem o leao era dos nossos. Chegado ainda rapaz a Boca, de la, uma vez arranjadas as lecas (o dinheiro, pare nos entendermos), tinha importado, pare casar com ela, a sue Giovannina da terra natal: uma sue prima, que ele conhecia pouco mais do que por fotografia. A

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transformacao da Giovannina em D. Juanita deu-se la, nos anos passados numa avenida de lojistas once se falava a giria de Cicagna ou de Borzonasca, em vez do criolo. La em baixo, a crisalida tomou a forma da corpulenta borboleta que nunca chegou a aprender teem a nova lingua, embora tivesse esquecido metade do seu dialecto e quase por completo o italiano, que nunca conhecera muito teem. Em rapariga tinha sido sempre prisioneira em case ou no colegio das freiras. Nao sabia nada da vida. A sue musica predilecta aprendera-a em pequena, ouvindo no teatro dos fantoches "O diluvio universal, com Barudda calafate" (Barudda, escreva teem, e uma especie de Brighella da Liguria); no qual entrava em cena tambem Deus sob a forma de um olho inserido num triangulo de cartao. Do centro da pupila saia um raio de luz produzido por tremula vela e nessa altura um piano automatico, de manivela, substituia o canto dos anjos com o melhor que tinha pare atirar ca pare fore: a aria dos tres ladroes, da Gran via.

aCOmO ve, fiz algumas investigacoes sobre o passado de D. Juanita, quando ela ja nao existia. Ate encontrei a zarzuela que marca o seu destino. Fez o seu regresso a villa, depots do exodo, nao com tres, mas com dois ladroes. Tinha tapado provisoriamente as brechas do seu barco em perigo e as duas filhas regressavam com ela, casadas. El casamiento ingenioso! Mas a ilusao devia durar pouco. Os dois genros, Ramirez e Bertran, altos, vorazes e dotados de grandes patilhas, fizeram mao baixa de tudo o que restava e conservaram as tres mulheres prisioneiras, carregando-as de pancadas

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e de injurias. Deram-se cenas ferozes no salao dominado pelas fotografias dos grandes presidentes -do mexicano Porfirio Diaz para a frente-com assinaturas autografas. Depois, quando ja nao havia mais nada que vender ou que quebrar, partiram os tres "para as Americas" (como diziam os conterraneos), onde se soube que tinham tido uma triste vida e um pior fim. D. Juanita morreu primeiro: quis despachar-se com receio de encontrar ocupado o carregun celeste a que aspirava; e talvez la tenha chegado acompanhada da arieta do Cavaleiro de gra~ca, se a Gran via deixou outros vestigios nela. As filhas, creio que nao aspiravam a nada, na vida e na morte. Nunca tiveram verdadeiramente nem casa, nem patria, nem lingua, nem familia. Nao- chegaram a ter uma verdadeira e pr6pria existencia e talvez nem sequer tenham supeitado que pudesse haver uma diferente da delas. Nao sei dizer-lhe quem ocupa agora o jazigo construido com tantas despesas e canseiras. Talvez outros loucos da familia, colaterais; talvez o prdprio artista, depois de ter tomado posse da sua obra.

~Basta-lhe? Bem sei, voce queria saber qual e o lugar, qual a praia, o trampolim do qual o leao levantou voo para o Novo Mundo; queria inserir num quadro bem definido o menino que se esconde num canavial para atirar uns seixos inofensivos a D. Juanita e as suas cocorite, res de ter construido um palacio digno de Semiramis na enseada onde, durante anos, tinha existido apenas a casa de seu pai; queria saber em que terra de reclusos, de vitimas e de alcoolizados eram possiveis histbrias semelhantes no alvorecer de um seculo que ainda nao

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tinha tirado a mascara do bem-estar e do progresso. Queria saber...e

-Ah, nao para escrever- protestou Gerda, que tinha desenhado numa folha um grande titulo: Upstarts (novos-ricos).-Volte em breve; quem sabe se nao vou conseguir arranjar-lhe uma chavena de mate. Mas nao se iluda; as minhas semelhancas com D. Juanita ficarao por aoui.

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A REGATA

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O Verdaccio-um pequeno porto natural protegido por grandes penhascos, no coracao de um semicirculo de velhas casas ligadas umas as outras ou separadas por estreitos arcos e emaranhadas vielas-via-se quase no enfiamento do quarto de Zebrino, no terceiro andar da vivenda de Montecorvo onde a sua familia passava os meses estivais. Mas ficava na margem oposta da enseada, tres milhas ou mais em linha de ar, e seria preciso uns bin6culos para ver animar-se de um andrajoso e pitoresco vaivem a fuligem daquele coio de piratas e de falcdes, ao qual nem os sarracenos jamais tinham ousado aportar. Nao paravam la os comboios e nao chegava la qualquer estrada transitavel a carros; nao havia la pousadas ou pensoes. Se algum ~forasteiro,,, que ali tivesse desembarcado, se arriscasse por aquelas veredas, do alto dos ultimos andares despejavam-lhe sobre a cabeca bacios bem cheios, sem o aviso <<vitta chter heuttu!,, (atencan VOI1 deeneiar!) reservado semore aos transeun

tes de respeito.

Ate aoui a lenda che~ada aos ouvidos atentos









de Zebrino; pare quem, no entanto, o Verdaccio nao era senao um buraco na falesia distante, uma grande arvore frondosa, talvez uma nogueira, e a mancha branca de uma case guarnecida de torres, um pouco afastada, erguida sobre uma rocha a levante. Essa era a case dos Ravecca, os feudatarios ou pelo menos os senhores indiscutidos da aldeia. Gente que tinha mandado os filhos pare a escola tecnica, na capital da provincia, e que ate nos dies de semana calcava sapatos; gente que lie o jornal e que durante o Inverno ia de saltada a cidade. Bem diferente dos outros verdaccianos, mulheres vestidas de seda mas sempre descalcas e homens peludos e inacessiveis, marinheiros de pequena cabotagem, vinhateiros sem vinhas e contrabandistas.

Mas existiam realmente estes Ravecca? Zebrino nunca os tinha encontrado. Entre Montecorvo e o Verdaccio nao havia relacoes de boa vizinhanca e os dois dialectos assemelhavam-se pouco. Diferente era a expressao usada pelos montecorvinos quando atiravam pela janela os seus subprodutos; e diversos eram os costumes dos habitantes. Uma coisa porem parecia certa a Zebrino: que seu pai, trinta anos antes, tinha estado quase a ficar noivo de uma Ravecca, a mulher mais nova da familia, agora cheia de filhos, viuva e a morar num deserto, em Fivizzano. Devia ser uma pobre m~rtir caseira, sem dinheiro e em nada superior a mae de Zebrino; mas a noticia em si, chegada ao rapaz, que teve de a filtrar de um intenso jogo de alusoes, subentendidos e pequenas discussoes entre os seus pais, nao podia deixar de Ihe fazer uma certa impressao. Se as coisas tivessem corrido de outro modo, ele, Ze

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bring, talvez tivesse nascido la, naquela torre branca, e o Verdaccio nao teria tido segredos pare ele. Se seu pai tivesse casado com uma outra mulher, ele, Zebrino, teria sido um outro Zebrino, ou antes, talvez nao tivesse tido aquela alcunha... Teria perdido ou ganho?

Os bajuladores da sue familia, os pedintes que todos os sabados vinham em procissao a sue case, os pontremoleses vagabundos, capazes ate de se deterem no Verdaccio, e o Battibirba, o fradinho mendicante que descia de Sarzana a pedir esmola, afirmavam que o pai de Zebrino era cem covados mais rico e generoso que todos os Ravecca, ha anos decadentes e cheios de divides; mas o Sr. Zebrino Senior nao gostava que fizessem referencias a uma possivel decadencia dos Ravecca; nao gostava que se pusesse numa luz menos que favoravel a ~situacao~ em que ele estivera quase integrado na juventude. Sobretudo nao queria que se lhe tirasse uma arma, a arma do se, com a qual ele, metodicamente, se vingava da fiel companheira dos seus dies. Dava-se teem com a mulher, e verdade; mas se as trenette col pesto nao resultavam teem temperadas com azeite e condimentadas com queijo de ovelha sardo ou a cima ripiena lhe parecia recheada de miolo de pao em vez de pinhoes e de mindezas, o Sr. Zebrino Pai tinha sempre um grande trunfo, e apontando pare a case branca sobre a outra margem p o dia deixar emender que la, precisam en te 1d, co is as dessas nunca lhe teriam acontecido.

Com o passer do tempo o mito dos Ravecca dissolveu-se no espirito do garoto, preso a outras descobertas e preocupacoes. Mas nao antes de ter

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explodido num epis6dio do qual so ele, entre os protagonistas, apreendeu o sentido oculto.

No dia vinte de Setembro, em Montecorvo, nunca faltava uma regata a remos que o Lampo (Relampago) o atuneiro da familia de Zebrino, vencia ha anos, sem excep~cao. Era um barco mais rapido do que os outros a por-se em movimento, por causa da forma esguia e da proa alta, que calava pouquissimo; a primeira pazada dos remadores o Lampo ganhava um metro, meio metro de avan~co, e nao havia mais nada a fazer, parecia impossivel ultrapassa-lo. Mas naquele ano -Zebrino tinha crescido e ja contava 12 Primaveras-um perigo novo surgia no horizonte: o barco de tresmalho dos Ravecca, o Grongo, ja nao tripulado pelos miticos donos mas por tres musculosos pescadores verdaccianos, tinha aparecido pela primeira vez na regata e o risco parecia grave. Esgotados os divertimentos previstos, o mastro da cocanha, a corrida de sacos e o discurso anticlerical do anarquico Papirio Triglia, seis proas alinharam no horizonte a espera do tiro da partida. O percurso era talvez de um quilometro e meIo e a linha de chegada via-se a uns cem metros da praia, onde surgiam os primeiros escolhos. Uma multidao tinha-se juntado a beira-mar e Zebrino, os seus irmaos e pais seguiam o acontecimento la de cima, debrucados no parapeito do seu terraco. Lampo ou Grongo? O Lampo tinha sido confiado a quatro veteranos la do sitio -tres remadores e um timoneiro-e nem sequer aqui estava directamente em jogo a honra da famiha; mas Zebrino sentia-se agitado e tambem os seus nao se mostravam tranquilos. Viam-se as proas

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alinhadas, la muito ao longe, alta e branca e vermelha a do Lampo; baixa, verde-escuro e de mau agouro, a do Grongo: eram a primeira e a terceira a contar da esquerda. De repente ouviu-se um tiro de pistola e o movimento isocrono das primeiras remadas. Durante algum tempo os barcos pareciam na mesma linha. Os bindculos passavam de mao em mao mas ninguem conseguia focar as lentes. Os barcos pareciam parados, os remos felpudos. Pequenas embarcacoes, gaivotas e nadadores faziam tropel em volta do escolho na linha de chegada, sobre o qual se sentavam, descamisados, Papirio Triglia, as ~autoridades~ e o juri.

Soavam as cinco da tarde. O sol ainda ardia sobre o vasto arco de mar entre o Mesco e a ponta Monasteroli. A fumarada de um comboio de mercadorias saia de uma profunda vigia escavada nas rochas. E as imprecacoes soltas e o movimento ritmico dos remos tornavam maior o silencio da beira-mar.

-Lampo-disse com seguranca a mae de Zebrino tirando os bindculos do nariz.-Leva uma dianteira de meio metro.-E pareceu que tivesse dado um suspiro de alivio.

-Sera-admitiu o irmao mais velho, fazendo um 6culo com os dedos arqueados em cartucho.- Mas desta vez e um osso duro.

-Esperemos que aqueles rebelloni (maltrapilhos) se encham de genica-murmurou o outro

irmao com a palma da mao em pala sobre os olhos. -Hum!-fez o filho do feitor, o Restin, que

fixava os olhos amarelos, de lince, na proa do

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Lampo.-Hoje afocinha muito a proa. Tambem ele ja sente o peso dos anos.

Os barcos estavam como que parados no mesmo nivel, remadores e timoneiros a blasfemar curvavam-se num gesto unico. Metade do caminho ja devia estar percorrido.

-Os verdaccianos puxam como mastins-disse o pai, esforcando-se por centrar os bindculos.-Receio que a gente falhe.-E olhou sorrateiramente para a mancha branca na aldeia distante.

-Estamos tramados-confirmou o Restin, esforcando as pupilas e roendo as unhas.-O Grongo segue melhor a rota. Tem uma equipagem mais ligeira.

-Ainda nao quer dizer nada-rebateu a mae ja sem olhar.

-Digo-to eu-insistiu o pai, que agora parecia aborrecido.-Nao-admitiu depois-, ainda nao quer dizer nada, mas e uma questao de milimetros.

Da praia chegava um clamor altissimo; o Lampo

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~ ~ ~=`` escondida, arfavam entre a espuma, nitidamente a frente dos outros barcos; os gritos dos timoneiros abafavam o bater dos remos. Faltavam cinquenta, talvez trinta metros. Foi um momento infindavel, o coracao de Zebrino parecia que ia estoirar. Depois ouviu-se um grito agudissimo:

-Lampo!-e o Restin fez uma pirueta de esquilo, enquanto a proa vermelha se torcia sob o fio a uma oscilacao do leme e os tres remadores se atiravam a agua, com era habito das equipas vitoriosas. SemiaEundado entre os vagalhoes, tambem o Grongo cruzava a linha de chegada e os verdaccianos, bati

`: o urongo, a proa levantada e a proa

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dos mas nao convencidos, lanc,avam injurias atrozes ao juri e aos barcos dos espectadores. N- lhe

-Lampo-disse a mae com orgulho.- ao levam a me or.

-Por um triz-espica,cou-a o pai, enxugando

' vez ue 0 confio aqueles bebe

0 suor.-11 a ultima q d b b

Estas contente, Zebrino? 1 di i

1 ado ara leste, os seus o s nao respondeu. Vo t p d

Verdaccio.









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Nem sempre as criancas-os mais naturals e convictos amigos-inimigos dos animals-tem ao alcance da mao ou ao alcance da vista uma fauna bastante rice e variada, como acontecia com aquelas que podiam frequenter os zoos das grandes cidades antes de as bombas caidas do cou porem em lib erdade as cobras-cascaveis e as feras do s tropicos. Existem, e sao a maioria nos paises chamados (talvez por pouco tempo ainda) civilizados, criancas as quads esta quase totalmente vedado o acesso ao fabuloso bestiario da infancia; crian~cas pare as quads as colunas de Hercules do mundo animal sao representadas pelo cao, pelo gato, pelo cavalo, em exemplares nem sempre admiraveis. Em caves semelhantes os rapazes da minha geracao, quase ignaros do jogo do futebol e dos complicados brinquedos mecanicos, defendiam-se com a fantasia e recorriam tambem as lendas dos velhos. Onde nao havia jardim zoologico, sabiam construir um a seu modo. Um garoto das minhas relacoes, a quem todos chamavam Zebrino por cause da camisole de malha as riscas, que ele usava habitualmente (e ja na escolha





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da alcunha havia talvez uma presciencia das sues tendencies e dos seus gostos), encontrando-se a viver numa aldeia pobrissima de especies zoological esquisitas, tinha recorrido precisamente as fontes dos amigos, a seiva da fantasia popular, e delas tirara bons frutos. Passava os meses livres do ano, os meses estivais, sobre uma lingua de terra frente ao mar, separada do resto do mundo por altas muraIhas de rocha. Nessa aldeia nao havia estradas transitaveis a carros, o comboIo passava enfiado em ongos tuneis, sem parer, e so6 um ligeiro tremor do so o e o fumo que saia dos furos abertos nos rochedos davam sinal da sue passagem. Local de arribacao, local arido em que s6 o texugo, os esquilos e os passaros podiam encontrar habitacao mais ou menos fixa; nao os lobos, nem os javalis, que querem grandes matagais ou extensas florestas. Zebrino amda nao era cacador e raramente acompanhava a caca os homens da aldeia. As variedades de aves de arri acao eram pare ele apenas nomes, que fazIam vibrar pouco a sue imaginacao. Mas com alguns voadores indigenes-o morcogo, a busacca-, ele tinha travado amizade desde os primeiros anos. Que os tivesse realmente visto seria pretender de mats. Com o morcego morto e com a sue boca em ventosa, pilifera e sem bico, de passaro sanguessuga, tinha travado conhecimento pelo menos uma vez embora naquelas aldeias as cabras fossem excepcionalmente raras. Mas a busacca? Ate a sue existencia era posta em duvida pelos homens mais serios, que tin am frequentado a cidade. E nenhum dos cacadores encontrados por Zebrino podia gabar-se de ter morto alguma. Era, ou devia ser. uma eve de

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rapine major do que o falcao e mais pequena do que a aguia, dotada de s61idas asas, mas nao tao largas que lhe permitissem levantar voo do solo. Surpreendida por um cacador, lancava-se do alto de um penhasco e ficava a pairar no ar como um planador ou um papagaio de paper, pare se ir colocar mais em baixo ou mais acima, conforme o favor do vento ou a gravidade do risco, mas sempre sobre um bordo que lhe permitisse outros mergulhos. Um demdnio que nao se conseguia apanhar, tardigrado e astuto, coriaceo e a prove de bale. Falcoes e tartaranhoes mortos, poupas e picancos negros podiam sair, de vez em quando, amachucados e moles como lencos sujos, dos bolsos dos atiradores furtivos; mas uma busacca nao, era um sonho irrealizavel. Foi este o sonho que fez de Zebrino cacador, por um dia. Nao dispunha de espingardas e na sue idade nao era pare pensar em licenca de porte de armas. No entanto, Zebrino, que tinha pena dos passaros mortos e nao tencionava seguir o caminho de Santo Huberto, pensou orgulhosamente partir pare chegar once nunca tinha chegado: mater a busacca no die da sue iniciacao e depots acabar pare sempre com a caca. Ajudou-o Restin, o filho do seu caseiro, rapaz inerme tambem ele, mas mais conhecedor de armas e de espingardas. Trabalharam durante alguns dies, arranjaram um tubo de chumbo, prenderam-no a force de pregos e de cordeis a um pedaco de madeira que tinha a forma de uma coronha de espingarda, e no fundo da parse cega do tubo, once ela se encaixa na culatra de madeira, fizeram um furo pare o rastilho. Depois carregaram a arma com p61vora negra, de mine, sobre a carga

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calcaram um punhado de quadradinhos de chumbo cortados com a tesoura, e para fechar o explosivo e os chumbos enfiaram no tubo uma bucha de papel de embrulho que calcaram demoradamente com uma caninha. Tiro unico que nao devia falhar. E partiram um dia antes do alvorecer, equipados com fosforos e um rastilho roubado aos mineiros do lugar.

Era preciso aproximar-se da busacca, acender o fosforo e depois deitar fogo ao rastilho aos primeiros alarmes da ave de rapina, segui-la com a arma apontada, durante dez ou vinte segundos, nas suas evolucoes a espera que o tiro partisse... e depois era o caso de a ver cair atingida pela rajada. Zebrino reservava para si a parte do atirador, Restin dena acender o f6sforo e deitar fogo ao rastilho a tempo e horas, sem esperar que Iho dissessem; a distribui~cuo dos papeis estava perfeita e a honra do feito seria repartida igualmente pelos dois.

Caminharam durante mais de duas horas, deixaram para tras as ultimas hortas e os olivais enfezados, paradeiro de pacificos papa-figos, entraram na zona dos pinheiros, depois chegaram aos penedos de onde se descobriam os vales interiores, cortados fora das grandes muralhas de rocha. O mar briIhava ao longe, das pedreiras chegavam marteladas intermitentes.

O milagroso encontro fez-se esperar menos do que estava previsto-uma sombra larga e envoIvente que passou rente a terra, atirou-se para um desfiladeiro que terminava numa falesia a pique, da qual se levantou um bando de estridulos passarinhos em fuga.

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-11 a busacca-disse Zebrino com tom convicto. (Dizia-se um ~falcao>> ou um amelro>>, mas ~a busacca~ sem numeral, a busacca unica por definigao, porque era loucura pensar que houvesse duas.)

-Tens a certeza?-perguntou tremulo Restin, que nao dissimulava a sua perturbacao.

-Absoluta. Eu fa,co pontaria. Prepara-te. Acende o primeiro fosforo.

Caminharam em bicos de pes para o silvado. Restin acendeu um primeiro, depois um segundo e um terceiro fosforo, torcendo o nariz com o cheiro do enxofre a arder. Estava chegado a ele como uma sombra. Estavam quase a beira do precipicio. Ouviu-se uma restolhada, um outro silvo, os arbustos agitaram-se como a passagem de um corpo pesado. Restin aproximou 0 rastilho do fGsforo, que estava para se apagar.

-Sim... sim-disse Zebrino estendendo-lhe a arma, que depois pos a cara com o apendice fumegante. Foi um momento apenas, eterno. O fumo enovelava-se no~ar. Depois viu um modesto passarinho-um pardal ou um vermelhao-levantar-se do solo e poisar sobre um ramo seco de um pinheiro bravo. Tinham passado alguns segundos, o trovao estava para rebentar. Zebrino nao teve coragem de olhar em volta, quase sem querer virou o arcabuz para o passarinho e o tiro partiu. Uma verdadeira explosao que lhe fez saltar a arma das maos, partida em duas, e 0 atirou quase por terra, imerso numa enorme nuvem de fumo pestilencial. O estrondo ecoou ao longe nos vales.

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-Magoaste-te?-perguntou Restin palidissimo. -Nao, mas foi um caso serio-gemeu Zebrino, descobrindo os dois tro,cos da arma a poucos passos dele.

O verdelhao nao se movera do seu ramo e piava olhando para eles, admirado.

Ouviu-se um som de passos. Desciam aos saltos pelas rochas um mineiro, que trazia um velho chapeu de cacador alpino, e um frade recolecto, dos que iam a aldeia fazer peditbrio. Perguntaram aos rapazes se se tinham saido bem e quando Restin contou a histbria da busacca (Zebrino nao estava de acordo e fazia-lhe sinais furibundos para que estivesse calado) o mineiro nao fez comentarios mas apontou com a mao para outras terras no horizonte, para la de um largo braco de mar que vem quebrar com forca nos lados da peninsula.

-A busacca... ah, sim, a busacca-disse como que para significar que era preciso ir procura-la longe, noutras paragens.

Tirou do bolso uma latinha de carne, quis repartir o conteudo com os dois rapazes e com o frade mendicante; depois, os quatro, em silencio, desceram a caminho da primeira franja dos olivais.

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LAGUZZI & C.&

A Sr.. Laguzzi, que habitava no apartamento por cima do nosso na rua Asmara, nao devia estar em boas relacoes com minha mae. Acontecia por isso que quando alguma peca de roupa que ela tinha posto a enxugar caia na nossa varanda, a vizinha nao achava decoroso apresentar-se em nossa casa a reclama-la e nem sequer encarregava da missao alguem da sua confianca, mas debrucava-se da janela com uma grande cana de ponta flexivel -uma cana de pesca-da qual pendiam um pedaco de fio e um anzol para bonitos; e assim armada dava inicio a uma opera,cao que s6 depois de muitos esforcos terminava com a recuperacuo da peca de vestuario caida. Eu era crianca e pouco propenso a vida do mar, embora todos os anos passasse nelo menos tres meses na praia; e a prdpria ideia daquele genero de pesca devia fixar-se em mim nos termos impostos a minha fantasia infantil pela obstinada Lagazzi. Desde entao nunca mais pude ver um anzol sem que uma visao de lencos, combinacoes ou soutiens perdidos viesse acompanhar aquele gancho. Mais honesta do que o shakespeariano Autolycus, que apanhava a roupa alheia esten

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I !:

dida nas sebes, a boa Sr.a Laguzzi servia-se do seu anzol para por a salvo o que lhe pertencia e que, de resto, ninguem lhe disputava. Ninguem, se nao talvez a crianca (eu em pessoa) que entre uma tentativa e outra se esforcava por tirar a presa para fora do alcance do tiro.

Era grande a varanda e corria ao longo de duas fachadas: ninguem passeava la senao meu pai, antes do anoitecer, depois do jantar; e de manha, por volta das oito, tambem eu la me detinha longo tempo, a espreita de ver chegar o onibus puxado a cavalos do Instituto Vittorino da Feltre que devia levar-me a escola com outros poucos privilegiados. A rua Asmara era uma rua serpenteante em subida, nao muito frequentada e entao quase periferica. Nao era habitada por gente elegante, mas no entanto da minha varanda podia-se ver, seguindo com os olhos uma abertura lateral, para la do portao de uma casa patricia onde vivia uma familia que tinha trem e cavalos, criados de Iibre e um nome prestigioso na cidade. Um mundo inacessivel mesmo as minhas mais roseas previsdes. A unica pessoa que eu conhecia na rua Asmara era o dono da tabacaria, onde ia com frequencia para comprar os charutos Cavour preferidos de meu pai e um pauzinho de alcacuz para mim. Os unicos encontros possiveis eram o tremulo <<barba I>>-o tio I-, assim chamado por causa dos ih! ih! prolongados que emitia enquanto empurrava o seu carrinho de gelados, e Pippo Bixio, um inimigo de infancia que as vezes me batia, roubando-me os charutos e o alcacuz.

Alguns anos depois mudamos de casa, para nos transferirmos para outro bairro, para um aparta

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mento moderno, baixo de pe direito mas cheio de comodidades, incluindo ascensor, aquecimento central, que ficava quase sempre apagado, e uma sala de jantar em bungatow, quase tubaronesca. Acabado o liceu, atingi rapidamente os 18 anos, depois os

20, e comecei a sair de casa a noite. Passeava debaixo das arcadas, sem destino, nao conhecia ninguem e nunca mais voltara a passar na rua Asmara. Um dia um jovem escultor que encontrei por acaso comecou a proteger-me, anunciou que eu tinha um temperamento ainteressante~ e prometeu que me faria entrar no seu mundo. Cumpriu a promessa, apareceu a um seguinte encontro de chapeu de coco, sapatos de verniz, e meia hora depois um trem alugado por ele deixava-nos diante da fortaleza que durante anos eu espiara da minha varanda. Parecia-me que estava a sonhar.

Fui apresentado a dona de casa, a uma sua pa

rente e a uma governante alema, todas mulheres gordas a quem o escultor beijou a mao; e depois apareceram os filhos, de cabelos loiros, dois rapazes e uma rapariga que pareciam ter muita intimidade~ com o escultor. A casa era rica e muitos quadros~ nas paredes pareciam feitos as riscas e as pintinhas,: em confeitos que todos diziam ser modernos. Demos~ tambem uma volta pelo jardim, la no alto em frente~ do porto, que oferecia um panorama incomparavel.~] Depois tomei cha, que foi deitado de um samovar,~ uma especie de chaufe-tit resplandecente e murmu-~ rante. Todos falavam em italiano, com grande dis-~ tincao, embora com uma cadencia assustadoramente~ dialectal. Discutiu-se um artigo do Caffaro, sobre a:~; Leila de Fo~azzaro. e um senhor de cabeleira branca~









cantou Zaza, Pequena Cigana acompanhado pela governanta.

Passei la um par de horas, longas para a minha timidez, ate achar que devia despedir-me. Disseram-me cerimoniosamente que voltasse a aparecer e sai, acompanhado gentilmente pelo filho mais novo, Giacinto, porque o invejado escultor ficava para o jantar. Giacinto, que era pouco mais ou menos meu coetaneo, levou a sua amabilidade a dar alguns passos na minha companhia em direccuo a rua Asmara. Chegamos precisamente debaixo da varanda da minha infancia. Ai, enquanto o jovem me apertava a mao com ar de proteccao, levantei os olhos e vi, revi, com um baque de coracao, a cana da Sr.a Laguzzi pender da janela. Evidentemente a imortal velha devia ter-se zangado tambem com os nossos sucessores! Foi um instante, mas Giacinto e os seus (incluindo o escultor) ignoravam o meu passado e eu estava mesmo resolvido a mante-los na ignorancia. Por isso perguntei com suficiente descaramento:

-Que Diabo sucede aqui? Estao a pesca?

-Parece que sim -disse Giacinto distraido. -As vezes vejo esta cana quando passo. Quem sabe para que... ~ uma casa de pequenos burgueses, de povinho...

O tiro tinha sido disparado e apanhei-o sem vacilar. S6 o ladraozito do Pippo Bixio poderia ter-nos encontrado e desmascarar-me. Mas o temido encontro nao se deu, nem naquele dia nem nunca mais. Para mim, comecava realmente uma vida nova.

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A CASA DAS DUAS PALMEIRAS

O comboio estava a chegar. Entre um tunel e o outro, numa pequena aberta-um abrir e fechar de olhos se o comboio era um directo e uma eternidade se se tratava de um onibus ou de um comboio operario-, aparecia e desaparecia a villa, urn pagode amarelado e um pouco debotado, visto de esguelha, com duas palmeiras a frente, simetricas mas nao exactamente iguais. Eram gemeas no ano da graca de 1900, quando foram plantadas, depois uma teve um impulso e cresceu mais do que a outra, nem nunca mais se encontrou maneira para retardar a primeira e acelerar a segunda. Naquele dia o comboio era um <<operario>, e a villa, embora meio escondida por construcoes mais recentes, pode ver-se durante muito tempo. Do lado poente, no cimo de uma escadita mascarada por uma sebe de pitosporos, era costume que alguem (mae ou tia ou prima ou sobrinha) agitasse uma toalha para saudar quem chegava e sobretudo (se do comboio se respondia agitando o lenco) para se apressar a meter na panela os gnocchi (1) de batata. Estava prevista a chegada

(') Especie de massa caseira. (N. do E.)

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do parente de turno, seis ou sete minutos depots, devidamente cansado e com apetite. Cinco horas de comboio e de fumo!

Naquele die ninguem acenou com um farrapo branco do cimo da escadita. Federigo teve uma sensacao de vacuo e meteu a cabe,ca pare dentro, antes de o comboio entrar na ultima galeria. Depois tirou a male da rede e preparou-se com os dedos no manipulo da porta. A locomotive afrouxou com um silvo prolongado, a escuridao seguiu-se a luz e com um solavanco o comboio parou. Federigo desceu, tirou pare o chao a sue maleta com algum esforco.

A estacao era pequena e estava colocada entre a abertura de duas galerias, em frente de uma escarpa de vinhas e de rochas. Quem prosseguia viagem voltava a entrar logo na escuridao.

-Bagageiro?-perguntou um homem descalco e bronzeado aproximando-se do unico passageiro que usava gravata e colete.

-Pega-disse Federigo entregando-lhe a male e perguntando a si mesmo: aQuem sera este?>>, porque a care nao lhe era estranha; ate que um relampago lhe iluminou o cerebro e acrescentou um cordial <<Oh, Gresta, como esta?>>, apressando-se a apertar a mao do homem que carregava com o seu peso.

Era um amigo de infancia, um seu companheiro de caca e de pesca, que nao via ha mais de trinta~ anos e tinha esquecido ha vinte pelo menos. Um indigene, um filho de camponeses admitido a conviver com os filhos do unico verdadeiro senhor do luger, quando Federigo era ou julgava ser filho de senhores. Desceram a escada e encontraram-se de repente junto ao mar, separados das ondas por um

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pequeno muro e por uma delgada file de tamargueiras. A esquerda de quem descia, outro tuner conduzia a aldeia, invisivel; a direita estendiam-se as poucas cases dos ex-emigrantes, assentes em socalcos de rocha e circundadas por pomares raquiticos. Era preciso seguir aquele caminho, voltar a direita num barranco seco pare chegar ao pagode de once ninguem-mesmo ninguem-tinha desfraldado ao vento um trapo branco. Puseram-se a caminho conversando. Federigo reencontrava em si um dialecto que julgava ter esquecido; e como o Gresta-assim chamado por cause de uma crista de cabelo de que ja nao se descobria vestigios-tinha ficado igual em tudo o mats, e nao menos iguais tinham ficado o caminho e as habitacoes que se avistavam em redor, aquele mergulho fore do mundo que ja era habitual, aquela recuperacao de um tempo que ele julgava quase imaginario, tinham realmente qualquer coisa de milagroso. Federigo julgou por instantes que enlouquecia e deu-se conta do que teria se a vida passada se pudesse <<voltar a tocar>> daccapo, em edicao ne varietur e ate se consumir, como um disco gravado uma vez pare sempre.

Reflectindo melhor, variantes havia-as (a falta da sauda,cao com o lenco, por exemplo) e o desanimo de Federigo foi de breve duracao. O Gresta, entretanto, parecia nao ter reparado. Falava da pesca as anchovas, da colheita, da primeira passagem dos pombos torcazes -incidentalmente tambem da passagem dos Alemaes e das sues opressoes-, e tambem aqui a mistura do velho e do novo nao era feita pare confirmar Federigo na primeira impressao de uma reversibilidade da ordem temporal.

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Uma casa cor de salitre, com uma tentativa de bungalow no segundo piso, parecia contudo reavivar a primeira ilusao porque cada uma das pedras, cada remendo e ate o cheiro a peixe podre e a alcatrao que a circundava puxavam-no perigosamente para o fundo, no poco das memorias; mas tambem neste caso o prestavel Gresta se apressou a livra-lo de embaracos, informando-o de que o Sr. Grazzini, o descal~co e corpulento dono que tinha feito fortuna engulindo diamantes nas minas da Africa do Sul, tinha morrido ha tempos e a propriedade tinha passado para outras maos. Dois passos mais a frente foi a vez de uma casa de renda, cor de morcela, de onde Federigo receou ver aparecer o nao menos barrigudo Sr. Cardello, muito estimado na aldeia apesar de ter morto a primeira mulher com um pontape no ventre. Receio vao, porque de Cardelli ja nao havia nem sombra ali pelos arredores.

E o advogado Lamponi, que tinha levado ao suicidio o seu irmao mais novo para receber o seu seguro de vida? (Um chale em bico, verde-garrafa.) E o cavaleiro Frissi, que tinha incendiado varias vezes a sua loja vazia, em Montevideu, para encher os bolsos de dinheiro? (Um monstro de torres, de colunas, de serpentes entrelacadas e de trepadeiras que levavam para casa nuvens de insectos e de ratos. E la de dentro um fim-do-mundo com o gramofone de campanula-R{di pagliaccio, Ninn mi tema Chi mi frena in tal momento?-e os caramba! im petuosos de um velho colerico e alcoolizado.)

Por instantes Federigo receou ver os dois senhores da vizinhanca virem ao seu encontro: de calcoes o primeiro, os suspensorios a baloicarem sobre as

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barrigas das pernas a descoberto e um fio de ouro sobre o peito cabeludo; taciturno o outro, sob a aba do sombrero de palha, rodeado de mulheres de luto e espessa e palpavel aureola da ~posicao~ alcancada e da beneficencia distribuida a maos cheias. Mas nao havia perigo, o Gresta citava outros nomes, falava de outros donos, e so a forma das casas com o reboco o cair e pas de um moinho de vento para tirar agua faziam Federigo regressar aos anos da sua juventude.

Finalmente chegou-se a dificuldade final: o barranco enxuto, com o pequeno carreiro sobreelevado, a ponte vermelha, o portao enferrujado e a alameda em subida que levava ao pagode protegido pelas duas velhas palmeiras. O saibro rangeu sob os pes calcados de Federigo, sobre um ramo de figueira baloicou uma toutinegra que encheu o ar com os seus efeitos vocais e do tanque das lavadeiras uma mulher de cabelos brancos, nao velha, avancou para cumprimentar.

-Oh Maria-di s se s imp lesmente Federigo , e foi de novo como se trinta anos retrocedessem de repente e ele, Federigo, voltasse a ser o homem de outrora, continuando na posse das riquezas acumuladas mais tarde. Mas que riquezas? Nada de diamantes, nada de lojas incendiadas, nenhum parente despachado para o reino dos antepassados, nenhum contacto material, utilitario, com aquilo la da aldeia. Uma incessante e involuntaria obra de desenraizamento, um longo periplo por ideias e formas de vida la desconhecidas, a imersao num tempo que nao era marcado pelo relogio de sol do Sr. Frissi.

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Era esta a riqueza de Federigo ? Esta, ou pouco mais, embora a mala fosse pesada.

No fim da rampa o Gresta foi mandado embora com uma gratificacao e um aperto de mao e Federigo seguiu a rapariga envelhecida que tinha passado toda a vida com os seus. Falaram familiarmente, sem dizerem que se achavam muito mais velhos. Falaram dos vivos e dos mortos. Chegaram diante do pagode, Federigo voltou-se, reconheceu o vasto anfiteatro em que surgia o mar, revIu o choupo inclinado prUximo da estufa, onde tinha morto com a Flobert o primeiro passarinho, levantou os olhos para as janelas do terceiro piso, sede dos retratos dos antepassados, depois entrou na sala de jantar, no res-do-chao, e o seu olhar percorreu as paredes rugosas. Na parede ja nao se encontrava a panoplia das lancas e setas, oferta de um sargento do semaforo que tinha passado anos na Eritreia, mas o baixo-relevo de madeira que representava um Verdi Jovem e austero ainda existia. Federigo visitou rapidamente a casa e sentiu um aperto no coracao como se tivesse encontrado um fantasma de familia quando no fundo de um certo assen.o de porcelana voltou a ler a marca de fabrica <<The Preferable Sanitary Closet>>, a primeira frase inglesa de que ele se recordava. Naquele pequeno compartimento nao estava nada mudado. No resto encontrou alteracoes camas a mais, bercos vazios, novas imagens religio sas nos espelhos, sinais de outras existencias que tinham substituido a sua. Visitou tambem a cozinha onde Maria soprava o lume, estendeu um mosquiteiro sobre o que devia ser a sua cama, pegou numa cadeira de repouso e estendeu-se diante da casa de

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. ~

l

que ficara proprietario de uma decima quinta parte. Disse para consigo: poucos dias de ferias com os meus mortos; passarao depressa. Mas de repente pensou com preocupacao no sabor dos alimentos que lhe iriam ser servidos. Nao era um sabor mau, mas era aquele, era o sabor de familia que passa de geracao em geracao e que nenhuma cozinheira podera jamais destruir. Uma continuidade que, destruida noutras coisas, resiste na gordura dos fritos, no odor dos alhos, das cebolas e do mangericao, nos recheios pisados no almofariz de marmore. Por ela ate os seus mortos, condenados a um alimento mais leve, deviam voltar de vez em quando a terra.

<<Mas tu tens uma casa tua a beira-mar>>, tinham-Ihe dito com frequencia os amigos, surpreendidos de o encontrar em certas praias mundanas onde ate o mar parece servido enlatado. Tinha-a realmente (por uma decima quinta parte) e tinha voltado para a ver.

La dentro, o tilintar discreto de um copo informou-o de que o jantar estava na mesa. Ja nao era o buzio que seu irmao punha a boca e tocava como se fosse uma charamela para a reuniao familiar. Onde teria ido parar o buzio? Era preciso procura-lo.

Federigo levantou-se, fez pontaria com o dedo para a toutinegra que 0 tinha seguido arriscando-se ate ao choupo junto da estufa e disparou mentalmente um tiro.

-Sou ridiculo-murmurou depois.-Vai ser uma estada deliciosa.

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1

A MULHER BARBUDA

O maduro senhor vestido correctamente de cinzento que assistia a saida dos alunos do colegio dos Barnabitas nao tinha despertado, antes, qualquer atencao aos poucos adultos que estavam la fora a espera. So o porteiro murmurou: aNunca o vi aqui; que vem ca fazer?~ Os pequenos saiam em ~ lninhos de dois ou tres, ou tambem sozinhos; poucos encontravam algum grande que lhes desse a mao. Mas entre esses grandes o senhor maduro, decepcionado, nao viu nenhuma criada. Umas d~l~c rmnres~a das domestir~c ~r rh~nrl1 t~lve7 cim. ma.c criadas. nenhuma.

O senhor maduro-chamemos-lhe o senhor M., para abreviar-disse por entre dentes aja esperava~ e encaminhou-se lentamente para as arcadas da rua 20 de Setembro. As arcadas estavam pouco mais ou menos como ha quarenta anos, e tambem o edificio da escola nao estava muito mudado. O senhor M. tinha mudado muito e sabia-o, mas como evitava ver-se nas montras das lojas, podia tambem esquecer que quarenta anos nao tinham passado por ele em vao Estendeu nor isso a mao ~ mulher aue vinha









ao encontro dele, passou-lhe o cestinho em que t~nha transportado o seu almoco, o ma,co dos livros, envolto numa tela encerada apertada com um elastico, e deIxou-se levar ate a dificil passagem que leva a rua Ugo Foscolo, um trecho de rua apinhado de gente e percorrido por carros e autom6veis rebeldes as indica,coes do hacchifero, como se chamava na cidacle ao sinaleiro, o homem do bastao. Depois, no princip io da des erta e ziguez aguean te sub i da dedicada ao cantor das <<Gra,cas~, o senhor M. retirou a mao da da velha e seguiu para a frente por sua conta. A velha seguia atras dele, curvada, o cestinho e o embrulho dos livros tremiam-lhe nas maos, a distancia aumentava lentamente: nao era possivel acompanhar o passo daquele batuso.

O senhor M. sabia perfeitamente que ja nao era um batuso (um garoto), nao ignorava que a velha hIaria morrera trinta anos antes num recolhimento a pagar, onde a tinham internado quando em casa Ja nao era possivel ter uma octogenaria em completa decadencia, para nao dizer putrefaccao. Sabia-o, mas como as ruas e as casas eram quase iguais entre o Instituto dos Barnabitas e a sua casa de ha quarenta anos, ele pensava que nao era urna extravagancia da sua parte ter evocado em corpo e espirito a defunta guardia dos seus passeios infantis. Porque e que tinha querido assistir a saida dos alunos da primaria, precisamente naquela escola, senao para a encontrar? Os locais onde ele teria podido materializar Maria estavam reduzidos a dois: aquele percurso e a cozinha da casa paterna, em Montecorvo, onde o senhor M. nao punha os pes ha anos: noutras casas

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destruidas ou que tinham passado para novos inquilinos nao se podia pensar.

O senhor M. parou por baixo dos paredoes da Acquasola e sentou-se num frade de pedra:-~ preciso esperar por ela-repetia-; ficou muito para tras.

Velha desde que nasccu, analfabeta, encurvada e barbuda desde sempre, mas guardia segura das fortunas dos M. ainda antes de o paterfamilias se ter casado, deitando rebentos nao indignos, Maria fora, entre os 15 e os 80 anos, o arbitro e a orientadora da sua nova casa. Tivera uma casa dela, e 6bvio; mas para la ir tinha de esperar a estada de Verao, em Montecorvo, e depois fazer a pe cerca de dez horas de caminho. Por duas ou tres epocas, durante os primeiros anos, sujeitara-se aquela empreitada, depois, quando reparou que la ja nao se lembravam dela ou a consideravam como uma forasteira, uma intrusa, Maria desligara-se totalmente dos casebres dos seus lares. Tinha duas casas quase suas, na cidade e no campo, filhos como seus para acompanhar a escola, filhos bem distribuidos no tempo, desde os 2 aos 15 anos, de tal modo que prometiam longos cuidados e assistencia, e depois ponto final e recomecar outra vez num ambiente de consoladoras promessas. O prazer de viver nasce da repeti,cao de certos gestos e de certos habitos, do facto de se poder dizer: <<Vou repetir o que ja fiz e sera mais ou menos o mesmo, mas nao exactamente 0 mesmo.>> Nasce no identico e e igual tanto para 0 analfabeto como para o letrado.

-Ei-la-disse 0 senhor M., vendo-a aproximar-se, e em pequenos saltos afastou-se para a rua

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Serra, enfrentando com um pouco de asma a subida dos Capuccini. No cimo encontrou a ~vacaria>> onde parava durante algum tempo para beber um copo de leite e para trincar dois biscoitos do Lagaccio. Sentou-se tambem desta vez no jardim, mas ficou desagradavelmente surpreendido por se encontrar num moderno cafe onde se espalhava um acre odor de cafe de maquina, e nao ja de leite fresco acabado de mungir. Ficou uns momentos indeciso, depois quando o criado se aproximou, disse-lhe secamente aenganei-me>> e saiu a correr, com

cos clientes.

Maria estava a chegar, ofegante; acompanhou-a por um bocado. Divertia-se a espicaca-la com inocentes gracejos, s6 mais tarde e que as setas se tornaram afiadas. No vale de Levanto passavam as tropas de Napoleao quando ela era ainda adolescente. Como e que tinha conseguido defender-se? Nao era uma histbria a virgindade de que sempre se

surpresa dos pou

Naturalmente, Maria nascera meio seculo depois da passagem daquelas tropas, mas ignorava este facto e limitava-se a entricheirar-se atras de negacoes tenazes e imotivadas. Dizia que nao se recordava de nada, nem de soldados nem de oficiais; tinha tido um namorado, mas nunca consentira que ele lhe tocasse com um dedo. Ele partira da aldeia para procurar trabalho e nunca mais dera noticias suas. Quem sabe ha quantos anos teria morrido.

O senhor M. nao queria enfrentar um argumento que nao achava compativel com os 10 anos de idade

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que tinha chegado a atribuir-se, mas quase nao lhe vinha aos labios outra conversa. Retrocedendo a primeira infancia, nao tinha conseguido desfazer-se da parte de si que viera depois. Voltava a ver Maria no hospicio, ja incapaz de se levantar mas sempre em luta com as companheiras e com as freiras demasiado avaras de a,cucar, relia a participa,cuo da sua morte, recebida quando ele tinha deixado a casa paterna ha muitos anos. Onde estava enterrada a velha? Quem sabe?, nunca tinha visitado a sua sepultura. De Maria nao se lembrava quase nunca, s6 de fugida lhe recordava a imagem nas horas mais negras da sua vida. Uma existencia inutil, sem sentido e sem fim a de Maria, a velha andrajosa e analfabeta. O senhor M. era certamente a unica pessoa no mundo que conservava uma vaga recordacuo dela. As vezes tinha lutado contra aquela mem6ria, tinha procurado desfazer-se dela como se fuz de um farrapo que se poe de lado. Em todas as casas que nao mudaram de donos existe ainda qualquer caixa vazia, qualquer bugiganga que nenhum dos que vieram depois ousaria tocar. Na vida do senhor M., que ja nao tinha casa, nenhuma velharia de antiga data podia ja aspirar a funcao de tabo. Restava-lhe aquela sombra tremula e laboriosa que ele ha anos procurava afastar e que agora caminhava ao seu lado, a soprar para conseguir acompanhar 0 seu passo de cabrito.

Uma existencia inutil? Que erro, dizia 0 senhor M. Quando todas as criadas velhas tiverem desaparecido do mundo, quando todas as engrenagens do universo tiverem um nome, uma funcao e uma

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1 i









consciencia de si, quando a balan,ca dos direitos e dos deveres estiver em perfeito equilibrio para todos, quem podera voltar a casa com um fantasma, quem podera vencer o horror da solidao sentindo a seu lado a proteccao de um monstro angelico e barbudo?

O senhor M. tinha-se abeirado do parapeito e olhava para baixo, para a imensa extensao de tectos cinzentos, para o porto, a Lanterna, o mar batido pelo vento sudoeste para alem dos molhes. Podia-se subir ate la acima num ascensor que saia do coracao da cidade. E a cada instante a cabina do ascensor chegava, e um grupinho de pessoas atravessava a pequena praca sem se voltar para tras para observar a paisagem demasiado conhecida.

Uma voz chamou-o pelo nome, sobressaltou-o.

-Olha, quem se ve! Que fuzes aqui suzinho? Havera uns trinta anos que nao nos encontramos.

Era um seu velho companheiro de escola, nao da escola primaria, um homem da sua idade, um rosto insignificante. Procurou recordar-se do nome remexendo nas trevas da memoria. Burlamacchi? Cacciapuoti ? Devia ser de quatro silabas. . .

-~ verdade-disse-, foi um encontro muito

agradavel. Estou aqui de passagem... sozinho... e resolvi parar um momento...

Gaguejava. Seria que o outro nao tinha dado por nada? Voltou-se e vIu junto do parapeito duas ou tres velhas e algumas crian,cas que nao pareciam preocupar-se com ele. Mas Maria nao estava, nao tinha ainda chegado ou tinha continuado por sua conta.

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_Tenho de descer depressa-disse, dirigindo

-se para a gaiolazinha do ascensor.-Adeus. Voltaremos a encontrar-nos cedo... tarde... nao

Desapareceu numa cabma que ec ou a '~ ~ desceu ranida. O outro continuou nela

valacao, abannndo a cabeca.









i~;

r~ MELHOR VEM DEPOIS

Mai se tinham sentado, a rapida e decidida escolha dela arrancou uma venia de concordancia ao jovem criado de mesa que se apresent~ra com a lista na mao.

-Consomme dunlo. uma paillard simplex, uma

mace assada e uma manzanilla.

-Manzanilla? Que e?-perguntou 0 senhor que estava com ela.-A mancenilheira fez morrer quem

dorme debaixo dela. A sue sombra e mortal.

-Como bebida fez furor: alguns dizem que e uma infusao de alfarroba. Da uma nausea muito aaradavel. Mas uma nao haCt~- f~ nrecico tomar

tres ou quatro por dia.

Levantou a mao a apontar as figures de um cartaz publicitario: homens e mulheres de cabelos amarelos gema de ovo, em traje de noise, deitados a combra de uma arande arvore e armados com

garrafinhas de gasosa, como se fossem bombas de mao: todos sorridentes. felizes.

O senhor continuou a percorrer a lista, muito incerto. Em seu socorro veio um criado mais velho e melhor escanhoado, que tr~ia a lista dos vinhos.









-Clarete, Bardolino, Chianti? Tokai do Frinli Clastidio? Paraiso de Valtellina? Ou Inferno?

-Pois seja o Paraiso. Mas por agora nao tomo mais nada. Preciso de pensar. Sirva a senhora.

Os criados afastaram-se e o senhor continuou debru,cado sobre o menu.

-Truta au bteu-disse a meia voz.-Linguado a la mauniere. Enguias a livornesa. Ah!, ah! Nao me tenta; fez-me lembrar o barranco lodoso que corria perto de minha case. Quem sabe se ainda existe. Serpenteava, se calhar ainda corre entre rochas e canaviais e s6 se pode percorrer as sues margens em pequenos trocos. Sim e nao, se choveu muito ha algumas pocas de ague em volta das quads se acotovelam as lavadeiras. Mas ha la enguias, as melhores do mundo. Raras, umas pequenas enguias amareladas que e dificil ver sob a superficie gordurosa do sabao que turva a ague. Para as apanhar era preciso circundar e fazer uma represa numa daquelas pocas com pedacos de arddsia teem enterrados na lame, depots despejar a ague com as maos em concha e por fim, antes que a ague voltasse a invadir a poca, salter la pare dentro com os pes descalcos e apalpar entre os seixos e a erva apodrecida do fundo. Se a enguia aparecia e nos tinhamos um garfo, a coisa era quase certa; um movimento rapido, a enguia trespassada e a sangrar era erguida e atirada pare a borda, once se torcia ainda por algum tempo. Sem garfo era um problema serio, a enguia escapava-se-nos por entre os dedos, escondia-se debaixo de uma bolha de sabuo e desaparecia. Era preciso uma meia hora de

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for,cos pare apanhar uma de vinte centimetros, `,icrosa. imunda, meio estripada, incomivel.

-Mas t31 ~nmia-la?-nerguntou ela, cbpullla~"v

. . _

mostarda a, narela sobre a paillard semicrua

zebrada pela grelha.

-Comiamo-la em tres ou quatro depots de a termos chamuscado num fogo de palha e de paper. Sabia a fumo e a loco. Era deliciosa. Mas nao era senao a primeira entrada do no-sso almoc,o. Normalmente, aquela hora ja tinhamos pronto algum prato forte: um papa-figos, por exemplo. Ficavamos dois ou tres emboscados debaixo de um choupo torcido, teem protegidos pelo estreito corredor que passava entre a estufa das plantas gordas e uma sebe de pitosporos. Os meus amigos tinham fundas de elastico (vulgo fisgas), mas eu dispunha de uma Flobert que tinha conseguido carregar com tres ou

quatro chumbos microscopicos.

<<Viamos o passarinho saltitar na figueira, era cor de mel, alimentava-se daqueles frutos, abrindo-os, com rapidos golpes dados com o bico fino e delicado. Passava raramente da figueira pare o choupo, e debaixo daquela figueira nao era possivel a gente esconder-se. No entanto, acontecia, duas ou tres vezes por epoca, que 0 papa-figos (pare nos era sempre ele, sempre o mesmo) com um rapido adejo sobrevoasse o estreito corredor e viesse pousar-se no choupo. Se pousava muito alto e ficava APm~ci~`ln escondido pela folhagem, nao

havia

nada a fazer; mas algumas vezes pousava em oalxo, a descoberto, a dois passos de nos. e entao disparavamos todos ao mesmo tempo, com a espingarda

P rnm ~ ~ f j c~as.









~Caia de esguelha, ou melhor, pousava em terra; estava ainda vivo; uma gota de sangue escorria-lhe do bico, os olhos negros e luzentes brilhavam ainda, depois um veu fechava-os. O papa-figos estava morto. Depenavamo-lo a pressa, quente como estava; todo o ar se enchia de penas levissimas. Bastava uma leve aragem para as levar embora. Ficava nu, amarelo, com a parte traseira recheada de gordura; desajeitado como um manequim, tinha ainda um pouco de penugem na cabecinha morta; mas um minuto depois um bom fogo de pinhas, no quintal, depenava-lha tambem. Pendurado num graveto, crepitava, pingando, untava-se a si mesmo enquanto a enguia estava a carbonizar-se por sua conta nas brazas. E o nosso almoco delicioso podia comecar. Eram as grandes ocasioes; comia-se assim duas vezes por ano...~

-E para beber?-perguntou ela, levando a b oc a s em ho rro r um o ceano de Manzanil la .

-Um balde de agua do poco tirado por entre a capilaria e o po de calica, com dez ou doze limoes espremidos para dentro; limoes melo verdes, grandes como uma noz.

O senhor ficou calado durante algum tempo, pensativo; levou aos labios o copo cheio de Paraiso e bebeu um golo, estremecendo.

-Nao, nao-disse depois.-Nao e a mesma coisa.

-Devias habituar-te a MarAzanilla-disse a rapariga, procurando o lapis para as sobrancelhas na sua trousse de tartaruga.-Nao faz morrer, leva embora a recordacao de tudo. Depois serias como uma mulher que saltou o fosso, que ja nao tem

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medo de nada. Mas tu vais continuar la dentro, no fosso; a pescar as enguias do teu passado.

criado de mesa voltou com ar desanimado.

-Um Chateaubriant?-perguntou.-um ve

loute de lagostins em tacja? Doze ou vinte e quatro escargots a la bourguignonne? Uma fatia de salmao do Reno? Ou prefere comecar com um acepipe de

-Eu queria-disse 0 senhor, em tom lugubre-uma coxa de papa-figos assada em lume de silva e uma enguia posta de molho em agua de sabao. Sei que nao e possivel. 11 pena. A conta, por

Tirou uma grande nota azul da carteira, pousou-a no prato e disse a rapariga:-Queres ir embora. Para a prox,ima vez, prometo-te, comeco tambem eu

A - - . A

com a Manzanilla.

-Mas nao desistas-disse ela.-Uma vez so nao basta. O melhor vem depois.

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EN1 CLAVE DE ~FA.

l l 1

i ~

-A partir deste re voce deve fechar, puxar a voz para a cabe,ca-explicou o velho maestro arpejando sobre o teclado.-Mais tarde abrira tambem 0 mi bemol, se for preciso, mas por agora... Diga u. Assim:-O-o-o-unu... (,ptimo.

Parecia-me que estava a emitir um gemido de alem-tumulo, um sibilo inumano; mas o velho maestro estava satisfeito. Pequeno, encolhido sobre 0 teclado, veneravel e ao mesmo tempo ridiculo, modulava as notas com uma boquinha em ovo de pomba que se abria a custo entre as goteiras dos grandes bigodes brancos e as abas tremulas da nivea barba patriarcal. Trinava como um rouxinol centenario e os olhinhos brilhavam-lhe por detras das lentes espessas.

As janelas (estavamos la em cima em casa) abriam para uma vasta praca quadrada, semeada de grandes guarda-s6is e de bancas de um mercadozinho. Ao longe, sobre um cavalo de bronze sempre empinadO, um general argentino espadeirava heroicamente o ar. A alameda que levava a beira-mar, a direita, era silenciosa e nela viam-se as tabuletas de

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parteiras e de obscuros mecanicos dentistas. Morava fore de mao, o velho maestro, mas tinha de ter paciencia. Ele so, tivera frequentes contactos com Maurel e Navarrini e fizera vir abaixo com aplausos o imperial de Sao Petersburgo e o Liceo de Barcelona, ele s6 estava a altura de me salver da assustadora incompetencia dos professores do Conservator~o. As licoes comecavam muito cedo, as oito e meia da manha, e normalmente demoravam trinta minutos. Pouco depots das nove ou entrava ja na Biblioteca Municipal, quase deserta aquela hora Nao havia uma grande variedade de livros e o fun cionario nao permitia que o incomodassem. Mas numa estante aberta encontrei alimento pare alguns meses. (Li la, nessa altura, nao sei quantos livros de Lemaitre e de Scherer, o descobridor de Amiel.) Entretanto as licoes prosseguiam regularmente. A pouco e pouco fui-me resignando a dizer adeus aquela que fore a minha voz, digamos assim, psicologica. Nao mais Boris, nao mais Gurnemanz, nao mais F~lipe II; era preciso esquecer as notes abaixo das linhas, os sons sepulcrais do eunuco Osmin e de Sarastro. O velho maestro era inflexivel neste ponto; e nem tao-pouco, no novo registo, me dava demasiadas esperancas de poder user um die o fez emplumado de Iago ou o mondculo e a tabaqueira de Scarpia. Tinha horror ao amoderno>>, que, segundo ele, me levaria a ruina. O meu genero devia ser o bel canto tradicional: Carlos V, Valentino Germont pai, o sargento Belcore, o Dr. Malatesta. era iSSO que ele queria pare mim.

aGiardini delt'Alc~zar-de' mauri Regi delizie- oh quanto...,, Do do do do martelados como um

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gongo, depots uma embrulhada de arabescos e volteios, subindo, subindo ate a grande acoroa,, de um fa agodo que chegava pare la da estatua do general e uma resolu,cao sobre o do de centro, de efeito irresistivel. Assim entra em cena Afonso XII de Castela, assim tinha vencido a sue batalha, quarenta anos antes, 0 velho maestro, quando D. Pedro do Brasil, a force de aplaudir, ia ficando com as maos esfoladas. Que tristeza, porem! Ja nao reconhecia a minha velha voz e nao sabia apreciar a nova. Estava na posse de outro instrumento, que nao me interessava. Acabada a minha meia hora chegavam outros alunos com quem depressa travel conhecimento. Um contabilista de 6culos do Lloyd Sabaudo, um sargento-ajudante dos carabineiros (o Sr. Calastrone), e uma senhora que tinha a cintura esguia, as pernas curtas e um pagode de caracois posticos na cabeca, mulher de um industrial que nao a compreendia (assim me disse ela logo), ensaiavam depois de mim o terceto dos Lombardi. Um dia. sentado la fore, perto de uma banca de muges e de lulas, fiquei longo tempo a escutar a vozearia (<<Quat volutta trascorrere...~) que chovia sobre os transeuntes aborrecidos. A Sr.. Poiret convidou-me varies vezes pare ir a sue case. Morava numa vivenda com ameias e torres once se entrava por uma ponte levadica; era de Caravaggio, apesar do nome frances do marido, e tratava-me por voi (vos) vinte anos antes de aquela desgraca se tornar obrigatoria. Estreou se na Cavatleria, em Pontremoli, depots desapareceu da circulacao. Faltava-lhe tudo menos voz. Soube por ela que 0 velho maestro, comigo sempre fechado, me considerava o unico aluno com que a









sorte o bafejara em tres lustros de ensino. O unico depois de madame, e 6bvio. Parecia-me ter uma nevoa nos olhos. Que se tivessem posto todos de acordo para se divertirem a minha custa? Interroguei, com discricao, o velho maestro e passaram-me todas as duvidas. Tinha de me resignar: nem a Sr.a Poiret (era o que faltava!), nem o engenheiro dos carros electricos que, ululante Amonastro, fazia levantar a cabeca aos pescadores estupefactos, nem a filha do director do manicdmio, umbratil Mignon e volumosa e felina princesa de llboli, nem o tremulo-afectado Nemorino do <<Sabaudo>>, e nem (oh esse entao!) o infeliz Sr. Calastrone eram dignos, segundo ele, de me atarem as botas. A voz, dizIa o velho maestro, nao contava nada. Era preciso o a~c{llo (falavamos em dialecto), ou, se quiserem, o ardor, pimenta no rabo. Na ~Santa medaglia>> de Valentino, o adolescente herdi de cabelos de estopa, na cena das cruzes e na da morte, se tudo corresse bem, tomar-me-iam por um novo Kaschmann. Sai daquele col6quio envergonhado como um cao. Era precisamente eu, pobre rato de biblioteca, que tinha sido dotado com o a~cillo? E com que utilidade para m~m, se me destinavam os papeis menos drogados do repertbrio lirico?

Com pimenta ou sem pimenta, foi obra do Diabo. Um dia. no regresso de um breve parentese de ferias, disseram-me que o velho maestro tinha morrido de repente. Vi-o estendido na sua caminha de solteirao, vestido de preto e emoldurado pela grande cabeleira prateada. Tornara-se pequenissimo. No seu quarto tinha diplomas, medalhas do Czar coroas de flores artificiais e recortes de jornais

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emoldurados Os alunos predilectos rendiam-se por turnos junto ao feretro com pequenos chios

<<cabeca>> (mi mi mi), como ratos, para manter a voz em forma. Acabado o funeral voltei a partir ara o campo e pouco depois fai engolido pelo uartel da Pilotta, em Parma. O encanto, se nao o

canto, tinha acabado para mim. E creio que o ve~no maestro tivesse levado consigo, para o alem, tambem aquele fantasma sonoro, aquele seu alter e~o vocal que ele quase as minhas escondidas e ec o minEz' custa. astuciosamente descobrira e cons

truira em mim, talvez para reencontrar a sua Juventude distante. Quando, anos depois, voltei a expe-;mP=t~r ~n niano. descobri que tinham voltado ao

seu lugar, de facto; 0 mi cavernoso do Grande Inquisidor e o re contrabaixo do gordo Osmin. Mas agora

que podia eu fazer?









SUCESSO

Na outra noite, no teatro, 0 chefe da claque devia ter adormecido. (A opera, bonita mas nao popular, favorecia o sono e tornava dificil a dosagem dos <<muito bem'> e dos ~bravo~.) So assim consigo explicar que uma aria do baixo, com duas estrofes em pendant, tenha sido interrompida por intempestivos aplausos no fim da primeira estrofe, quer dizer, num ponto em que nenhuma clausula sonora, nenhum efeito de voz, podia justificar os imprevistos aplausos. Que e que acontecera? O chefe da claque, acordando, tinha dado o seu sinal antes de tempo: foi tudo. Houve pedidos de silencio e a aria recomecou; mas agora o jogo ja estava descoberto e quando o efeito se apresentou e o baixo se resolveu a descer a ~cave,,, o aplauso cansado que partiu de um lugar ja topograficamente suspeito nao con

venceu ninguem.

, v

1! preciso ter muita indulgencia para com os claqueurs. Nao creio que ganhem muito dinheiro, e nos locais onde o publico ostenta uma injustificada frieza para com os campeoes da arte lirica eles desempenham uma funcao perfeitamente compreensivel. Uma opera sem aplausos nao aquece 0 coracao, nao e sequer um espectaculo. Renunciar









a ver a frente do pano fechado Radames e Ramfis depois do mugido sincrono ~immenso Fta>>, nao querer apreciar de perto os seus roupoes, os seus turbantes, e perder metade do prazer que pode dar a Azda; nao apoiar com um rosnar de aprovacao o gargarejo que emite o Sparafucile quando se afasta do Rigoletto depois de lhe ter feito a torpe proposta e, pelo menos, uma falta de caridade, de solidariedade humana. Aquele modesto som de ralador nao e dificil como som, mas nao e apenas um som e o simbolo de to da uma vida de mergulhador . Quem viveu em quartos alugados, em albergues e pensoes de quarta ordem, sentiu milhares de identicas, nao dostoievskianas, <<vozes do subsolo>>.

O aplauso daquela noite fez-me voltar atras no tempo. Antigamente os claqueurs eram recrutados entre os barbeiros. Nao aplaudiam por profissao, mas por paixao; e menos mal se aquela paixao podia render alguns patacos. Eu proprio, quando me resolvi a estudar o bel canto, recebi do meu barbeiro a minha primeira iniciacao no <<ambiente>>. O barbeiro Pecchioli, chefe de claque da minha cidade, era um apreciador e raramente dava o seu sinal fazendo estalar o indicador contra o polegar. Nas partes mais conhecidas, nas arias de efeito mais evidente, deIxava fazer aos seus adeptos e ao publico pagante. Intervinha s6 nos casos dificeis: nalguns pianissimo, nalguns raros diminuendo, nas descidas profundas vocais mais arriscadas. E entao sussurrava um <<bravo>> tao espontaneo que ninguem podia desconfiar que por baixo disso estivesse um pre,co, uma tarifa.

Pessoalmente, devo dizer que eu nao era um dos

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l..

seus clientes favoritos, antes de lhe confiar as sortes do meu destino canoro. Cliente raro, daqueles que recorrem ao barbeiro s6 para cortar o cabelo e recusam lavar a cabec,a, as logoes e as dispendiosas fric,coes, nao podia atrair as suas simpatias. Todavia, numa certa ocasiao ele resolvou recorrer a minha ajuda de adventicio e por uma noite achei-me arregimentado entre os seus ciaqueurs. 0 caso era novo e complicado. Na minha cidade, um rico concidadao regressado da Argentina dava um concerto de musicas suas. Jose Rebillo, pintor modernista e autor de musicas varias, nao era propriamente um musico e dizia-se que nao conhecia sequer as notas; mas compunha musicas directamente para a sua pianola, recortando e furando rolos de cartao com tesoura e sovela. O que saia depois daquela maquineta era entao transcrito, harmonizado e frequentemente orquestrado por outros.

Naqueles tempos a musica futurista era representada quase exclusivamente por Wagner, entao ja suportado pela maioria. Mas uma musica como aquela do Sr. Rebillo, toda dissonancias e estridores, nunca se tinha ouvido. Era um genio, Rebillo, ou um louco? A julgar pelos titulos das suas composi

goes-recordo uma Ninfea morente (Nenufar Moribundo), apresentada como uma <<natureza morta musical~-, deveria concluir que ele era pelo menos um precursor. Mas entao menos do que hoje teria podido aperceber-me.

Aconteceu assim que na noite do concerto entrei

tambem eu no Politeama com um bilhete de favor e com o proposito de fazer o meu dever; mas quando o moribundo Nenufar exalou o seu ultimo suspiro

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e eu estava para bater palmas, um coro de assobios de protestos levantou-se de todas as filas da plateia e de todos os cantos das galerias e o debil grito de <<Viva Rebillo~ foi submerso por um quase unanime grito de <<Basta! Fora o autor! Fora da porta!~ que atingiu ate o diapasao de um <<Morte a Berillo!>> onde o nome do compositor aparecia poeticamente estropiado. Era uma ac,cao da contraclaque? Ou o Sr. Rebillo tinha muitos inimigos na cidade? Nunca o soube. Apanhado no tumulto, longe de Pecchioli, apressei-me a enfileirar ao lado da maioria e juntei-me vilmente aos que gritavam aAbaixo! Rua! >> A noite acabou entre os assobios e as risadas e eu afastei-me antes que o meu achefe>> me visse

Meses depois fui levado, por outros, a casa do musico que eu assobiara. Vivia numa casa neog6tica na qual se entrava por uma inutil ponte levadi,ca. Rebillo passava la os seus dias furando cartoes e borrifando pintinhas em grandes telas. Falava em dialecto da Riviera misturado de palavras crioulas; e lia s6 a Prensa e a Scena Illustrata. Como e que Ihe tinha entrado na cabeca a mania da vanguarda ninguem pode compreender. Grande, gordo, calvo, de bigodes e ignorante, era provavelmente o homem mais inspirado que jamais tivesse vindo ao mundo. Talvez em Paris, vinte anos depois, o tivessem tomado a serio; mas naquela cidade sensata e comercial nao havia nada a fazer. Rebillo, porem nao conhecia s6 penduras e claqueurs, gente que aparece apenas a hora do almoco e de receber a conta. O seu melhor amigo e confidente era um empregado dos correios, o Sr. Armando Ricco, homem baixinho e imberbe que usava mondculo preso

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com uma fita e escrevia milhares de sonetos parnasianos. Cada urn dos seus versos tinha pelo menos duas diereses e afirmava que nisso tinha batido o seu Deus, 0 grande Ceccardo. Segundo ele, um poeta nao podia escrever uma linha em prosa sem se desqualificar. Gostava das expressoes elevadas, nao dizia aos homens*, mas aOS humanos~; e com tudo isto fingia que desprezava D'Annunzio. Viveu muito tempo, sempre altivo e sempre inedito. Dizia que trabalhava para a posteridade. Por volta da meia-noite, quando os barbeiros e os convidados se afastavam, Rebillo e Ricco ficavam s6s, a pianola comecava a trabalhar com assobios e espirros e Ricco recitava os seus versos acentuando muito as diereses e cerrando os olhos.

Nas noites serenas as ondas do mar vinham

quebrar molemente contra a falesia que defendia a torre neog6tica do Sr. Rebillo e creio que continua a quebrar-se ainda, embora a torre ja nao esteja em pe. Ignoro que fim tiveram, depois da morte do musico, as montanhas de rolos que atulhavam o seu retiro de meditac,ao. Menor problema tera sido o de destruir os versos de Armando Ricco, que morreu desconhecido.

De encontros semelhantes aprendi uma verdade que poucos conhecem: a arte concede generosamente as suas consolacoes sobretudo aos artistas falidos. Por isso ela ocupa tanto espaco na vida dos homens: e por

^~ , - r-- isso o musico Rebillo e o poeta Ricco, evocados por mim, instintivamente, pelo desajeitado claqueur daquela noite, mereciam talvez uma palavra de lembran,ca que qualquer alma bem formada deve aos seus mestres.

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aIL LACERATO SPIRITO....

Nli, e so numa minima parse ouvi, uma colec,cao de velhos discos pare canto e piano gravados entre 1903 e 1908. O aredos da sue

velho senhor que mc .lll~.v~ .._ discoteca e um tardio conservador das reliquias musicals daquele tempo. Quando era jovem ~a quarenta anos) dobravam ja os sings pela morte do bel canto. Nao houve discos no periodo aureo: e quando a nova invencao permitiu fixer, enlatadas, vozes heroical sobreviventes (os primeiros cilindros de cera pareciam realmente latas de tomate em conserve), as insuficiencias do novo meio tecnico nao permitiram que delas se embalsamasse mais do que uma sombra. As vozes saiam deles estridulas, sem corpo, alteradissimas de timbre. Sobretudo irreconheciveis se fossem graves. So um iniciado pode hoje <<reconstruir~ criticamente a invocacao da Ebrea aSe opressi ognor...>> tal qual saiu dos labios do gigantesco Navarrini (dots metros de estatura), carregado de anos e de gloria no alvorecer do seculo.

Os divos de entao-e tiveram nao mostraram bom agrado a nova

muitas razoes- descoberta. Pe

















rante a perspective de se apresentarem a posteridade assim falsificados, pensaram: e melhor sermos esquecidos que ouvidos deste modo. Mas depots alguns come,caram a ceder; e alguns outros, pelo contrario, deixararn-se cair numa ratoeira. Em 1903, na estreia da Africana no Metropolitan de Nova Iorque, houve quem escondido nos bastidores conseguisse captar quanto chegava ate ele do desembarque de Vasco da Gama e do inspirado arioso aO parad~so>, na execucao do tenor De Reszke, congelando no disco tambem os ruidos dos bastidores e as ovacoes do publico. O disco foi depots gravado regularmente e editado em varios exemplares.

O que eu ouvi e considerado o unico exemplar actualmente existente; e tem um inestimavel valor de antiguidade. Quem conhece de cor aquele trecho de Meyerbeer e as sues inumeras dificuldades consegue ainda apanhar algum sentido; pare os outros a impressao so pode ser de um murmurio interrompido por vociferacoes diversas e que termina por um si bemol duro e descendente, submerso por uma onda de gritos e de aplausos que parecem insultos. Nada mais resta de Jean de Reszke, de nenhuma outra sue gravacao o velho senhor teve qualquer noticia.

Posteriores de poucos anos devem ser as captacoes da aria aIo non son che una povera ancella. .~ (Adriana Lecouvreur) na execucao da superdlva Angelica Pandolfini, que criou aquele paper, e da afoita serenata de Don Giovanni ~De' vieni alla finestra,>, cantada por Victor Maurel. Atraves da muita ferrugem conseguimos convencer-nos da portentosa melodia de Angelica, mas flea-se estupefacto com

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os arbitrios e as vulgaridades daquele que foi, em Franca, o penultimo sobrevivente do bel canto italiano. Totalmente indeciEraveis resultam os guinchos do Home, sweet home na execu,cao da entao sexagenaria Adelina Patti; ao passo que da morte de Otelo, por Tamagno (um Tamagno que tem a voz de uma melga), saltam ainda algumas centelhas de grandeza.

A audicao durou bastante tempo; mas, mais do

que o sentido daquelas vozes ja petrificadas, a minha curiosidade ia pare o segredo que o velho senhor certamente escondia em sit E antes de me despedir nao me foi dificil faze-lo confessar.

Apaixonado da arte canora, indeciso como o

palhaco de Leoncavallo entre 0 teatro e a vida, timido e incontentavel, orgulhoso e timidissimo, ele tinha passado os seus melhores anos procurando em vao chegar a perfeita execu,cao da famosa aria de Jacopo Fiesco no Simon Boccanegra. Todos os dies, entre os 18 e os 50 anos, com a care ensaboada, diante do espelho, pondo de parse 0 pincer e a navalha, se voltava pare tras amea,cando com o punho as portas fechadas do marm6reo palacio que esta em frente do Duomo de San Lorenzo, em Genova, e tinha cantado com voz de trovao aA te l'estremo addio, palagio, altero!~ pare se adocar no ataque a `<II lacerato spirito det mesto genitore...~. e mergulhar depots no conclusivo estertor ultrabaixo ffa sustenido por baixo das linhas) que encerra a imploracuo ~Prega Maria per me...,

Nao e uma aria dificil, mas exige extreme maturidade de voz, e o velho senhor, quando era jovem, achava que nao tinha a voz suficientemente aper

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feicoada. Um baixo nao aperfeicoado e um fruto nao maduro, incomestivel. Os anos passaram velozmente, em inumeras casas, quarteis, hoteis, pensoes clinicas, hospitais, quartos de aluguer ecoou a invectiva, a voz foi amadurecendo, desfez-se, perdeu o funil (ou tuba, se se preferir), mas um belo dia perdeu tambem o timbre e a consistencia. O velho senhor (entao nao muito velho) sabia que tinha-de aproveitar a oportunidade, agarrar aqueles poucos dias de perfei~cao aos quais aspirava, espantar todos com a celebre invectiva e depois fechar-se para sempre num decoroso silencio. Um seu amigo, um medico que tinha interrompido uma brilhante carreira, vinha visita-lo com frequencia para ensaiar com ele o dueto dos Puritani asuoni la tromba>>, mas com mais frequencia para incitar sozinho, com o sobrolho carregado e com um dedo no piano, a amarga e escarninha confissao do xerife Rance aMinnie dalla mia casa son partito...~ e a explosiva conclusao ~Or per um bacio tuo getto un tesoro!~ que, infelizmente, provocava as inevitaveis recriminacoes dos vizinhos de casa e do porteiro. Tambem o ex-medico adiava ha muitos anos a sua estreia, a espera de atingir a perfeicao; depois, um belo dia perdeu a paciencia, uma ligeira rouquidao deu-lhe volta a cabeca e o aspirante a xerife saltou da janela e foi espetar-se nas lancas do gradeamento do jardim que ficava por baixo. Morreu de repente, sem sofrer.

O futuro coleccionador de discos compreendeu a antifona e nao insistiu mais nas suas tentativas. Ja tinha 50 anos feitos e a hora-de que ele estava a espera ja provavelmente passara sem que nin

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guem (e muito menos ele) tivesse dado por isso. So de vez em quando, ao fazer a barba, lhe suce ainda voltar-se para tras e entoar com voz tremula <<II lacerato spirito...~ Depois, nesse mesmo momento, o fantasma do seu amigo medico aparece junto dele e a voz extingue-se-lhe nos labios. e resto, para quem cantaria hoje? A arte esta em plena decadencia.

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A PLUMA DE AVESTRUZ

Os homens sao um pouco como os livros: lemos um distraidamente e nao prevemos que acabara por deixar em nds um vestigio indelevel; digerimos com todo o zelo um outro, que tenha todo o ar de ser digno da empresa; e passados poucos meses descobrimos que o esforco foi pior do que inutil. Mas no primeiro momento, ao primeiro encontro, o resultado final, a perda ou o proveito, estao suspensos de um ponto de interrogacao. Pergunto-me frequentemente, nao que livros mas que seres vivos ou defuntos eu poderia rever fulminea e involuntariamente se fosse posto (facamos esconjuros) diante de um pelotao de execucao ou se me encontrasse prestes a afogar-me, sem possibilidade de salvacao a vista. Homens ou animais favoritos? Homens -ou mulheres- que me foram caros ou antes gente de passagem, individuos com quem mal contactei, que nunca suspeitaram de ter tomado um lugar na minha consciencia?

Se os instantes que precedem o sono e que deveriam ser preenchidos com oracoes e meditacoes se podem assemelhar de qualquer modo aos ultimos

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momentos de uma vida terrena, eu diria, por analogia, que muitas serao as surpresas reservadas em tal conjuntura, ao homo sapiens dos nossos dias ja completamente dissociado e feito em pedacos no coracao de uma sociedade tao mais desumana quanto mais se mostra respeitadora dos direitos da colectividade.

A noite passada, antes de adormecer, enquanto estava a concentrar-me nas razoes supremas da vida e me repetia <<homem, tens de morrer>>, entraram a fazer-me visita duas figuras estranhas das quais eu tenha perdido de facto a lembranca e, abandonando as trevas, fui como o viajante que se regula pelos outros e, descobrindo que as suas reaccoes mudaram perante factos e acontecimentos do passado, tem de reconhecer-se diferente e tomar consciencia do velho axioma que entre as margens de um rio nunca corre duas vezes a mesma agua.

Estava para apagar a luz quando, precedido de um discreto bater com as nozes dos dedos na porta-toc toc toc-e de um cavernoso <<posso?~ que era pelo menos um si naturat contrabaixo, vi entrar um soldado robusto, equipado e coberto de armas da cabeca aos pes, como o fantasma do Hamlet com mais uma grande pluma de avestruz que do chapeu lhe descia em arco ate quase as esporas; e junto dele, servil e cerimonioso, um velhinho que se exprimia mais com gestos e caretas de alma penada do que com as palavras de um indecifravel dialecto.

-Marcello-disse eu imediatamente' pensando no fiel servo de Raoul de Nangy, nos Ugonotti; e a lembran~ca do personagem inevitavelmente associado

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ao do interprete famoso fez-me reconhecer sem hesitacao aquele que, falecido ha anos em Montevideu, foi o mais sepulcral forjador de notas abaixo das linhas que o teatro italiano jamais conheceu: o baixo profundo Gaudio Mansueto, homem de largos ombros, ex-camallo, ou seja descarregador do porto de Genova, afinado (quando eu o conheci) por uma afortunada carreira de artista lirico e por uma instintiva inteligencia que fazia dele, quando cantava a sua parte, um autentico dominador do

palco.

-Marcello-confirmou o soldado cofiando os bigodes pontiagudos a Marco Praga; e aproximando-se do piano, sempre aberto no meu quarw, ~^ deslizar uma mao pelo teclado e lancou em voz baixa 0 pif puf que precede a descricao da tomada de La Rochelle. Os vidros vibraram com forca.

-Ah-disse sem surpresa.-E voltando-me

para o outro: E voce... Desculpe?

-Esta noite visto-me de Dulcamara ou de Alcindoro, para o servir; no seculo Astorre Pinti, baixo comico ou bufo, se assim preferir.

&^~A P;~^ti7 M.~c eu conheco-o, Sr. Astorre.

-~a c=~ ~ ~ , ~..,^ .

Falamos durante muito tempo, quando estavamos refugiados no edificio da rua Lamarmora 14, nos dias de Inferno que precederam a libertacao de Florenca.-(Peludo e esfomeado, sempre de pijama, com o peito carregado de berloques e de medalhinhas, a voz eternamente ade cabega>>-mi mi mi tres oitavas acima, um guinchar de marmota e depois um estertor de moribundo-, tinha estado sem comer varios dias, ele e a sua numerosa familia. E com ele 0 --~ AA ^.;^A-^~ m,,ic com~licado.

caav ~v~ A.~ ~ ~ ~









Estava vivo ou morto como o outro? Nao tinha tido mais noticias dele.)

-Decerto nao se recorda, commendator Mansueto-recomecei eu pare veneer o embaraco-, que tive a honra de Ihe ser apresentado ha trinta anos pelo barbeiro Pecchioli, na galeria Mazzini. V. Ex.a levou-me consigo a pequena oficina de um afinador de pianos e tambem chefe da claque, e ounu a m~nha execocao do ?<Lacerato spirito~, aconselhando-me a perseverar no estudo do bel canto

-Ah! ah!-trovejou Mansueto, e ..ah! ah!~ guin chou Dulcamara em perfeito acorde de terceira.

Sentaram-se juntos ao piano sem se preocuparem comigo. Fizeram uns arpejos, tiraram pare fore de uma estante a partitura da Forza del destino e foram direitos a pagina que procuravam.

-Recordo -acrescentei-, cavalier Antorre, que V. Ex.a previa a total destruicao de Florenca cidade de blasfemadores; o que so aconteceu em parse. Quanto a V. Ex.a' commendatore, tive a sorte de voltar a cumprimenta-lo vestido de Zaccaria no palco do Chiarella de Turim; depots perdi-lhe o rasto.

-Ah! ah! ah!-ressoou Mansueto, e aah! ah! ah!>> repetiu Astorre no tom dos dois conjurados no Ballo in Maschera.

-Nao posso lisonjear-me-continuei-por ser recordado-eu modesto escrevinhador-por autenticos luminares da arte lirica. Se todavia VV. Ex.a~ quisessem explicar-me as razoes...

-?.Gindizi temerari,,...-explodiu Marcello, atirando ao chao o chaplu e inciando a sue parse no dueto dos dois frades. Um peda,co da pena quebrada

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voou pare la do piano. E a ultima silaba mergulhou, profundissima, como um som de orgao, cobrindo o ruido dos ultimos electricos nocturnos. Do andar de cima alguem bateu com forge no chao pare impor silencio. Decerto eram os vizinhos que ja tinham sido perturbados no song.

-Congratulo-me-continuei, levando as maos aos ouvidos-, congratulo-me com V. Ex.a, commendatore, por o seu registo grave ter conservado, apesar da idade, apesar das diferentes condicoes... de vida e de... residencia, toda a sue for,ca. Queira todavia reflectir que dada a hora avancada e os habitos destes meus vizinhos... talvez nao fosse inoportuno... V. Ex.a compreende... O mundo...

-~Del mondo i disinganni~...-explodiu Mansueto, torcendo-se no banquinho giratorio e acompanhando-se com pancadas com a palma da mao, enquanto o outro fazia bordao com um contracanto zombeteiro e pungente, na esperanca de que a sue voz estridula conseguisse abrir caminho no meio daquela tempestade.

A trovoada tinha-se desencadeado em chelo. Uma tempestade de altos e de baixos, um som de abismo enfeitado com os arabescos de um pifaro e com as brincadeiras de um fradalhao inverecundo: a licao de humildade do Guardiao e as duvidas e lubricas facdcias de Melitone. Tentei falar ainda, mas a minha voz foi abafada; e a rajada durou longo tempo ate que se extinguiu num visceral fa ultrabaixo sobre o qual Astorre tentou em vao fazer sobressair-duas oitavas mais acima-o seu bisbilhoteiro floreado.

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Quando destapei as orelhas ouvi bater com forca na porta da escada. Todo o predio estava em agitacao. Tambem da rua chegavam vozes e impreca~coes altissimas.

-Basta-disse o commendatore, fechando o piano com um baque, e ~basta~ repetiu Astorre, pegando outra vez na pequena tuba que tambem tinha atirado para o lado. Os dois homens estavam agora de pe e faziam uma venia.

-Seu criado-expeliram simultaneamente como o Mefisto de Gounod, descendo a um fa sustenido que parecia vir directamente la dos inferos, e sairam a porta aparentemente satisfeitos com a licao nocturna.

Fiquei muito tempo agitado; as vozes de protesto iam-se acalmando e a saida do armigero e do homunculo nao pareceu dar lugar a comentarios. Que tivessem partido a cavalo numa vassoura nao me pareceu provavel. Dormi pouquissimo, repetindo sempre para comigo ~Del mondo i disinganni...~ e procurando deslindar o sentido recondito daquela visita nocturna. Tinha assistido ao encontro de um morto com um vivo ou a excursao nocturna de dois defuntos? E se os dois nao sabiam nada de mim como e que encontraram a minha casa? E se, enfim, devia considera-los como um fruto do meu subconsciente, uma alucinacao, porque e que nao tinha dado vida a qualquer personagem de maior peso na minha vida?

Depois reflecti que uma certa ligacao entre as duas figuras havia em mim: encontrando Marcello, tinha esperado um dia emular a sua gl6ria, seguir as suas pisadas; dividindo o jejum de Astorre,

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1 , 1

trinta anos depois, agradeci a Deus ter-me salvo dos riscos da sua vida, embora para enfrentar problemas ainda mais humilhantes. Os dois homens eram o principio e o fim de um arco, de uma minha parabola pessoal, privada. E continuavam a ignorar aquele para o qual, objectivamente, tinham tido uma existencia mais real. Nem sempre se consegue viver para quem se quer.

Levantando-me, telefonei ao vizinho do andar de cima para lhe apresentar as minhas desculpas. Respondeu-me secamente que nao ouvira nenhum ruido nocturno. Mais tarde, a <<mulher a dias,> que vem varrer o meu quarto, habilmente interrogada, confirmou que encontrara uma pluma entre a parede e 0 piano.

-Uma penazita de frango ou de pombo-esclarecou-, nao de avestruz. Tera sido trazida pelo vento.

^~^r~tr~ra uma ,,

















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_ OS INIMIGOS DO SR. FUCHS

1 ~

Durante muito tempo fiquei impressionado com os inimigos do Sr. Fuchs. Nao os conhecia, mas falava-me deles muitas vezes: inimigos da alta, potentes, inimigos obscuros, humilimos; homens e mulheres, como podiam odiar aquele monumento de respeitabilidade, aquele monstro de erudicao, aquele desinteressado devoto do snobismo que e o Sr. Fuchs? Alto, magro, pobremente vestido, com o longo bigode amarelo caido sobre a boca avida, o Sr. Fuchs, homem poliglota, de idade e proveniencia incerta, e muito conhecido no meio mundano e intelectual na Italia e noutras partes. Sem vintem como todos os poetas (assim e tido, mesmo que nao escreva versos), a sua principal profissao e a de hospede: hospede hospedado, bem entendido, nao hospedeiro. Procura familias ricas e possivelmente nobres que ponham ao seu dispor um quarto e duas refeicoes diarias num castelo sobre o Loire, numa torre dos Vosges, numa vivenda de Sao Sebastiao e, no pior dos casos, num pequeno apartamento em Floren,ca, em Veneza, em Milao. Procura e encontra, melhor, encontrava; mas apos duas grandes guerras os ricos cederam os seus castelos ao Estado e a

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pratica do mecenatismo torna-se cada vez mais rara. Acontece assim que tambem Fuchs, o homem tao procurado, tenta por vezes acomodar-se em pensoes de inferior categoria, procurando ele mesmo cozinhar as suas refei~coes numa pequena lamparina de alcool. Uma refeicao das suas e sempre um quartuor, um quarteto (Fuchs costuma exprimir-se em frances); por exemplo um bifinho grelhado, duas beterrabas cozidas, um bocadinho de queijo e uma pera; uma refei,cao que a vos e a mim parecem de ordinaria administracao, torna-se para ele uma musica digna de Mozart. E nao ha dia em que ele nao revele aos seus amigos os componentes do quarteto de turno. Porque Fuchs tem tambem, alem dos inimigos, muitos amigos que, nao podendo convida-lo na sua vivenda, convidam-no todavia a comer fora e oferecem-lhe almocos melhores que os seus, apesar de nao suportarem a regra do quatro. Ele e mestre na arte de fazer crer que quem convida presta uma grande, uma enorme homenagem a si proprio. Nesta ratoeira sao todos apanhados e tambem eu nao escapei. Durante alguns meses fui amigo dele e convide~-o mais que uma vez, em casa ou no restaurante, seduzido pelo seu espirito e pelo brio da sua conversacao. Ate que um dia a nossa amizade acabou de forma quase tragica e eu descobri o misterio que tanto me apaixonava.

Era um Inverno frio, em Florenca, pouco depois da libertacao. Nao se encontrava carvao ou (nao recordo) os meus condominos nao podiam paga-lo. O facto e que eu me aquecia com uma escalfeta electrica de quatro espirais (aelementos,>) que acendiam dois de cada vez.

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Estava a almocar com Fuchs, quando ele manifestou um certo incdmodo pelo excesso de calor. Levantei-me e apaguei os dois elementos que ele achava superfluos. Pouco depois Fuchs levantou o bigode da perna de borrego (milagre do mercado

AN r~llD Dct~va mordendo. para me dizer que se

.._= _ ,

gelav . De um salto pus-me em pe com muitas desculpas e voltamos as quatro espirais. Nao Passou um minuto que o ~ tres, e nao dois nem quatro elementos, teriam criado o clima mais proprio para a conversa.-Sinto muito-disse-lhe-nao poder atende-lo nisto; mas a minha escalfeta funciona a dois ou a quatro, e

Sr. Fuchs emitisse a opiniao que

nao tenho outra.

Falamos ainda, levantando-me eu de vez em quando para abrir ou fechar os dois botoes, mas era evidente que 0 Sr. Fuchs estava de beiga e pouco se fiava nas minhas qualidades de fogueiro. Por fim ele mesmo se levantou, curvou-se sobre a escalfeta, remexou por longo tempo, virando e revirando oc hotoes uara todos os lados; ate que o acuecedor

_~ _ ~ ~A~.. IA ~rAI7 ~A"= 1A"~. C ectalidos.

-_ ~e,~

-Ao que parece estraguei-lhe o aquecedor disse, levantando o bigode das espirais ainda

quentes.

-Esperemos que nao-disse eu-, mas de qualquer modo a coisa nao tem importancia. Acabaremos a nossa conversa num cafe mais bem

aquecido.

Pareceu

. ~A~;~,DlTn-^t" irrit~lo -OS casos sao

dois-disse.-Ou fui eu a estraga-lo ou nao esta mesmo estragado e o senhor deveria certificar-se e r~A-lo novamente a funcionar. Nao sabe faze-lo?

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(Experimentei uma ou duas vezes sem qualquer resultado.)-Ve? Quer dizer que o aquecedor esta avariado e fui eu que o estraguei.

-Nao se preocupe-disse eu-; ter-se-a queimado um fusivel. Tambem ja me aconteceu a mim.

-Que quer insinuar?-exclamou o Sr. Fuchs.- Tambe'm a si? Entao o senhor afirma que desta vez fui eu.

-Nao afirmo nada, Sr. Fuchs-contemporizei eu.-O aquecedor ja nao funciona, admito que a culpa seja minha, como e efectivamente, porque nao arranjei um aquecedor melhor que este. O prejuizo e minimo e amanha estara reparado.

-O senhor complica as coisas pretendendo ser o culpado, mas de facto afirma que o culpado sou eu. Reconhecera que a palavra culpa e exagerada.

-Reconheco-o e peco desculpa, mas falava de mim prdprio e nao de si.

-Ate que o assunto seja esclarecido, a conversa ofende-me tambem. Entrei como convidado e saio como culpado. Tem de admitir que a perda do bom nome e verdadeiramente irreparavel. Quando parti o espelho da princesa de Thurn und Taxis, ela despediu o criado e o espelho foi imediatamente substituido. Entao era culpado, hoje a questao e sub judice. Ate nunca mais.

Com uma pequena venia dirigiu-se para a porta. Procurei dissuadi-lo, mas em vao. Nenhuma reconciliacao foi possivel. Sem querer, sem saber, tinha sido inscrito tambem eu na legiao cada vez mais numerosa dos seus inimigos. Fiquei consolado, pensando que talvez lhe fosse mais util assim.

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O SR. STAPPS

A historia tem um antecedente. Numa avan,cada tarde de Inverno de 19... o Sr. Lazarus Young, M. A., Ph. D., um homenzinho muito pequeno e muito timido que trazia sempre uma pluma de pega no chapeu achatado, viu sobre um montao de neve, numa estrada do Brenx, em Nova Iorque, um passarinho todo eelado e mais morto que vivo; e dan

-

do-lhe para salvar o enfermo, perdeu o embarque no transatlantico que devia leva-lo a Europa. Entregue aos cuidados de reputados especialistas, o voador tinha sido arrancado a morte e luxuosamente instalado numa gaiola termica construida expressamente para ele, com o fim de assegurar uma temperatura constante de 22 graus. Tudo isto custara, incluindo a viagem falhada no Jacques Cartier, dois ou tres milhares de dolares; e agora Snow Flake, floco de neve, apelidado de Snow por causa da sua plumagem branca, era a admiracao dos visitantes daquela vivenda do n.? 48 da Erta Canina, em Florenca, onde o Sr. Young vivia em media um mes em cada cinco anos, deixando casa posta, jardineiro e cozinheira nara o atenderem durante os periodos

ln.













de ferias. No ano em que eu o conheci, o Sr. Young, surpreendido pelas ainiquas~ sancoes, abandonou apressadamente a cidade depois de uma estada muito mais breve que o costume, e regressou a sua terra de origem, Saint Louis (Missouri), para escapar a uma atmosfera irrespiravel; mas na casa ficou um hospede insolito a cuidar de Snow; o Sr. Josef Stapps, um homem grande e grosso, dos quarenta-sessenta anos, olhos azuis, sempre barbeado de fresco, com as bochechas rechonchudas e riscadas de pequenas veias azuladas, vistosissimo nos seus grandes raglan em sino e em todos os particulares do enfeite, aneis com camafeus, bastoes entalhados, luvas de canguru, cachecdis e lencos de luxo, cigarreiras e cachimbos Dunhill, etc.

O Sr. Stapps instalou-se no quarto azul da vivenda, um longo compartimento com banho, iluminado por quatro claraboias que se inclinavam sobre o olival e o jardim confinante com a estrada; e ali se dispos a passar toda a atroz estacao que se deparava diante de nos. A nossa amizade, devida ao acaso mas espontanea e inexplicavel, vale a pena dedicar um parentese. Se ja foi observado que os amores dos outros, e ainda mais os dos nossos amigos, nos sao incompreensiveis e nos parecem exagerados e artificiais, como se neles sentissemos o desperdicio de uma louvavel faculdade que s6 no nosso pe~to Julgamos bem administrada e razoavel, o mesmo, com poucas variantes, pode dizer-se das amizades. Tambem neste campo, a nossa sentenca torna-se tiranica e proverbial. Diz-me com quem andas..., com o que se segue. No entanto, a antifona e profundamente injusta; e cada um de nos teve pelo

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.~

menos um amigo pelo qual teve de dar contas tambem a si mesmo, sem encontrar os motivos.

Um destes amigos foi para mim o Sr. Stapps. No parecer dele eu era o unico homem do mundo que ele se dignava visitar, embora nao fosse misantropo e nao deixasse de aludir a nobres visitas, a velhos lacos, a intimos conluios com gente de outra esfera

internacional. inacessivel, agora em

sequestro. Mas na verdade eu creio que durante seis meses fui a unica pessoa que ele viu em Florenca, e posso dizer o mesmo dele. meu unico companheiro naquela longa e esgotante espera de uma catastrofe que nao veio, ou veio seis ou sete anos depois. Como e possivel que um homem s`S. e um homem mediocre, possa segurar um universo inteiro? Apesar disso o bravo Stapps, unica sentinela permanentemente alerta numa cidade que fora uma das forcas da civilizacao europeia, nao desmereceu da missao que eu lhe tinha mentalmente confiado.

O Sr. Stapps, para dizer tudo de uma vez. era ,m homem de oris~ens e de vida nao m~litn cl~r~c

Afirmava ser boemio, ter casado tres vezes, ter pertencido a diplomacia checa e ter barafustado com os seus amigos Massaryk e Benes; nao conhecia porem a lingua do seu pais e nao falava decentemente nenhum idioma que me fosse acessivel. Comigo, usava uma mistura de mau ingles e mau frances ou um esperanto ainda mais composito. -Libertei o falcao-disse-me no dia em que pbs em liberdade um poqueno falcao por ele adquirido. Na casa de Young nao tinha contactos com a criadagem. Cozinheiro perfeito, de dia preparava a comida nara si, improvisando ~ratos saborosissi

-









mos; e a noite jantava comigo nas <<tabernas'> despejando grandes garrafoes de Chianti, preparando para si complicadas saladas com a inevitavel gota, oh nen qu'un soupcon de Worcester sauce e dissertando sobre a ma qualidade das mostardas e do caviar. De regresso a casa, noite alta, ficava a ouvir passar no parque o Gilly, o fantasma de nao sei que suicida que pela meia-noite arrastava a carreta sobre o saibro, e depois metia-se ao trabalho.

Qual trabalho? Que ele fosse escritor nao se podia irnaginar pelo defeito que mencionei, de uma lingua que lhe saisse congenial e proxima. Creio que tinha em mente uma miscelanea de todo o mundo, desde T'ang ate Rilke, nos textos originais, que ele pretendia conhecer; um livro para uso e consumo proprio, uma antologia de Robinson, da sobrevivencia de uma cultura que ele sentia ameacada. De qualquer forma, de tal cultura, Stapps, meio aventureiro e meio gabarola, era um sacerdote convicto, e isto era talvez o laco que nos estreitava. Nas velhas estradas da cidade, radio-mentira vomitava 0 borbotao ameagador das suas injurias, por toda a parte nao se viam expostos senao cruzes suasticas e livros alemaes, o cerco da subita loucura da nossa terra apertava-se em volta de nds, mas o Sr. Stapps, com os seus dentes de ouro e o seu fatuo sorriso de falso quadragenario libertava os falcoes, colava poesias sumeras, alimentava de hipofosfitos Snow Flake e preparava os seus famosos stews a dinamite sempre imperturbavel e envolvido numa nuvem de alusoes, de reticencias, de mundanidade e de ma literatura. Estava ali no seu posto, Josef

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Stapps, e enquanto ele ficasse eu sentia que uma

~ ~-rr -~ _

grande esperanca estava sempre aberta.

Numa tarde de Outono subimos ate a quinta, eu e Antonio Delfini, para saborear uma nova edicao do goulasch por ele oferecido ao presidente Stambolijski, em Neuilly, em 19... A subida entre hortas e jardins foi um sonho, o almo,co cozinhado por ele e por nos servido meteu-nos o fogo no corpo e uma bicada do picadinho amarelo de pimenta foi concedida tambem ao pobre Snow, meio cego e queixoso na sua eterna estufa. Depois seguiram-se discursos picantes, na giria do costume, musicas de fonografo, liba,coes de licores e de tardias camomilas. A meia-noite o can-can foi interrompido para escutar a passagem do Gilly, e distingui tambem eu, arripiado, a chiadeira das rodas da carreta sobre 0 saibro, e mais tarde descemos a caminho do centro, eu e o AntS,nio cambaleantes e meio queimados, mas convencidos de que no mundo uma janela estava ainda fechada, pelo facto de naquela mPcm ~ noite e sob todos os meridianos muitos

~_ _

Stapps terem sem duvida prestado homenagem aos nu~ae de uma cultura que tentava sobreviver aos

padroes do momento.

Foi aquela a ultima noite em que vi o Sr. Stapps, mas o periodo em que ele me era necessario ia ja descambando entre grandes hinos de vitoria. Poucas noites depois, subida a Erta, vi que o quarto das claraboias estava fechado e o caseiro da familia Young disse-me que o Sr. Stapps tinha partido imprevistamente, deixando os seus cumprimentos para mim. Posso acrescentar que desde entao nada mZiic soube dele. Quanto a Snow, o pobrezito nao









pode sobreviver a infrac~cao do regime dietetico que Ihe fore prescrito por um ornitologo da John Hopkms University, e encontraram-no morto no die seguinte, muito branco e enrolado no poleiro, na sue gaiola de fogo. Tinha, afirmava o caseiro, exactamente onze anos e tres meses. O Sr. Stapps, antes de se ir embora, sepultou-o com as sues maos ao pe de uma arvore, no jardim do Gilly.

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nOMINGOS

Uma carte de Domingos, do Brasil, tem sido a minha grande novidade destes dies. A carte esta escrita naquela sue lingua melo americana e melo siciliana que tornava tao arduo falar com ele; e imagine-se o que pode acontecer agora que o brasileiro aprendido ha pouco se mistura com ela em ineditas combina~coes!-Write me, escreve-me- diz-me ele-, uma vossa carte sera (sic) muito desejada por mim (1) _. E ontem mesmo tinha reencontrado a fotografia de Domingos, primeiro, naturalmente, inter pares, num grupo de nao sei que jerarcas ou tubaroes, da sue estada florentina de ha dez anos. Numa cidade once quase cada die se inaugurava uma exposi,cao ou se realizava uma cerimonia mais ou menos cultural acompanhada por large distribuicao de bolinhos e de bebidas, Domingos, sem

{~\ ~m ~rt~mleS no oriRinaL (N. do E.,









pre pronto a autoconvidar-se por razoes gastronomicas, tinha sido um dos homens mais fotografados e populares. Ninguem sabia o seu nome, nao havia festa ou <<reuniao,, (a palavra era muito usada) na cidade em que nao se visse Domingos Braga aparecer na primeira file e sorrir ao cruel relampago de magnesio segurando na mao um triangulo de masse folhada.

Ei-lo nesta foto-montagem, sentado junto do prefeito e do federal; tem apenas vestida a sue tipica camisole amarela e um par de calcas descosidas; calca sandalias ja estafadas e o longo bigode desce-lhe junto a boquinha sardenta e carnuda. Os olhinhos mongolicos brilham de satisfa,cao, e em volta da cabeca, estampados em caracteres de imprensa, enumeram-se as qualidades de uma Florenca cidade das letras com campos de golfe de 18 buracos e anexos picturesque sightseeings in Tuscany, explosoes do carro, festa das uvas na Impruneta e outras maravilhas.

Belo mundo pare Domingos, enquanto pode durar; bela vida sentir-se italiano a meias, sem preocupacoes e sem compromissos, protegido pelo passaporte americano e pelo peso leve de uma culture em que Dante e Lourenco de Medicis, Garibaldi e Mazzini, ladeados pe]os nomes de Lincoln ou de Jefferson, de Whitman ou de Ulysses Grant, formavam verdadeiramente um picturesque sightseeing, um golpe de vista retrospectivo sobre um universo fascinado pelas luzes da nova poesia imagista de que Domingos Braga, americano filho de um boticario

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1 \!

de Linguaglossa transplantado pare Bridgeport, se gabava de ser-depots de Ezra Pound-o mais conspicuo representante. Falava pouco o italiano, como disse, e nao muito melhor o ingles das pessoas cultas; a sue lingua familiar era de Linguaglossa, tambem ja esquccida, ou corrompida. Logo aos 20 anos, the call of Italy, o apelo da mae-patria se fizera sentir, e Domingos embarcara como ajudante de cozinheiro no Dardanus, um cargueiro que devia conduzi-lo a Holanda. Durante a viagem teve um golpe de sorte, um verdadeiro lucky strike, porque o padeiro de bordo, inveterado pessimista e grande leitor de Schopenhauer e de Hartmann, suicidou-se atirando-se ao mar, e Domingos tomou o o seu luger: isto permitiu-lhe, chegado a Amsterdao, encontrar-se em poder do pe-de-meia necessario a aquisicao de uma bicicleta a motor Pegaso, com a qual atravessou a Europa. Depois, no Sao Bernardo a sue Pegaso atropelara uma vaca e Domingos safara-se cedendo os restos do seu calhambeque ao dono do animal ferido e prosseguindo a pe o seu itinerario.

Em Florenca, a camisole amarela tornou-se popular e Domingos, em poucos dies, fez-se o mais voraz destruidor de bigne que jamais se viu em cerimonias publicas. Vivia disto, e so excepcionalmente das sopas que os varios frades rancheiros dos conventos locals lhe serviam fingindo nao darem conta de que ele era capaz de se meter na bicha tres ou quatro vezes seguidas. Agradava-lhe a vida ficticia de uma cidade de estudantes e de estrangeiros, os

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seus principios vagamente democraticos nao o impediam de achar simp atico o carnaval es co regime a que os italianos de entao se haviam dado, e que a ele parecia perfeitamente conforme ao palio, ao jogo da bola em uniforme e a outras manifestacoes do lugar. <<Cada roca com seu...>>, e Domingos nao olhava a pormenores, tanto mais que o Mestre Ezra, lhe assegurara que em Italia faltavam so extensas plantacoes de aracas, mas que quanto ao resto constituia um modelo <<permanente e eficiente de democracia autoritaria>>.

De que podiamos queixar-nos? Domingos Braga nao dava ouvidos as lamentacoes dos seus novos amigos; tudo lhe agradava na nossa terra, e sobretudo gostava de assistir aos espectaculos de multidoes, as representacoes ao ar livre no jardim dos Boboli, as quais nunca faltava, sem pagar a entrada, emergindo das moitas entre os duendes evocados pelo realizador Reinhardt, sempre de camisola amarela, sempre na primeira fila, sempre sorridente.

Houve so um contratempo no dia em que ele acolheu nas suas tetricas aguas-furtadas da rua Panicale dois novos amigos com quem eu o tinha posto em contacto, desgracadamente eu mesmo. Dormiram os tres na mesma estreita cama, o Braga, o escritor proletario Morluschi e o pintor bulgaro Angelof. Mas durante a noite vozes enraivecidas (~Gangster! Vendido! Espiao!>>) chegaram aos tipografos do andar de baixo, os quais se aperceberam de que um violento debate ideologico tinha explodido entre os tres vagabundos. Parece que entre um

lt2

1

sono e outro os dois novos hospedes descobriram que Domingos pertencia as odiosas forcas da <<reaccao>> e se esfor,caram por o derrubar por terra. Fizeram depois as pazes; e talvez naquele appeasement o sentido do ridiculo pudesse mais que toda a conviccao politica... De resto, Domingos deixcu Flo

renca poucos dias depois e soube que na America

continuara a sua vida de refractario, conseguindo colocar frutuosamente versos e prosas de quatro em quatro anos nas efemeras gazetas que nos periodos pre-eleitorais nascem como cogumelos em todos

~c F.ctados.

Que poderei contar-lhe hoje na muito desejada (1) minha carta? As dificuldades linguisticas nao sao nada ao lado das que nascem de uma diferente sintonia espiritual. Poderei fazer-lhe compreender aquilo que acontece presentemente em Italia? Alma pura, alma inocente, Domingos Braga e um daqueles homens que tornam pouco compreensivel e ate pouco desejavel a humanidade sem patria, sem fronteiras e sem leis dos classicos da utopia. Homens como ele podem fugir a ordem constituida, podem evadir-se das malhas da histbria gracas apenas ao conformismo dos demais, so porque existem legioes

de seres que suportam um rotulo, uma aparencla, m destino nao anenas individuais.

E, alias, a liberdade do homem singular, a liberdade aue nao e de todos mas de um contra todos,

(~\ Em Dortu~ues no original. (N. do E.

















ate que ponto pode interessar-nos? Receio que Domingos, salvando-se sozinho, se perca sozinho, e que ~quele a quem escapa o sentido religioso da vida associativa escape tambem o melhor da vida individual, do proprio homem que nao e pessoa se nao conta com as outras pessoas, nao e plenamente homem se nao aceita os outros homens. Mas sera penoso explica-lo ao Domingos numa lingua que terei de fabricar propositadamente para ele e num momento em que qualquer egoismo, qualquer anarquia declarada, parece preferivel as especiosas e ate demasiado concretas e sociais lucubra,coes dos ffgrandes~ que de longe, infelizmente, se estao ocupando de nos e da nossa infeliz peninsula...

I946.

VISITA DE ALASTOR

Na fria e deserta estrada suburbana, a chegada do Lincoln de Patrick O'C. tinha despertado a curiosidade. O individuo que dele saira-um homem alto e gordo, ja maduro mas ainda robusto, grisalho-ruivos os raros cabelos-, depois de ter consultado 0 seu bloco de enderecos, fizera que um droguista lhe indicasse a casa que procurava: o 117 B. escada da direita, da rua das Stringhe, uma casa assaz pobre de cujo patio interior chegava um vozear de garotos e um ganir de caes esfomeados. Habitava entao ali Ponzio Macchi, o mais incansavel e talvez o mais subtil dos seus divulgadores estrangeiros? Sem duvida, o endereco e o numero eram aqueles e Patrick O'C., repreendeu a si prdprio um gesto de surpresa. O registo das almas belas tem os seus misterios e a vida e por vezes muito dura para quem nao segue as pistas batidas pelos grandes rebanhos humanos. Patrick O'C.-conhecido em todo o mundo civilizado sob o pseudonimo de Alastor- tentou relembrar-se desta verdade enquanto engolia um calice de aguardente; depois, remunerado largamente o droguista e recomendando-lhe, mais por gestos que por palavras, que lhe guardasse













o carro, dirigiu-se para a escadinha, sobre a qual, num letreiro de latao, se podia ler o procurado nome do Sr. Ponzio Macchi. A mulher que veio abrir depois de nao poucas pancadas na porta (a campainha devia estar avariada) trazia nos bracos um garotinho ranhoso e tinha um ar um tanto carrancudo. Devia ser a mulher do tradutor, uma figura palida, desmazelada no vestir, de indefinivel idade. Estava em casa o senhor, ou antes, o professor Macchi? Sim, nao, sim-dificil sabe-lo, porque Patrick nao desatava um palavra de italiano nem a presumida Mistress Macchi acedia a alguma lingua por ele conhecida; mas por fim o irlandes-americano conseguiu fazer-lhe pegar num cartao de visita sobre o qual estava impresso o seu nome seguido de uma cauda de maiusculas (M. A., Ph. D. e outras mais), indicadoras de um notavel curriculum cultural e social, e de um Alastor escrito a lapis, entre parenteses.

IntroduzIdo numa gelida salinha onde pelo menos quatro volumes seus se deixavam facilmente avistar entre os livros de uma pequena estante, Alastor ficou la a espera por algum tempo. A sua entrada interrompera-se na sala contigua um tiquetaque de maquina de escrever. Talvez o aprofessor>> estivesse a trabalhar? Alastor, im6vel, de pe, teve um arrepio de frio.

Passaram alguns minutos, do quarto vizinho chegaram vozes que pareciam discutir animadamente. Depois ouviu-se o ruido de uma janela que se fechava e voltou o silencio. Pouco depois reaparecou a suposta Sr.a Macchi e Alastor foi admitido sem mais demora no escritbrio do seu benemerito

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interprete. O quarto estava escuro, as persianas bem fechadas e quando foi acesa a luz electrica Alastor viu um homem na cama com a cabeca atada por um velho cachecol de la. De um monte de cobertores esfarrapados emergia um rosto incolor. Sobre a pedra-marmore da mesinha de cabeceira destacava-se uma pilha de manuscritos, talvez uma nova traducao alastoriana em curso.

A mulher do doente ficou a assistir ao col6quio e Alastor, depois de uma venia, tomou a iniciativa. Perguntado se estava na presenca do professor Macchi (yes, foi a resposta) e se acaso tinha a desventura de 0 encontrar enfermo (yes), exprimiu um certo pesar pela inoportunidade da sua visita (yes) juntamente com a sua gratidao pela obra de traducao e divulgacao a qual ele Ponzio Macchi (yes, yes) tinha dedicado um tempo precioso que podia ter sido mais bem despendido (yes, oh yes). O mon610go durou um par de minutos, o doente devia soErer muito. Agradava-lhe um pouco de companhia? Queria ser deixado em paz? Precisava de remedios, auxilios, conselhos, indir a,coes? Estava entregue a um bom medico? Seria oportuna uma nova visita sua? Ou seria talvez melhor po-la de parte? A todas estas perguntas foi respondido com outros tantos yes; apos os quais Alastor declarou que achava conveniente despedir-se e, com uma ncJva venia, deixou o quarto do seu tradutor.

A despedida daquela que nao parecia lisonjeada pelo apelido de Mrs. Macchi deu-se ao cimo da escadinha, e pouco depois o Americano bebia um segundo bagacinho no droguista e punha a trabalhar silenciosamente o seu potente Lincoln.

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<_.,, Kf i, .









Do n.? 117 B. escada da direita, da rua das Stringhe, a sua partida era observada, por entre as fasquias de uma persiana ainda semifechada, por Ponzio Macchi, em pe, cal,cado e vestido, pela mulher e por tres meninos excitadissimos.

-Caido do ceu assim de improviso-dizia Poncio, enrugando a testa.-Nao sabe uma palavra de italiano aquele cabrao! E agora que fara? Disse que volta ca?

-Se assim for metes-te na cama outra vez -trocou a mulher em tom malevolo.

-Senao, explica-lhe que estou ausente, que estou de viagem, que estou fora um par de meses. Nao custa nada; dir-lhe-as duas ou tres palavras que eu te ensinarei.

-Se tu soubesses dizer-lhe duas ou tres palavras, toleirao, nao terias feito esta figura.

-Entao nao falei durante todo o tempo, pateta? Safei-me ate bem de mais.

-Farias melhor em meter-te outra vez ao trabalho, pedaco de asno. Se voltar eu trato dele. Mas era melhor que fizesses de surdo-mudo

Entretanto Patrick O'C., ao volante, aproximava-se do seu hotel. Devia partir no dia seguinte e ja nao pensava mais no seu tradutor. Se tivesse percebido a inverosimil verdade, isto e, que naquele homem se escondia uma personalidade digna de uma historia sua, ele, que era tao avido de semelhantes presas, teria provavelmente pensado voltar ao ataque a todo o custo.

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MONEY

1 ,

Sir Donald L. gostava as vezes das viagens, e particularmente das viagens a Italia. A sua ja longa vida tem sido confortavel e, pelo menos na primeira metade, plenamente aeduardiana>>: a vida de um homem que ascende numa nacao em ascensao; uma vida sempre in progress, que quer dizer em desenvolvimento, sem sombra de tragicas duvidas sobre si e sobre a casta social que ha pouco o acolheu no seu seio. Filho de um cervejeiro de Newcastle, provavelmente judeu, mas nem tao puro sangue e nem tao rico que pudesse fruir o mais cedo possivel das vantagens do seu nascimento, fraco de saude na primeira infancia e de inteligencia nao precoce, recebido com des conf i ang a em E ton e la acoit ado ate ao sangue pelos seniores; graduato honrosamente em Oxford depois de uma luta de quatro anos com atutores,, e apupilos,> que nao queriam saber dele, da depois entrada na administragao civil, saindo, a seguir a primeira das grandes guerras, com um titulo honorifico e uma grande vontade de viver entre os seus semelhantes, entre os fidalgos. Desde aquela data tem inicio longas viagens nos

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seus grandes Eldorados de suposto homem do norte que sense o apelo do sul: a Grecia, a Espanha, Marrocos, as Baleares, os Acores e sobretudo a Italia, que conhece de uma ponta a outra: a Italia meridional, teem entendido, once ele escreveu os seus livros (ninguem sabe nada) e once ele conta, ou melhor contava, fortes amizades. Outros tempos... Mudados os quads, por culpa de revolucoes political e socials que ele aborrece, uma interminavel crise, a loucura de um ditador italiano no inicio tao manso e charming e por fim tao cruel, uma segunda intermina-vel guerra e a subida ao governo ingles de ho~nens que nao permitiam ir ao estrangeiro com mais de 35 libras esterlinas, tudo em surna conspira"cao pare que Sir Donald tenha de passer anos e anos (e sao talvez os ultimos da sue vida, os mais preciosos!) num tetrico apartamentozinho de tres assoalhadas sobrepostas, rico de livros e de memorias mas pobre de sol e de calor humano. Estamos dos lados de St. John's Wood, nao faltam arvores a quem se debruce a janela, cada proprietario ou inquilino tem ate um pequeno jardim de tres palmos protegido por uma cancela que pffe a mostra estranhos e gratuitos anuncios de pedidos e ofertas (.Home wanted for lovely parrot~; querem liver-se de um papagaio); estamos a pouca distancia do coracao da cidade, e esta cidade e o cora,cao mesmo de um mundo e da convivencia civil mais teem organizada que existe; mesmo assim Sir Donald sense-se prisioneiro, precise de alguem com quem poder apreciar e vilipendiar a gigantesca engrenagem de que ele se tem julgado um dos ornamentos. Com quem pode faze-lo? Nao decerto com os mocinhos de palmo e

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melo que o visitam: meio pintores, meio escritores, meio mac,adores, promos a dar-lhe conselhos, a conduzir-lhes o seu Austin (a gasoline racionada), a comer-line as sues toastsj promos em suma a tirar proveito da sue melancolia de velho solteirao que nao pode ester s6. Nao, nada a fazer com semelhantes, apesar de uteis, parasites. Um italiano de passagem, um italiano bastante jovem que lhe permitisse poder dizer aeu, quando voce andava ao colo da ama...>>, e bastante culto pare poder sustentar a ofensiva de um dialogo quase platonico com ele; eis 0 seu ideal.

Fui o seu ideal por quarenta e oito horas. No primeiro die levou-me a passear pela cidade, desculpando-se de nao ser um cicerone perfeito (em Italia sim, teria podido guiar-me; que sabia eu, pivete, da verdadeira Italia?), mas procurando nao deixar

1 nada que ele considerasse particularmente horrivel g- ou sublime: docks, slums, render da guarda a Bug ckingham Palace, tabernas e farmacias once existia ,t, ^;~A~ ql~nim t`~,r,to, al~um vi~amento de seiscentos,

i::

ainda algum tecto, algum vigamento de

lojas de antiquarios, uma visita ao seu club, e de

pois parques e jardins sem fim, nos quads os esqui

los cinzentos, ha pouco importados, tem comido os

esquilos encarnados que havia, e once por desgraca

b comecam a escassear tambem os cinzentos. Comidos

tambem, pelos homers? Eu disse que os esquilos

vermelhos sao apetitosos: prove~

um tambem eu,

em Italia. Aqui a converse caiu sobre assuntos de arte culinaria. Sir Donald estava magoado por eu tomar a serio os cartazes once estavam pintados pratos de cenouras e garrafas de molhos amarelados com perfect soup, marvetlous sauce em caracteres









enormes. Decidiu por isso convidar-me pare almocar. Devia experimenter, porque apesar de os seus semelhantes se encontrarem em dificuldades, a arte de se governar ainda existia pare um cidadao insular que tivesse tido debaixo de outros ceus a necessaria iniciacao. A prove devia ser-me fornecida sem demora, imediatamente. Nao, um momento de reflexao; assim de momento, era demais. A coisa tinha de ser preparada, meditada. Nao era o cave de se enfiar numa case de pasto, e ainda menos numa case de pasto italiana. Ali podem intruJar um italiano de passagem, nao a ele, que sabe muito. Para sue case, convidava-me. Nao ja, nao naquela mesma noise, que Diabo! Devia avisar a sue cozinheira, Honey, que vivia habitualmente em Manchester e vinha por vezes preparar-lhe o almo~co. Longe demais' Nao, apenas quatro horas de comboio. Um telegrama relampago e na manha seguinte a sue doce Mel (Honey) teria comparecido. Por volta das nove da noise o banquete podia ester pronto. Pedia-me pare me antecipar: esperava-me as sete. Pedi pare trazer um amigo italiano comigo. Naturalmente, ate dots. E fui deixado (dropped) no meu hotel, once naquela noise devia contentar-me com uma pequena ceia regulamentar. Mas no die seguinte...

No die seguinte, pelas seis e meia da tarde, estava eu na esquina entre Oxford Street e Park Lane, once assobiando procurava despertar a compaixao pela minha sorte de algum condutor de taxi. Mas eram assobios inuteis, porque aquela hora nao e simplex, em Londres, encontrar um taxi livre. Um porteiro de hotel, metendo ao bolso um par de xelins, assobiou melhor do que eu e livrou-me do

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embara,co; assim, as sete, eu e o amigo Alberto Moravia podiamos trepar a estreita escada de Sir Donald e travar conhecimento com Mel. O anjo vindo de uma cidade negra como o carvao, era negrissimo, tambem ele. Uma daquelas mulheres que, interrogadas sobre a sue idade, podem responder atacinco,,, deixando em aberto o espaco que vai de trinta e cinco em diante, sem limites; redonda, gorda, oleosa, encaracolada e cordial. Sir Donald e os seus adeptos rodeavam-na rindo alegremente. Houve apresenta,coes e louvores de todos; dela, dos convidados e do almoco iminente. Honey nao estava na cozinha, como se teria podido supor; talvez os alimentos estivessem promos e chocassem na estufa. Nao era do tipo ingles Honey; devia ser. tambem ela, de sangue misturado, e parecia uma mulher explosive, de humor franco e gaIhardo, pronta pare a grace, rapida em apanhar os duplos sentidos, as alusoes maldosas. Nao era facil acompanha-la nas sues conversas, por cause do seu acento cockney; mas nada nos impedia, a mim e ao amigo Alberto, de estoirarmos de rive, um pouco por clever de hospedes, um pouco porque alguns copitos de misturas nos tinham posto de bom humor. Do almoco chegou-se ate a falar, incidentalmente: aperitivos, com ovos de gull, nao racionadas, frango assado e uma bela compote de fruta. Estava pronto, mas desgracadamente alguem deu volta ao interruptor e sobre um ecran apareceram as primeiras imagens de um drama de cow-boys que pareceu absorver o interesse de Honey de todos os presentes. Um drama televisivo.

Aproveitei a ocasiao pare me

retirar pare a sali

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nha de baixo, seguido por Alberto. Estavamos preocupados.

-Ovos de gull, isto e, de gaivota-disse eu.- Nao tem remedio. Sao negros tambem, como ela, e com sabor a peixe.

-Esperemos que o frango nao seja uma gaivota assada-disse Alberto.-Coragem.

Do outro quarto chegavam gritos e gargalhadas. <<Murder! Murder!~, gritava Honey excitadissima. Descemos ao patio, onde durante meia hora ninguem nos veio chamar. O drama devia tocar o diapasao, Honey alternava poquenos gritos e solucos, depois a certa altura os gritos tornaram-se furiosos e acabaram subitamente, seguidos por uma vozearia de gente que parecia encorajar ou socorrer alguem. O drama acabara ou fora interrompido. Subimos as escadas a pressa.

Haviam reacendido as luzes, Honey estava meio desmaiada num sofa. Estavam a sua volta abanando-a e dando-lhe palmadinhas na cara. Tinha-se divertido imenso, mas a ressurreicao do cadaver no bau provocara-lhe um thrill demasiado forte e dera-lhe um colapso. Era necessario comer depressa e acompanha-la a casa do filho, que morava a dois passos-cerca de meia hora-de distancia. O almoco tinha-se infelizmente queimado no fogao electrico, paciencia, tirariamos a desforra noutra ocasiao. Tres jovens peraltas trouxeram os ovos cozIdos da cozinha, negros por fora e verdissimos por dentro pela excessiva cozedura. Nao eram aconselhaveis, avisou Sir Donald. Melhor seria refazermo-nos com o frango, que era autentico, mas carbonizado, no meio de um jardinzinho de pickles

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e rabanetes. O doce nao estava mau e podia festejar-se uma meia garrafa de vinho australiano, do tipo aengarrafado pelo cliente>>. Era tarde, era necessario separarmo-nos. Honey estava outra vez alegrissima e em arrumacoes; todos lhe davam beijinhos atras da orelha e a certeza de que o seu sucesso fora extraordinario. Um rapaz salu para procurar um taxi. Partimos em dois grupos e em duas direccoes opostas: Sir Donald, Honey e dois rapazes no Austin, eu, Alberto e outros dois convidados no taxi, ate a proxima galeria do comboio subterraneo, onde fomos apeados com sorrisos e apertos de mao. Deixando-me descer no tapis roulant das escadas olhei para o relogio: eram onze e vinte, demasiado tarde para encontrar um restaurante aberto. E para cumulo tinhamo-nos esquecido de agradecer ao dono da casa.

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.T.TZIA EM FOGGIA

Os carris estavam escaldantes sob o torrido ceu de Foggia. Alem do seu reflexo, os vagoes cor de borras de vinho, a fonte seca, os troncos de arvore amontoados (absurda antecipa~cao do Inverno) pareciam desfazer-se como borracha. Relampejou nitida num segundo a visao do ultimo batente do comboio que se afastava com docura, quase a sugerir a ideia de que uma corridinha de cem metros teria permitido alcancar o vagao da cauda. Mas o tempo que Clizia demorou a medir as forcas que Lhe restavam depois de dois dias passados no calor sufocante de Foggia, os cem metros aumentaram para cento e cinquenta, duzentos. Demasiados. Eram as tres da tarde. Clizia sentou-se com precaucao na orla de um banco da sala de espera e abriu o horario. .

as sete nao havia comboios, depois um comboio-correio arrasta-la-ia durante vinte horas em direccao ao norte. Levantou os olhos com gesto instintivo, resignado e desesperado ao mesmo tempo, com que nas promessas das igrejas do campo aqueles que estao em perigo extremo procuram no ceu alguem que os ajude, agarram-se quase com os olhos a algum simbolo da sua interior confianca. Mas 0 tecto daquela sala de espera nao se abriu a nenhuma









:]

consoladora apari,cao. Apareceu-lhe, pelo contrario,

em toda a sua repugnante e funebre pompa uma longa extensao de apanha-moscas amarelos, cravejados de manchas pretas, sibilantes, quase uivantes pelo desespero de tantas agonias juntas. No centro da fita mais proxima uma grande aranha negra mergulhada naquela superficie viscosa nao se movia mais. Como pudera chegar ate ao centro da fita? Clizia deteve-se sobre determinadas hipoteses. Por fim concluiu que uma corrente de ar devia ter sido a causa da desgraca: suspensa no fio da sua baba a aranha decerto tinha descido pelos espagos da sua aerea constru~cao e o ciclone surpreendera-a, empurrando-a ate as areias movedi,cas daquele fatal

abrigo.

Concluida a busca, Clizia saiu para a praca. A

malita de fibra era leve, mas queimava-lhe como uma ortiga a mao escaldante. Os bares da cidade nao sao alegres em pleno Verao, por causa das esquadrilhas de moscardos que sugam vorazmente clientes e alimentos. E Clizia tinha-se despedido do quarto do hotel. Experimentou um momento de desanimo, depois a salvacao apresentou-se-lhe de repente no espaco verde de um enorme letreiro de parede. No salao da Camara Municipal (que imediatamente imaginou cheio de sombra e rico de fofas poltronas) os celebres professores Dobrowsky e Peterson, das Universidades de Batou Rouge e do Instituto Avatar de Charleston (Carolina do Sul), realizariam um importante debate sobre a metempsicose. Se alguem da assistencia se quisesse oferecer, estavam previstas experiencias praticas do

maior interesse. A entrada custava poucas liras.

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jl

Pouco depois Clizia entrou por um portaozinho ornamentado de ressequidos limaes e ramadas de pinheiro. Algumas setas guiaram-na ate ao salao. Uma sombra fresca acolheu-a e confortou-a. Na sala havia talvez uma quinzena de pessoas que se mantinham prudentemente afastadas da mesa dos dois oradores, ja prontos e a espera na sua mesa. Dois homens diferentes: um calvo, ressequido, de oculos, vestido de preto, o outro gordo, ruivo, em shorts e camisa de seda crua.

Girava entre o publico um criado, ou talvez um discipulo dos dois mestres, e distribuia opusculos sob pagamento. Clizia comprou um. Na primeira pagina um desenho reproduzia Pitagoras no templo de Apolo em Branchide. Do palio estendia o braco e o indicador para um escudo pendurado numa parede. Do seu rosto masculo e quadrado como os dos javens que o rodeavam saia uma nuvenzinha branca, na qual estava escrito em grandes caracteres: ~Eis o escudo que eu usava quando era Euforbo e Menelao me feriu!>> No interior do opusculo o episodio era explicado minuciosamente e nao faltavam alusoes a vida e as obras do sumo filosofo. Clizia leu duas ou tres paginas. A sua energia de novata diminuia ao mesmo tempo que das janelas abertas a frescura cedia lugar ao calor e ameacadores apareciam os primeiros enxames de moscas.

Recuou alguns lugares, no angulo mais escuro, fugindo ao olhar perscrutador do professor Peterson: e foi assim que perdeu pouco a pouco contacto com o mundo exterior, afundando-se por sua conta num pantano negro mas nao desagradavel.

Pareceu-lhe primeiro que no mundo ja nao exis

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tie nenhuma force de gravidade. Sentia-se leve, embalada por longuissimas pates que terminavam em macios pelos que amorteciam docemente cada passo: se assim se pode dizer, porque de passos propriamente ditos nao se tratava na sue marcha, mas sim de porcoes de passos levados adiante ore por esta ore por aquela pate, num movimento ordenado que se fazia por si, sem que ela se fatigasse a dar-lhe -impulso ou direcc~ao. Via o mundo numa perspectiva horizontal, ja nao vertical, como lhe parecia recorder aquela do homem instalado sobre duas andas e avancando em angulo recto com a terra. Para esta nova visao contribuia decerto a posicao do seu corpo inclinado pare a frente, apoiado sobre as sues bases mais ou menos como um soldado nos exercicios de <<formacao disperse>>, mas tambem a estranha disposicao dos olhos, oito como as pates e em semicirculo a volta da cabeca, tanto que -coisa misteriosa pare os homens-uma boa parse da planicie circunstante aparecia-lhe simultaneamente, acrescentando a sue ilusao de espaco e de liberdade. Dos olhos, pois, dois eram como que embaciados, um pouco miopes de dia. mas mesmo nisto Clizia descobriu uma razao que lhe dava uma liberdade ainda major: de facto, logo ao anoitecer foram aqueles a entrar em accao, a iluminar-lhe as trevas, a tornar-lhe mais facil o trabalho da teia.

A sue teia era bela, solida e teem tecida, a mais bela que conseguia avistar ao longo das quatro paredes daquele pequeno patio de marmore branco no meIo do qual um pequeno fontanario cantava noise e die espalhando o seu repuxo sobre um tapete de musgo muito macio. Vinha por vezes passear no

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patio um jovem vestido de branco (mas once e que o tinha visto?); com o bra,co dobrado junto a orla do palio segurava um livro que folheava passeando pare a frente e pare tras, alheio a tudo. E acontecia que ele parava e olhava atentamente a teia. Tambem de noise uma vez a mirou e pareceu-lhe que o jovem dava conta do belo efeito que o orvalho proporcionava ao longo da subtil trama de tecido, iluminada pelo luar. Enquanto reparava no trabalho, o enorme rosto do rapaz nao perdia a sue expressao absorta e intense. Parecia que a teia como que continuava nos seus pensamentos, se inseria no enredo do livro que lie caminhando ao longo do portico, desde a manha ate a noise.

Por vezes outros rapazes visitavam o jovem do belo rosto quadrado. Sentavam-se com ele junto ao fontanario, ou sobre o muro que circundava o portico, nao raras vezes mesmo debaixo do capitel que Clizia habitava. Falavam, folheavam livros e pergaminhos, impelidos pelos seus gestos pequenas ondas de ar chegavam a teia fazendo-a ondular, o movimento despertava ainda por um segundo as moscas presas e ja entorpecidas na agonia (qualquer coisa na babe da aranha devia tirar-lhes a vitalidade, pelo menos a julgar pela pouca resistencia que ofereciam uma vez caidas, facets presas ja prontas pare serem apertadas e sugadas). Muitas vezes os rapazitos tasquinhavam alguma comida, e quando se iam a aranha descia a recolher as migalhas, graos e as vezes cascas adocicadas. Foi assim que numa tarde quente ela avistou, apoiada no muro que lhe estava em baixo, uma fileira de pratinhos cheios de uma masse doce, amarelada,

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muito aromatica. Pendurou-se na teia e deixou-se cair, ai de mim, com demasiada pressa, pela avidez, ao longo do fio que se alongava cada vez mats: olhava pare o seu fio de baixo pare cima, a esticar-se, a esticar-se assim luzidio e forte, com uma especie de entusiasmo, de orgulho. Quando se apercebeu do que estava a suceder, ja era demasiado tarde, o seu terrivel destino estava marcado. O nectar alourado e mole tinha-a aprisionado pela lanugem do dorso, agitou-se, sacudiu-se, cuspiu toda a sue babe pare reforcar o fio e tentar subir outra vez. No esforco a cabeca ficou-lhe presa, pouco depois tambem uma pate se afundava naquele viscoso pantano. Um cheiro adocicado, nauseabundo, adensava-se sobre ela, o corpo endurecia. Num esforco de extremo desespero, de nojo sem limites, ia abandonando a cabe~ca pare tras a fim de apressar a morte quando uma mao pousada docemente no seu braco a acordou.

Viu o homem em shorts e o homem de preto curvados sobre ela.

-Senhora-disse o primeiro-, a senhora e uma pessoa verdadeiramente extraordinaria. Queira subir a catedra e expor aquilo que sonhou. Quer dizer-me o seu nome, a sue profissao, alguma coisa a seu respeito? 1! desta cidade? Trabalha aqui, estuda, viaja?

-Nao, canto-disse Clizia apenas pare dizer qualquer coisa (e de facto cantarolava muitas vezes pare si).

-Senhoras e senhores-trovejou o professor Dobrowsky em pessimo italiano, pare o publico-, talvez tenhamos aqui uma reencarnacao da Mali

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bran ou da divine Saffo. Mas nao, e impossivel, seria um salto demasiado grande no tempo. Quer dizer-nos, menina, quem sonhou ser? Este sonho deve c~r revelador da sue anterior existencia. Dei

xc-se discorrer, fale com descontrac~ao.

1~1;~;= ~lhr~l1 r~ara a sue frente e viu que as qumze

~,~.~ _.. ~ de antes se haviam tornado talvez numas

pessoas trinta.

-Pois-disse num enorme emDara,co quc :,c aproximava de um sentimento de pudor ofendido-, pois, credo ter sonhado ser uma aranha, sim, uma aranha no patio da case de Pitagoras, pelo menos parece-me se-lo reconhecido pelo rosto.

A assistencia desatou numa enorme gargalhada e o professor Dobrowsky corou ate as orelhas.

-Senhora-disse-, a senhora troca da ciencia, nao e digna da facilidade com que a minha hipnose agiu sobre sit Apercebe-se da perfeicao que seria necessaria pare passer de repente da situacuo de aranha a de ser humano? Fale a serio, diga-nos pods quem sonhou ser.

-Uma aranha no patio de Pitagoras-repetiu Clizia, enquanto as gargalhadas do publico subiam ao tecto e o professor Peterson a segurava por um braco e a ~^ r~

-line que nao mais participasse em experiencias ml3ito mais series do que ela

~^ ~- ~ norta. recomendandO

~ .  .. ~  v  ~ ._ _ _ .

AA ~-- r

ml~ito mais series do que

Encontrou-se de novo na rue quase a correr, apertou com raiva a malita. emitiu um pequeno gorgeio pare se sentir com vida e o~nou pa~a u 1~-logio que trazia ao pulso. Faltava apenas um quarto de hora nara a partida do comboio, a tarde fo~iana

tinha terminado









A TEMPESTUOSA

L

A noticia de que Joao Paulo se casara com a senhora Dirce F., duas vezes viuva e muito mais velha que ele, nao provocara desfavoraveis comentarios na cidade. A vida tinha sido dificil para Joao Paulo, e sabe-lo arrumado finalmente (mesmo se a cus t a de al gumas inevit av ei s renunci as) era um alivio para os seus numerosos amigos, nenhum dos quais se arriscou a pensar que ele tivesse, vulgarmente, apendurado o chapeu>>. As nupcias foram acompanhadas por festas e banquetes de notavel luxo; depois disso a vida dos dois esposos tornou-se um pouco sombria. Deles falou-se ainda, mas em termos bastante discretos. Falava-se que Joao Paulo <<trabalhava~ -em que e onde nao era possivel apurar-e que a sua Dirce lhe tinha preparado um paraiso terreal. Mas era evidente que o par vivia um pouco a margem. Quem falava referia-se a encontros e convites nao muito recentes, e mesmo elogiando a excelencia dos cozinhados da senhora e a rara franqueza da sua hospitalidade, manifestava logo o desejo de repetir a prova a longo prazo, n,1 ~.nt~n adiar sine die o momento da renlic~ Nao





eram criticas exphcitas ou francas atenuantes as que corriam pelas cautelosas bocas; e todavia acontecia muitas vezes que a quem dizia <<A senhora Dirce... Joao Paulo... um par formidavel...~> se lesse no rosto uma certa angustia e quase o proposito de nao despejar o saco.

De tais atenuantes e reservas Frederico nfio se apercebera bem antes da manha em que, desviando-se distraidamente do caminho habitual, na rua do Forno, chegando em frente ao palacete marcado com o numero 15, lembrou-se de que ali morava o seu velho amigo Joao Paulo, desaparecido do grupo dos seus intimos em seguida a um afortunado matrimonio. Frederico era pobre e timido e nao podia correr atras do Joao Paulo na sua nova existenc~a e apanhar as migalhas do seu farto banquete. O seu corac,ao era um coracao de amigo, nao um espirito de caudatario e de pendura. Um misto de reserva e de orgulho o mantivera por isso afastado do amigo mais afortunado; mas o gelo nao se quebrara por si e Frederico tinha chegado espontaneamente, quase sem saber, a tocar a campainha da casa de Joao Paulo, na esperanca de poder passar na sua companhia uma daquelas meias horas confidenciais que noutros tempos Ihe haviam tornado querida a cidade de A...

Recebido pelos ganidos de um cao de guarda e introduz~do numa sala -que depressa aprendeu chamar-se 2iving-room-cheia de quadros, de estatuas, de tapetes, de vasos de estanho e de aguias de prata, Frederico foi investido por uma rajada de gritos, logo que um criado mal barbeado referiu a sua identificacao.

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Frederico Bezzica? Que honra inesperada. Desde ha anos, desde ha dois ou tres anos, no inicio do seu beguin por Joao Paulo, quando o falecido, o segundo falecido, vivia ainda (um dedo levantou-se para apontar um homem careca num grande retrato a oleo), ela, a Sr.a Dirce, soubera tudo acerca dele, vibrara de intensa admira,cao pela sua vida e pelo seu caracter. Frederico Bezzica! Se o tivesse conhecido antes... Sabe-se la... Entre os amigos de Joao Paulo o mais querido, o mais digno, o mais reservado. Decerto, merecia uma repreensao por se ter apresentado s6 agora. Timidez? Amor pela vida tranquila? Compreendia (oh como) o seu gosto pela beata solitudo, e mesmo sobre tais bases de afinidade esperava encetar com ele uma boa e solida amizade. Joao Paulo? Sim, Joao Paulo estava a trabalhar, mas dali a pouco apareceria. Entretanto podia aproveitar-se a demora e trocar duas palavras para se conhecerem melhor. Desejava um Porto, um Dry Martini, um aquele mandriao para 0 senhor.

Negroni? Fabrizio, onde estaria do Fabrizio? Depressa, um Porto

Frederico nao levantara ainda os olhos para e~a: a salinha estava semiescurecida e a mulher sentara-se demasiado perto para que ele se atrevesse a virar o pesco,co. Mas um grande espelho-um trumeau, disse ela-reflectia a imagem de uma estranha ave de rapina encolhida, com as barbatanas do nariz (do bico) vibrantes, a plumagem entre o azul e o mogno e os olhos tortos e ardentes de uma luz toda exterior. Acendia os olhos como se faz com o briquet dos cigarros; depois apagava-os para os repor na sua trousse de tartaruga, ali a jeito.

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Depois de algum tempo Joao Paulo, em mangas de camisa, chegou e beijou a mao da esposa. Nao disse muitas palavras. Por sua vez, descorados e timidos aproximaram-se Antenore e Gontrano, os filhos do primeiro falecido (o dedo levantou-se outra vez para apontar o retrato de um oficial de bigode), e Rosemarie, a filha do segundo. Estava na hora. A Sr.a Dirce decidiu que Frederico ficaria a fazer penitencia com eles. Passaram a uma sala de jantar onde um lindo bordado estava estendido sobre uma mesa de vidro colocada por baixo duma estatua de bronze que parecia mergulhar sobre os convidados, e Fabrizio, depois de o senhor vestir o casaco, serviu uma canja em chavena, um soufld de queijo, um frito de camarao e aboboras, e um cestinho de fruta seca. Para o cafe voltou-se ao living-room; a operacao do filtro durou longo tempo e a escolha do licorzito que devia acompanha-lo foi igualmente cuidada.

Quando Antenore, Gontrano e Rosemarie pediram licenca, tambem Frederico tentou despedir-se, mas tendo incautamente manifestado o desejo de descansar (habito bem justificado depois do almoco e partilhado pela Sr.. Dirce), foi obrigado a estender-se sobre um sofa da salinha e convidado a fazer o seu soninho sem cerimonias. Ficou duas horas as escuras, agitadissimo. Nao se ouvia barulho; talvez todos dormissem.

Que fazer? Aquelas duas horas eram eternas. Deu-lhe coragem o pendulo quando tocou quatro vezes. Frederico levantou-se, abriu uma persiana, arrumou o diva onde dormira e salu em bicos de pes, procurando alcancar a sala de entrada. Mas

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o vigilante Fabrizio deu o alarme e o efeito foi que uma nova onda de cerimonias o atingiu do fundo da salinha.

Aproximava-se a hora do cha. Porque partir tao cedo? Negocios urgentes? Vamos, nao brinquemos. Nao se sentia bem? Teria sido aconselhavel um tratamento. Alguma piqure intramuscular de lecitina Bescape, por exemplo. As mesmas que ela dava ao Joao Paulo. Tinham-lhas aconselhado? Tanto melhor. Nao, nao era caso de adiar. Nada de farmacias, por enquanto... Teria feito tudo ela; era

uma enfermeira espertissima, qualificada. Por amor

de Deus, nada de cerimonias entre amigos. Um mo

mento so, um momentinho.

Voltou armada, e Frederico teve de deitar-se so

~bre uma pilha de almofadas e exibir parte do seu

i, fisico, alguns centimetros quadrados, ao ferrao da

h6spede. Alquebrado, sentiu-se na obrigacao de ficar

t mais alguns minutos, e entretanto Fabrizio voltou,

puxando 0 carrinho do cha. Admitido a cerimonia,

voltou tambem Joao Paulo. Anunciou que o tempo

tinha mudado. Chovia. E Frederico nao trazia guar

da-chuva.

A Sr.a Dirce tomou logo as suas providencias.

Frederico ficaria tambem para o jantar. Nenhum

incomodo, um grande prazer para todos. Recusava?

Coisas de outro mundo. Talvez fosse uma declara

cao de guerra? (Uma luz ameacadora lhe brilhou

nos olhos. E Frederico esbocou um gesto de pro

testo.)

Mas nao, que Diabo, nao recusava, ficaria. Cho

via a cantaros, voltaram a entrar Antenore e Gon

trano com o cao, foi servido um vermute e, depois

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de uma outra hora de agradavel converse, Fabrizio apareceu de luvas brancas a dizer que a ceia estava na mesa. Frederico foi acompanhado ao seu luger, once o esperava uma sopa do Paraiso, uma gelatina de coelho e alguns pessegos em calda. Fabrizio vigiava, com o ralador do parmesao, polvilhando os pratos. A converse derivou sobre o amor, e tornou-se mais intense quando os rapazes se retiraram. As dez alguns relampagos retumbaram na case.

Nao era possivel sair com aquela chuva. Fabrizio poderia acompanha-lo de carro, mas desgracadamente nao tivera tempo pare reparar uma grave avaria no diferencial. Nada receasse, havia o quarto dos hospedes, preparado com todo o requinte, um amor. Tinha-o arranjado ela. Queria uma camomile, uma tisana de menta, um cubo de brometo? Reencontrar-se-iam no die seguinte a hora do cafe. Mas antes, por volta das oito, Fabrizio estava avisado pare Ihe lever ao quarto uma chavena de cafe forte. Precisava de mais alguma coisa? O quarto de banho era a direita, o botao da laz a esquerda. E obrigado pela visita deliciosa, a primeira, sem duvida, de uma longa eerie. Obrigado, obrigado ainda; good bye, bad, bai.

Ja nao chovia; debrucado a janela do quarto, Frederico calculou que o salto era demasiado perigoso pare fugir de la. E alem disso havia a cancela do jardim pare transpor, o risco do cao Tombolo, mordaz, e outros possiveis imprevistos. Se o tomassem por um ladrao?

Vacilando, fechou a janela e vIu o pijama do segundo falecido (talvez o primeiro), que Ihe haviam estendido sobre a came. Levantou-o com dois dedos

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pare logo o deixar cair quando sentiu baser a porta. Era Joao Paulo que Ihe trazia um par de pantufas velhas.

-Ate amanha-disse-lhe.-Ver-nos-emos um pouco tarde, porque tenho de trabalhar. E tu, quando te cases?

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MULHERES DO <<KARMA

A pequena Micky doutros tempos (aquela que agora, neste claustro de quadro ~nazareno,,, se faz apelidar D. Michelangiola), o visitante recordava-a muito magra, com uma longa cabeleira louro-acinzentada caida pelas costas e um passo leve e decidido que lhe dava um ar de alegre esperanca e quase de triunfo. Tinha entao, talvez ajudada pelos saltos altos, um andar joie-de-vivre, de Nora ibseniana. Mas agora? Ha bocado, ficando atras de uma coluna, o visitante mirava-a: tem, como todas as suas amigas, as unhas pintadas de preto, ou de um verniz tao carregado que se parece com o preto, uma cara que por nenhuma razao seria capaz de sorrir, aborrecida por um tedio sobre-humano, e navega (como as suas amigas) num par de desajeitadas sandalias de frade, esfoladas aos lados, e demasiado largas para ela. Esta mais gorda, tem o cabelo curto e liso, grisalho, e traz oculos escuros mesmo quando nao ha sol. Veste um habito e tem duas conchas nas orelhas.-Senta-te-diz ao homem como se se tivessem deixado ha cinco minutos.-Fizeste bem em vir. O velho deixa-me sozi





nha sete meses por ano, e ainda bem, porque e chato que se farta. Imagina, nem sequer gosta de estar no convento.

O velho, podre de rico, deve ser o seu marido. Mas quem jamais o viu? O homem olha em redor. Encontra-se no daustro de um antigo convento em ruinas que a velha Micky mandou reconstruir junto a vivenda onde mora. Ou melhor: onde aparentemente mora, porque tudo, desde ha anos, se desenrola no convento: as recep~coes, os almocos (o refeitbrio tem pouca luz, mas aabre o coracao>>, no dizer dela). E ate la dormem, ela e as suas amigas, em certos quartinhos nus com o pavimento de tijolos gastos, com um enorme crucifixo preto, um jarro e uma bacia ao canto. (Semiescondida na parede, porem, uma portinha da para uma sala de banho em mosaico verde.) O resto e bastante bolorento. No quartinho hexagonal onde o visitante e introduzido, ve-se uma pia de agua benta em marmore. De vez em quando toca uma sineta.-Ouves?-diz Micky.-Tenho um jardineiro que foi sineiro e percebe de horas candnicas. Completas, matinas... faz mais sensacao. S6 que as toca demasiadas vezes...

-Mas v6s nao sabeis-continua, apresentando o homem com gestos circulares as amigas (semelhantes a ela na austeridade da figura e dos nomes: Freya, Cassandra e Violante)-, v6s nao sabeis que ha tantos anos eu estava para casar com este tipo? Lembras-te, Piffi? Certo dia ele diz-me: Sou demasiado velho para ti. Ele tinha 33 anos e eu 18. Que devia responder? Naquele momento nao encontrei palavras e, assim, ele foi-se embora e eu casei-me

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com Lucky. Que grac,a! Mas e uma testemunha perigosa, sabeis? Quando me conheccu, eu acreditava na psicanalise... e julgava que o amor terreno me faria feliz.

Coro de Freya, Cassandra e Violante com uma vozinha que abrange exactamente duas oitavas:-A serio, Micky? Como pode acontecer?

-Nao sei dizer, mas assirn aconteccu. Ja vos tenho explicado, saltei do quarto ao setimo em poucos anos. Um caso de amadurecimento acelerado.

O homem nao percebe nada.-Micky... Michelangiola... De quais quartos me estas a falar? Quartos de lua?

As amigas olham-se admiradas. Michelangiola encarrega-se de o elucidar.

-Tende paciencia, creio que nao percebe mesmo nada. Do quarto ao setimo estadio de reencarnacao, ve la se compreendes. Sabes alguma coisa do karma? Obscuracuo completa. Contudo, tu deves ser um tipo evoluido, diria nao inferior ao seis. 12 um caminho longo e cansativo a perfeicao. Muitos chegam la lentamente, como quando na escola de conducao te dizem que sao necessarias novas licoes porque nao sabes fazer as curvas. Outros voam, como me tem acontecido a mim, que e a ultima

vez que me encarno.

Entra um criado mal barbeado, que lhe faz um sinal. Michelangiola pede desculpa, levanta-se e sai com ele.

Coro de Freya, Cassandra e Violante:-Pobre alma! Muito mais que setimo, com aquilo que lhe fazem passar! (Toca a sineta. Pausa.)

Entretanto Michelangiola volta a entrar.

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-Como te das com os teus criados, Piffi?-diz. -Tinha um, um meio subversivo, que arranjava converses completamente disparatadas. Vou dispensar-te do relato porque ainda nao tomaste o teu chat Mas qual igualdade, mas qual exploracao, mas quads direitos; que tolices estas a dizer-me se o problema e completamente diferente? Se tanto fez, se tens aborrecimentos, ma~cadas e miseria, e so porque de momento o teu karma e aquilo que e. Exigir mais seria como querer sangrar um nabo. Espera pela tua vez e veras o que te reserve o futuro. Todos assim, estes miseraveis: nao sabem esperar e embirram com quem voa ou com quem ja voou.

Interrompe Freya, que e mais masculine:-Mas em suma, deste cabo dele?

-Definitely -diz Michelangiola.- Mas se pensa que isto nao lhe deixa sinais, engana-se, pobre rapaz! O espirito, ves Piffi, e mais sensivel que uma pelicula de gelatina. BaraEusta, meu filho, fez caprichos, disse-lhe: nao sabes o que perdes... Nao sabes...

Toca outra vez a sineta. Esta na hora de passer ao refeitbrio pare o chat

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-~ BAILARINOS NO aDIABO VERMELHO~

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Foi nos ultimos dies de Agosto, no tempo em que a cidade era mais quente que uma estufa, que ao jovem Cavallucci, aspirante a gloria das letras mas por enquanto desconhecido contabilista de um instituto estenografico da rue da Anguillara, pareccu ester promovido ou pelo menos benevolentemente tolerado como <<auditor~ no conceituado cenaculo que se juntava a volta das mesas do cafe... (Nao se diz o nome por motivos obvios.)

Que o cenaculo existia, era, teem entendido, opiniao geralmente aceite, talvez em homenagem a um passado recense, mas restava uma hip6tese apoiada em poucos elementos de prove. Via-se, e verdade, nas horas do aperitivo, alguns homens de varies idades, na maioria jovens, sentarem-se nas mesas do canto e trocar converses sem interesse; mas que existisse entre aqueles habitue's algum comercio intelectual, uma troca de ideias ou mesmo uma simples corrente de simpatia, isto seria um pouco difIcil de se afirmar. E todavia o Cavallucci, orgulhoso por ter dado o primeiro passo, nao estava em condi~coes de se deter sobre tads subtilezas: <<o grupo>>

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existia, estava ali a jeito, formado pelos Big Five (e ate mais que cinco) da cidade, e era-lhe permitido sentar-se aquelas mesas, um pouco afastado, e ficar a escuta, todo ouvidos, das poucas frases que corriam de uma cadeira para outra. A apresentac,ao oficial nao se tinha feito (nao era costume), mas Cavallucci conhecia um do giro, um dos menores, e a sua comparencia fora acolhida por olhares mais enfadados que desconfiados e tudo tinha corrrido bem. Assim uma vez, duas, tres... de bem para melhor. Por volta das oito da tarde, a dispersao do grupo, o Cavallucci, maltrapilho e cabeludo, casposo e com o entusiasmo que lhe brilhava nos olhos de fura-bolos, tambem se levantava sem deixar um centavo sobre a mesa (aos membros do grupo nao se obrigava a afazer despesa>>) e dirigia-se para o seu quartinho da rua das Stinche, que partilhava com outro inquilino, mais pivete do que ele, mas nao menos faminto de experiencias literarias, certo Pigni caido do Borgo San Lorenzo sem vintem, mas de profis sao es tudante un iversitario e de s de ha alguns meses empregado como verificador de instrumentos de sopro numa fabrica de harmdnicas em via de' Neri.

E as conversas dos dois amigos, ocupados a cortar com todo o cuidado dois arenques estendidos sobre um papel amarelo (como nas naturezas mortas de Funai), desenrolavam-se naturalmente sobre o grupo, sobre a feliz experiencia de Cavallucci, o qual deixava cair os resultados da sua iniciacao numa forma um pouco blase' do homem realizado que nao tem coragem, nao, nao tem mesmo coragem, de desiludir o novato, a cappella. Alguma coisa,

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todavia, era forcoso dizer e Cavallucci nao encontrava nada melhor que despejar o saco; mas com que refinada lentidao, como fazem certos donos com o gato, estendia algum bocadinho de gordura ou de tripas as garras do seu pobre companheiro! Os dois poetas mais conhecidos, o Mondelli e o Guzzi, aquele velho flacido e o jovem do queixo afiado? Nao, aqueles, para sermos justos, nao lhe tinham dito nada; bocejavam espantosamente, talvez esgotados pela excessiva concentracao intelectual; mas o modanes Lunardi prometera-lhe, com uma palmadinha nas costas, que o faria colaborar no Cavalcata, orgao de sua propriedade, independente do grupo, o delicado Lampugnani, continuando a corrigir provas, nao respondia a sua saudacao, e o pintor Funai, um mestre, esbocara o seu perfil no marmore da mesa. Havia tambem outros, naturalmente nem todos importantes, antes pelo contrario, bastante fessacchiotti, mas enfim, o ambiente estava animado, uma coisa puxa outra, e tambem o Pigni qualquer dia (nao havia pressas) poderia comparecer. Nao ja, compreende-se; Pigni saia demasiado tarde do emprego, com muita tosse, meio morto pelo continuo soprar, e a noite, depois do jantar, a comitiva ja nao era a mesma ou entao estava reservada para os intimos; ao domingo, pois, com aquela multiduo!, nao valia a pena pensar nisso. Mas a altura propria chegaria, era preciso ter paciencia... ~trabalhar,, (Cavallucci indicava com a mao uma pilha de apontamentos). E Pigni engulia pao e arenque e dizia que sim, meio espantado e meio incredulo.

Passaram algumas semanas de intermitentes

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comparencias de Cavallucci no cafe, depois, numa tarde de fim de Setembro os dois amigos decidiram arranjar divertimento de outro genero; ou antes, nao decidiram, foi o acaso que os fez encontrar duas robustas criadas de Monghidoro que haviam conhecido nurn droguista; duas gorduchas domingueiras, duas fofas, como dizia o esperto Cavallucci, naquele dia bem enfeitadas e janotas, com o cabelo comprido a americana e saias curtas acima dos joelhos nodosos; levaram-nas a jantar a da i'Lldcheri (o Pigni tirlha recebido umas boas gorgetas) e depois a passear nos Lungarni a media luz e ainda sufocantes.

Tomaram gelado de um carrinho e duas laranjadas para os quatro num pequeno bar, atravessaram a ponte de ferro e foram atraidos por um letreiro luminoso, aAo Diabo Vermelho~, a entrada de um dancing falado na cidade. Havia um pequeno jardim com lanternas a veneziana, um cafe, e mais para o interior uma pista triangular sobre a qual, empoleirada numa especie de gaiola suspensa, uma orquestra de jazz, composta de falsos spahis turcos, largava sobre os bailarinos uma chuva de miados e sincopados. A entrada era muito cara, mas o Cavallucci reconheceu um dos porteiros e entraram todos com uma palmadinha nas costas, como os Portugueses quando vao ao teatro. Logo a seguir os dois pares ja volteavam sobre a pista escaldante, no meIo de mais dez, vinte, todos impelidos pelo subito desencadear do boogie-woogie, quando o Pigni, que caracolava junto ao amigo apertando a mais magra das raparigas, deu uma cotovelada ao Cavallucci anont~ncln z~lD-'lem n~ r~onfoc:~o.-T.n es

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tao eles, mundo cao! Que fazemos?-Quem era? O Cavallucci virou-se sem largar a presa e viu... o imprevisto mas nao imprevisivel, que s6 se poderia evitar se um alcacao estivesse (mas nao estava) a

jeito dos bailarinos: viu os dois intermediarios com que contava, os dois leoes do grupo, Pedro Lam

pugnani e o robusto garraio, o Gamba, que se aproximavam deles apertando nos bracos dois juncos flexiveis, uma em lame prateado e a outra em setim vermelho, com longas saias, de costas descobertas e uma coroa de flores na cabeca. Um murmurio de admira~cao, asao as Rizzolini, as filhas do Repubblichino~, corria por todas as bocas na confusao.

Foi s6 um instante, o Cavallucci fingiu tropecar e olhou para o chao; mas ja o Lampugnani, alto, com o rubor de uma crianca no rosto. uma mao levantada para recompor o cabelo cor de raposa azul, lhe passava rente,- mantendo-se colado a sua loira. Reconheceu-o, apesar de miope, fixou-se com evidente admiracao e depois disse a meia voz, talvez com uma ponta de ironia:-Olha... boa tarde-e desviou-se para um lado, torcendo-se como uma enguia, enquanto o Gamba deslizava do outro lado, quase embatendo contra o Pigni e volteava com a sua morena de brincos a cacho de uvas, nao deixando de se virar com ar de incredulidade no rosto. Naquele momento a orquestra parou de repente, e todos se voltaram para a gaiola dos falsos pahis aplaudindo para que recomecassem a tocar, olhando ofegantes o diabo vermelho pintado de fresco sobre a porta de entrada para a pista. Quando a musica recomecou, com aqueles bailarinos entraram novos nares. mas o Cavallucci e o









Pigni nao insistiram mais nas sues tentativas e, escondidos atras de uma barreira de observadores em fato de noise, acompanhavam com o olhar as voltas e o rocar dos dois leoes, enquanto a orquestra mudava de ritmo pare a sinistra galopada de Miss Otis regrets. Uma das raparigas de Monghidoro estava a empoar-se sentada num banco, a outra encontrara um tipo a seu gosto e dan~cava na pista com ele. Voltaram a passer o Gamba e o Lampugnani, mas nao abarcaram com o seu olhar a primeira file de cabecas; estavam rigidos, ainda bronzeados pelo sol do mar e ocupadissimos com a loira e com a morena que manejavam como bengalas de passeio. Conhecido discofilo, o Gamba explicava a letra de Miss Otis, o outro extasiado como o Don Juan di Baudelaire, na daignait rien voir. Tal foi pelo menos a ideia do pequeno Pigni, que comecava a ter vaidade com os livros de frances no seu laboratorio. Curvou-se sobre ele o Cavallucci e, aproveitando-se do barulho, lancou-lhe a flecha do Parto:-Eu safo-me, mas se tu queres ficar... Ninguem te conhece, nao tens nada a perder... Preparou-se e saiu a pressa em direccao a ponte de ferro. So depots de uns cinquenta passos, voltando-se a claridade de uma luz, viu que o Pigni e uma das duas abandonadas o seguiam, amuados.

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OS OLHOS LIMPIDOS

O luto tinha-se espalhado no aArcolaio~, o grande chafe formado por duas velhas cases coloniais reconstruldas um seculo antes no estilo da folie rustica e ligadas por longos corredores envidracados e cobertos de flores e de trepadeiras. Luto pare os moradores do chafe e pare os colonos. Gherardo Laroche, rico industrial, bom apreciador de mu s ica e estima do co leccionador de arte antiga e cauteloso protector de artistes vivos, falecera ha dois dies e, apesar de o anuncio funebre ter <<dispensado visita>,, os seus numerosos admiradores e nao poucos amigos da case estavam presentes naquele die em volta da viuva, uma mulher alta, ossuda, nao velha, com os cabelos cor de camomile, mas agora toda de preto por cause dos longos veus e trajes de luto que a envolviam. A Sr.. Gabriela recebia as visitas no jardim, na companhia da loira filhinha Tatiana e do seu director espiritual, o padre Carrega. Uma criada vestida tambem ela de preto trazia bebidas frescas do interior. Havia calor, as visitas tomaram luger em volta de uma mesa de ardosia, a sombra de uma grande nespereira. Ao longe brilhava o Arno na curve de Rovezzano e al

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guns carros eram transportados numa jangada. Tocavam os sinos, a tarde festiva previa-se longa e triste.

De inicio todos os presentes, homens e mulheres, ficaram em silencio, suspirando um ou outro ai! cheio de desconsolo; depois o padre Carrega, reagindo a um gesto de profunda tristeza da Sr.a Gabriela, fez o ponto da situacao:

-1! preciso viver, minha senhora, e preciso sermos dignos daquele homem inesquecivel, que deu tudo pela causa do bem. Os seus amigos, os seus discipulos, os seus filhos espirituais (quem os pode contar?, sao tantos) farao frutificar a semente que ele espalhou. A sua querida filha de apenas 13 anos, esta purissima flor que Deus... esta flor que o ceu...

O padre Carrega parou incerto e fatigado, limpando os 6culos; mas ja havia quem tivesse acolhido o conselho.

-Tatiana sera sempre como uma irma mais nova para mim-disse Franca, aquela que tinha chaperonne'e a menina durante anos e que fora sempre da casa apos a morte dos seus pais, amicissimos dos Laroche.

Morena, nao demasiado magra, pelo contrario!, elegante apesar do seu evidente descuido no aproveitamento das ultimas artimanhas da moda, com olhos muito claros, o cabelo curto e encaracolado sobre a testa, a irma mais velha aguentou tranquilamente o olhar opaco e ao mesmo tempo picante da viuva.

-Conheco a sua fidelidade, Franca-disse Gabriela Laroche abrindo uma pequena carteira debaixo da mesa e procurando esconder-se com o veu

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preto. As suas pupilas amareladas tinham-se agu~cado; olhando para todos os lados enquanto a atencao dos outros se concentrava na pequena Tatiana, caida entre os bracos da amiga, a Sr.a Gabriela segurava entre o polegar e o indicador da mao esquerda um cartuxinho semelhante aqueles de que se servem os farmaccuticos para as doses de magnesia ou de sal ingles, sobre o qual se lia, escrito a mao, a indicacao <<F. 7 Julho~. A caligrafia era do falecido Laroche, o cartuxinho fora encontrado pela viuva na carteira do marido aquando do fatal desastre de viacao.

Agora falava o Dr. Billi, procurador da firma Laroche, elogiando os meritos do falecido no campo da industria. Quando teve a certeza de que todas as cabecas convergiam para aquele lado, Gabriela abriu o cartuxinho com um gesto rapido e, mantendo a mao meio escondida debaixo da mesa, deixou ver o que ele continha: um caracol preto em tom azulado, um caracol cortado a tesoura. A seguir (e a palavra passara para a Sr.a Catapani, uma ex-enfermeira de Laroche), Gabriela fez o confronto com um rapido golpe de vista, levando o olhar do caracol a cabeleira de Franca, de um preto que se aproximava do azul. Podia, sim, em certos momentos, sob certa luz; mas mesmo em quantidades minimas, omeopaticas, no pouco que pode ver-se num caracol de cabelos, numa franjinha?

-Continuarei 0 meu trabalho de bibliotecaria -afirmava naquele momento Fedora, a secretaria particular de Laroche, passando a mao pelos belos cabelos negros e ondulados.-12 necessario por Ele... e pelos estudiosos.

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-Tres anos de trabalho verdadeiramente meritorio, Fedora-disse a Sr.a Gabriela volvendo um olhar para o caracol do cartuxinho e outro para os cabelos e para os olhos vivos da graciosa rapariga. -Tres anos, ou estou enganada? Voce veio em... Julho de 36, quatro anos certos.

-Apresentei-me ao Sr. Billi em Setembro, D. Gabriela-disse Fedora atirando para tras um caracol nao muito dissemelhante do especime contido no cartuxinho.

-E eu em Agosto do ano anterior-precisou miss Filli Parkinson, a restauradora que tinha avivado uma ou outra ~crosta>> da coleccao Laroche. -Quatro anos feitos. Quem poderia imaginar.. . Enfim! Que tragedia!

Negra tambem ela, com os cabelos puxados sobre as orelhas descobertas, limpida no olhar, tambem ela, como Franca e como Fedora, graciosa, serena, impenetravel, nada embaracada pela blusa estampada as flores, sob a qual se estampava tambem um jovem seio exuberante.

-Devemos-lhe muita gratidfio, miss Parkinson -admitiu Gabriela, levantando o olhar rancoroso para a tran~ca preta caida sobre a nuca da linda rapariga.-Meu marido propunha-se demonstrar-lhe, no di-a do seu aniversario, no principio de Julho, no dia 7, parece-me...

-No dia 7 de Julho?-disse miss Parkinson esbugalhando os olhos brilhantes.-Nao, a 17 de Marco, ja passados, infelizmente. Envelhece-se. 1: verdade, o Sr. Laroche lembrava-se sempre de mim naquele dia.

Com um golpe seco Gabriela fechou a trousse,

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onde deixara cair o cartuxinho de farmaceutico. Depois, interrompendo um companheiro do defunto, um senhor Babbucci, que estava a falar, disse:

-Que tola eu sou! Nao sei porque, sempre este mes, o mes de Julho, me ficou tao vincado. Talvez seja por causa daquele terrivel Julho de 38 que passei numa casa de saude. Se nao fossem os cuidados do meu marido, e os seus, Franca, inseparaveis da minha cabeceira...

-... e tambem os cuidados de miss Parkinson -acrescentou o Dr. Billi com ar de quem quer remediar uma gaffe.

Uma vez mais os olhos daquele milhafre de luto pousaram nos olhos claros e muito limpidos das duas assistentes do Sr. Laroche, que receberam o desafio sem pestanejar. A terceira musa, Franca, falou logo a seguir:

-O mes de Julho nao lhe trazia sorte. Recordo que quando fui a Zurique com ele, por ocasiao da falencia da firma Zimmermann...

-Pois-disse Gabriela, examinando no espelho os olhos amarelos e inchados-, tambem foi em Julho.-Levantou os

olhos e fixou-a como uma ave de rapina fixa um pintainho.-Foi na primeira semana, nao foi?

-Saimos no dia 20-foi a resposta impassivel. -Ate ao dia 10 tinhamos trabalhado como mouras, eu, Fedora e miss Parkinson na restauracso da galeria. Assistidas por ele, bem entendido. E a senhora encontrava-se na Porretta com a menina, lembra-se?

-Ah, a Porretta-disse Gabriela. E com o gesto insidioso que cretendia por uma, pelo menos uma, fora de causa:









-Recordo, recordo muito bem quando voce chegou debaixo de chuva, a pingar, alegre, despenteada, loira... Olha, nao estava loira naquela altura?

-Loira, minha senhora?-disse Filli com ingenua admira,cao.-Nao, estava morena, mais morena que agora, com reflexos um tanto azulados...

-Ah, pois, com reflexos um tanto azulados -soletrou Gabriela, deixando deslizar o olhar sobre as cabecas que tinha a sua frente, sobre as cabecas carecas e cinzentas, sobre os cabelos prateados de Tatiana, sobre os caracois pretos, e talvez azulados, das tres raparigas, que agora estavam mais perto e formavam quase uma so cabeleira, uma parte da qual (mas de quem, mas de quem?) tinha acabado num 7 de Julho naquele cartuxinho de farmaceutico.

Ouviu-se outra vez um estalo seco. Gabriela, colocando o espelho na trousse, fechara-a e apoiara-a sobre a mesa, bem a vista, e levantara-se, espantando um pintassilgo que balou,cava no cimo da nespereira.

-Agradeco-vos a todos, a todos, digo, mesmo aqueles que nao tem cabelo preto e os olhos claros e tranquilos. O meu marido era um homem um pouco estranho, temos de o reconhecer. Se estivesse vivo queria agradecer-lhe... tambem; mas ja nao esta vivo, e parece-me que nunca existiu.

-Oh! oh!-disseram o Billi e o Babbucci.

-Oh! oh!-disseram em coro a Sr.a Catapani, Sr.a Billi e as tres morenas.

-Precisa de descanso, minha senhora-sussurrou o padre Carrega dando-lhe o braco e encaminhando-a para a porta que dava para o jardim, enquanto com um sinal da mao esquerda aconselhava

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os presentes a acircularem>>, a nao insistirem na visita.

Viram-na entrar no res-do-chao e desaparecer, depois de ter parado um momento diante de um grande espelho, onde lhe pareceu ver de perto o fundo dos seus olhos palustres.

Os outros, vencido um momento de incerteza, dirigiram-se para a cancela do jardim, em fila indiana, sem falar. Franca e Fedora estavam na cauda e caminhavam abracadas com ternura.

Viraram-se porem a voz de miss Parkinson, que acompanhava Tatiana para uma portinha de servico.

-Tambem vou convosco-disse Filli acenando-lhes com a mao-Esperem um minuto no cafezito ao fundo da subida. Dois tiros de pingue-pongue com Tatiana e vou ter convosco. Good-bye.

-O. K., Filli.

Ouviu-se o leve esvoac~ar do pintassilgo que pousava no baloic,o da nespereira.

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I: :: 4~.

NUMA aBUCA~ FLORENTINA

.

,,

Viraram-se porem a voz de miss Parkinson, que comiam alinhados de costas pare o muro tres ou quatro clientes mais pobres ou mais poupados e dois guardas a paisana-foi vista passer apressadamente e dirigir-se pare a escada de caracol que levava la a baixo, no mundo dos cantos, da luz e da boa cozinha, uma senhora de seio espalmado e pernas robustas, nao muito alta, vistosamente elegante, com um penacho atravessado na cabeleira avermelhada; e atras dela, obsequiosos, um homem grisalho de mondculo e outro fardado em traje escuro, com o pipistrello vestido de qualquer maneira e um feixe de jornais e um acoite nas maos.

-A Sr.a Pinzauti-disse, palido de admiracao, um dos homens do corredor, baixando o barrete basco sobre uma sopa de lampreia.

-Mrs. Bedford-corrigiu um cliente gordo, bastante surpreendido.

-D. Odilia Caponsacchi-rectificou um jovem careca e de oculos que chegara ha pouco de Roma.

-Ou melhor, Berta Chimichi, se nao se importam-insinuou um fregues que trazia um panama

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descido sobre os olhos e sobre um tacho de tripas e mao de vaca.

-Oh!-protestaram os outros.-Que esta a dizer? Tem vontade de brincar?

-Nao, e verdade-disse o desmancha-prazeres.-Chamava-se Albertina, dita Berta, quando a conheci, ha muitos anos. Eh, uma mulher deliciosa.

O adjunto do proprietario, o agerente~, passou pelo corredor deitando dois dedos de aleatico no copo dos agentes. Da porta do fundo avistava-se o caminho escuro, para la do alcapao meio fechado. A guerra tinha come,cado ha pouco e a vida nocturna da cidade fazia-se as escuras.

-Contem, contem-disse um policia que assistira com interesse as observa,coes dos quatro clientes.

-Uma mulher chique-confirmou o homem do panama. Um temperamento assim (e abriu as maos como se sustentasse uma grande esfera).-Eu conhecia-a bem; eramos companheiros de escola. Casou aos vinte e oito anos com o industrial Ferralasco, que nao podia faze-la feliz. Era um homem trabalhador, que nao Ihe faltava com nada mas que nao respeitava a sua personalidade. Sobre este ponto tinha havido um acordo entre os dois (um covenant, dizia ela), mas Ferralasco faltou ao prometido. Ela pretendia ser como a ninfa Melusina, que quando casou pediu para reservar para si um dia por semana, o sabado, para poder transformar-se numa sereia. Aos sabados o marido nao devia ve-la nem deIxar-se ver.

-Compreendo... compreendo-disse amavel

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I mente o primeiro interveniente.-E o marido quis saber mais.

-Nao imediatamente, claro. Estava ausente em negocios bem mais que um dia por semana. Quando porem estava em casa queria fazer-se sentir e controlar as suas despesas. Houve grandes desavencas. Dizem que certo dia o Ferralasco a encontrou nos bra,cos de nao sei que arquitecto que devia construir um pavilhao no jardim deles, no Pian dei Giullari.

-A um sabado?-perguntou com ansiedade o jovem careca.-Bela pretensao! Uma mulher assim naquelas maos. Nao conhe,co o marido, mas...

-Parece que era uma sexta-feira-disse o homem do panama.-Todavia, com um bruto daqueles nao havia nada a fazer. A sorte quis que Ferralasco morresse poucos dias depois sem ter feito testamento.

-E entao-perguntou aquele que comia lampreia-no vosso parecer o matrimonio com o Pinzauti deu-se depois? E ela ja tinha mais de vinte e oito anos?

-Nao sei o que aconteceu depois. Estive em Africa durante alguns anos.

-Era o arquitecto, este Pinzauti?-insinuou o outro agente a paisana.

O alcapao foi levantado com grande barulho e entraram um vendedor de jornais e outro homem, que levava uma barra de gelo coberto de serradura. Depois voltou o <<gerente,,, que dispos sobre as mesas alguns pratinhos com feijoes, temperou-os com o garrafao, sem exagerar, e deitou aos agentes uma

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outra porcao de vinho. Por baixo uma voz rouca cantaYa funiculi funicula.

-Mas qual arquitecto-refutou o senhor do barrete basco.-Aquele tera sido um simples epis6dio. Uma mulher como aquela casar com um artista, um passa-fome! Odilia (conheci-a com este nome) casou com o Dr. Pinzauti muito nova. Nao compreendo porque voces a fizeram... comecar aos vinte e oito anos. Ele era um homeopata bastante rico, trabalhava muito com os Ingleses. Depois foi exilado por razoes polfticas, mas ela naturalmente nao gostava de estar presa. Em vez de o acompanhar a Lampedusa, divorciou-se na Hungria passado algum tempo. O marido suportou as despesas, bastante pesadas, sem discutir. Era um avarento, reparai, um homem mesquinho que passava a maior parte do dia no seu escritbrio.

-Ah, aquele patife trabalhava com os Ingleses? -observou o homem gordo acariciando o emblema na lapela.-Talvez naquela altura Mr. Bedford fosse um amigo da casa, um consolador. 11 pena que nao tenha acabado como o arquitecto. Pouco depois do casamento levou-a para Ascona, onde pretendia escrever uma obra sobre o Estado corporativo italiano. Admirava muito os progressos do nosso pais. Tiveram um filho, que ela nao queria, e que agora deve estar na Inglaterra. O Sr. Bedford divorciara-se da primeira mulher por causa dela, mas as novas nupcias nao foram felizes. Mr. Bedford nao compreendia nem sequer a pintura da mulher, nem queria que ela frequentasse demasiado os nudistas do lugar; impunha-lhe uma vida muito aborrecida para uma artista como ela. Quando a senhora lhe

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pediu para fazer uma viagem ao estrangeiro em companhia de um naturista escoces, parece que aquele animal esteve para lhe dar uma bofetada. Para concluir, fizeram anular o matrimdnio e as despesas foram divididas entre Bedford e o seu sucessor.

-D. Clemente Caponsacchi-precisou o jovem careca de 6culos, que esperava a sua vez. Mas foi interrompido pela passagem de um vendedor de ostras e pela chegada de dois guitarristas que arranharam qualquer coisa tambem para eles e fizeram a seguir a ~colheita~ com uma bandeja na mao. Depois o alcapao foi levantado e baixado e a calma voltou.

-D. Clemente-recomecou o quarto informador, limpando os 6culos-estava metido em neg6cios ate ao pescoco, passava a vida no aviao entre Roma e Constantinopla e fazia-a levar uma vida demasiado mundana. D. Odilia teria preferido a solidao, nao gostava da baraEunda de Roma e detestava os artistas. Queria ter filhos, muitos filhos, mas ele nao concordava. Curioso, voces dizem que ela pintava? Alem disso, o marido dava-se com muitos politicos e com muitos chefes. Ao passo que ela, na altura em que a conheci, nao sei se me faco entender, eh... eh...

-Eh! eh!-fizeram os dois policias a paisana, piscando o olho.

-Oh, nada de mal, digo por dizer. Em suma, D. Clemente nao era o homem mais indicado para uma senhora tao refinada. Seguiu-se uma separacuo legal, mas os dois continuaram a habitar debaixo do mesmo tecto. Mais tarde foi anulada a separacao,









se bem que os conjuges se tivessem de facto separado.

-Talvez para a reaver?-perguntou o homem do panama, enquanto mergulhava no sal alguns graos.

-Esperemos que nao. Nao excluo que quisesse salva-la das maos de um bruto como Caponsacchi, que naquele tempo se divertia com uma dactil6grafa, mas seria cair de mal em pior.

-Uma moca formidavel-comentou um policia; e passou a palavra ao outro, que tinha entrado na escada de caracol.

-Estao a subir-disse o segundo agente, vindo de baixo.-Vao ao concerto da Comunale. Falavam agora mesmo diante do anuncio.

-Dirige o maestro Ostenwald. Um concerto interessante-disse aquele que conhecera Mrs. Bedford.

-Digno dele...

-De mim?-disse o jovem careca.-Oh, desculpe, refere-se a ela, a D. Odilia. Mas diga-me, porque e que criaturas como esta caem sempre nas maos de certos patifes que nao sabem compreende-las? Ao passo que n6s... eu...

-Ei-la-anunciou la do fundo 0 homem que ousara chama-la Berta.-Quem sera o homem grisalho que a acompanha? Talvez D. Clemente?

-D. Clemente navega por sua conta, meu caro senhor. Alem disso, creio que a lei do sabado s6 valia para o primeiro marido. Boa noite a todos; nao poderia suportar ve-la em companhia de outro bruto.

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.sLOW

Apresentei o requerimento de filia~cuo no Slow Club, uma seccao do qual surgiu tambem na nossa cidade. Entre os dados do meu curriculum indico que ando a pe e nao tenho carro nem carta. De facto, ao <<desgaste da vida moderna,> o clube contrapoe nao remedios e bebidas a base de ervas, mas um habito, um modo de vida completamente anacrdnicros. O clube tem a sua sede numa vivenda de estilo vagamente apala~cado; nao tem telefone e os quartos sao mobilados num estilo que vai de Tudor ao Biedermeier. 1! aquecido a lenha e os jornais so chegam com alguns anos de atraso, o que ocasionou longos acordos com as varias administracoes e precos particularmente desfavoraveis. O secretario que me acompanha pelos varios locais faz-me notar que o retrato mais recente e o da bela Otero e que o poeta mais jovem admitido na biblioteca e o glorioso Baffo. Na sala de leitura pode admirar-se um velho rel6gio alsaciano, daqueles com o cuco. No bar ha apenas camomila, tisana, ponches de mandarim. Os jogos consentidos sao as damas, a tombola e o pato; nao o xadrez, que requer demasiado dinamismo intelectual. No Slow nao sao admitidas mulheres nem pessoas que falem muito ou que

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tenham preocupacoes de proselitismo: oficiais e padres, por exemplo.

Enquanto observo a encaderna~cao de uma coleccao da Scena Illustrata chegam aos meus ouvidos as converses de alguns socios. Eis as que tenho na memoria.

Primeiro s6cio.-O colega Wickers, do clube de Chicago, que estuda 0 ritmo vital dos caracois, dizia-me que o deles nao pode ter compara,cao com o nosso. Se um caracol conseguisse ver na perfeicao nao colheria nada de nds, mas apenas o arranque de um reactor, do qual nao conseguiria distinguir movimentos e sons. Wickers enviou-nos as sues obras em velocidade retardada; e credo que daqui a dois anos poderao ser consultadas na nossa biblioteca.

Segundo socio.-Ontem casou-se uma pessoa da minha familia. Recebereis a comunicacao daqui a alguns meses. Estava noiva em 14, mas chegando-lhe a noticia de que seu pai tinha sido gravemente ferido na guerra, fizera a promessa a Nossa Senhora de nao casar sem que primeiro tivesse acabado de border com as sues maos nao sei se tres ou quatro centos de acasulas>> pare a missa. Quando o pai se curou e o noivo regressou sao e salvo da guerra, a rapariga nao quis deixar de cumprir o voto. Ha um mes a ultima casula estava finalmente concluida: e assim o noivo, renovando sem saber a bela historia de Isac, conseguiu leva-la ao altar depots de trinta e tres anos de fiel espera.

Terceiro socio.-Algum de vos se lembra de Carlo Marinelli, meu colega da universidade? Tombou as portas de GorizIa, em 1916, poucos dies de

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pods de ter sabido pela jovem esposa que o seu primeiro filho, felizmente, se anunciara. Carlo respondeu imediatamente, mas a carte, sabe-se la por que motivo, chegou ao destino so no outro dia. isto e, com trinta e sete anos de atraso. Podeis imaginar com que ansiedade a mulher, ja de cabelos brancos, reconheceu a sue caligrafia. Entre as muitas noticias e outras afectuosas expressoes, Carlo pedia a mulher pare baptizer o filho com o nome de Glauco, ou entao de Margarida, se fosse menina. Era um pouco tarde porque a menina, ja esposa e mae, tinha sido baptizada com o nome de Anal Mas quer o acaso que seja Ana desta vez a esperar um filho; e assim o desejo paterno sera cumprido, mesmo com o salto de uma geracao.

Quarto socio.-Dentro de alguns dies tomarei a liberdade de oferecer ao Conselho Directivo um licor de verbena num servi~o de porcelana que recebi ha pouco. Foi comprado na China em 1819 pelo almirante Lonefield, um antepassado de minha mulher. O almirante, assombrado pela esperteza de certos artifices locals, encomendou uma serie de chavenas e chicaras pintadas a mao.-Com todo o gosto-disse o chefe daqueles modestos artifices-, mas nos nao fazemos as coisas em eerie, tanto mais tratando-se de voce. D&nos algum tempo, nao muito: alguns anos: tera o mais belo servico que jamais se viu em Inglaterra.-Sir Roger Lonefield, surpreendido, aceitou a proposta, deixou la uma boa quantia como sinal e partiu de regresso a sue terra; mas na viagem a sue fragata, The Green Bird, naufragou na costa da Liberia e ninguem da tripulagao se pode salver. Ha um mes, Janeiro de 53, minha mulher,









ultima descendente dos Lonefield, recebeu um volumoso caixote ~extremamente fragil~, do qual, entre grandes quantidades de algodao, de folhas e de materias antichoque, emergiu uma serie de maravilhosas pecas, algumas das quais reproduziam o rosto e os feitos do almirante. Os entendidos consideram-no milagre. Nao pagamos nem um vintem.-A quantia deixada pelo almirante Lonefield-explicava a carta que acompanhava-rendeu em cento e trinta e tres anos a soma necessaria para cobrir as despesas, mesmo tendo em conta a desvalorizacao da moeda.-Seguiam-se expressoes de desculpa pelo pequeno atraso, devido tambem a procura dos herdeiros; atraso compensado, acrescentava-se, pelo grande amor e pela artistica preocupacao com que os melhores pintores chineses se haviam devotado a dificil tarefa.

Queria escutar mais, mas alguns rostos descorados levantavam-se das poltronas para observarem suspeitosos o desconhecido, e o cuco apareceu por seis vezes no rel6gio para marcar as horas (cu cu. cu cu. cu cu. cu cu. cu cu. cu cu) com uma lentidfio exasperante; aquele som todos disseram:-Fez-se tarde-e levantaram-se.

-Daqui a alguns anos recebera resposta ao seu pedido-disse-me o secretario acompanhando-me. -Se nao se falar muito em si, e provavel que voce nao soja blackboule'. Ja mandei vir uma carruagem para si.

De facto, diante da porta um phaeton puxado por um cavalito e conduzido por um cocheiro de libre esperava-me para me levar a cidade.

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0 MORCEGO

Por volta da meia-noite, estava o homem para apagar a luz quando uma sombra flutuante e sinistra, um borrao nas paredes, um ziguezague rapido como o relampago passou sobre a sua cabeca, desaparecendo depois em direccao a cortina que tapava o lavatbrio. Ouviu-se de subito um grito estridente.

-Um morcego!-berrava ela torcendo-se de horror.-Que especie de hotel e este para onde me trouxeste? Poe esse animal la fora, poe-no fora!

Berrava debaixo dos lencois, com medo ser tocada por aquele voo imundo. As suas palavras eram surdas e convulsas; sugeria que se lhe desse caga com um pau, com uma sombrinha, tendo a janela aberta e a lampada apagada. Talvez a atraccao da

luz exterior, quem sabe...

As escuras, e em pijama, com a cabeca protegida por uma toalha, ele percorreu o quarto ae c~ma a baixo tropecando nas cadeiras, agitando o <<cartucho~ de uma revista ilustrada (-A sombrinha!- gritava ela, mas nao tinham sombrinhas) e emitindo sons inarticulados; ate que, encontrando com a mao um botao na parede, tocou-lhe, fazendo jorrar uma









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onda luminosa que partia de uma concha transparente postada no alto, la muito no alto.

-Deve ter saido-disse, procurando mostrar-se

calma; e chegou-se a janela para a fechar. Mas logo um adejo viscoso lhe passou rente a testa, a sombra louca borboleteou ainda pela parede e extinguiu-se nos inatingiveis cimos de um negro armario.

-Socorro! Socorro!-gritava a mulher espreitando por baixo de uma almofada que tinha posto por cima da cabeca. E, depois, com voz mais calma, nao vendo ja o arabesco na parede:-Foi-se embora o monstro? Responde-me.

-Receio bem que nao-disse ele procurando atenuar a dura verdade (a sombra estremecia em cima do armario como se o <<monstro~ estivesse sob pressao, pronto a atirar-se ainda).-Receio bem que nao, mas agora obrigo-o a fugir. Tapa a cabeca, nao tenhas medo.

Subiu a uma cadeira, envolveu outra vez a cabeca, e com um esticao bem calculado fez cair o seu ~cartucho~ no topo do armario; do qual, com o baque, se levantou uma poeirada e o voo andrajoso e convulso do pequeno monstro, uma breve parabola que acabou, tremente, no pequeno cesto dos papeis.

-Socorro, socorro!-continuava ela a estrebuchar; mas ja o homem, armado de um chinelo de quarto, erguia a todo o comprimento um tapete diante dos olhos e avan~cava cautelosamente para o cesto de vime, dizendo com voz mais calma:-Ja sei o que faco, volto o cesto e deixo-o prisioneiro. Nao te excites, nao facas escandalo.

Quando lhe pareceu estar a geito, que nao estava, atirou um pontape ao cestinho, um pontape que segundo os seus calculos devia vira-lo sem fuzer sair o seu conteudo. Ouviu-se um outro baque, mais leve, o cesto rolou sobre si espalhando a sua volta cascas de ovo, cinza e fosforos apagados, e uma sombra dardejante partiu daquelas reliquias para atingir a concha de alabastro na qual luzia, enmo ',mz' n~rnla na ostra. a lamnada do tecto.

-Nada feito-confessou, sentando-se na borda da cama.-Nao se quer ir embora. Nao te inquietes: ~^c~ancn ''m momento e denois continuo a d~r-lhe

caca.

-Toca a camnainha-chorava ela das profun

dezas de dois cobertores postos por cima da cabeca. _~h~ms~ :~ ~ri:ld~ foi esse estafermo aue abri~l a

janela. Ela que de cabo deste vampiro...

-Acalma-te, amor, nao estamos em Italia, a esta hora nao viria nin~uem. Mas o que se podia, nr~

deixa ver. Podia-se...

-Telefonar ao porteiro-disse a lamurienta la do fundo.-Foe qualquer coisa na cabeca, deita-te ao pe de mim, sem me destapares, ai, ai!, levanta o auscultador, e fala-lhe tu, que sabes linguas.

-Linguas-dizia ele meio sufocado pelo tapete e meio estendido na cama.-Como se diz, como Diabo se diz morcego noutra lingua? (De baixo alguem se esganicava ~alo alo-` no auscultador

levantado.)

-Chauve-souris, morcego, taAvez bat-chorava

a voz dela la do fundo.

-Ah! os romances para alguma coisa te ser









vem-disse ele pondo um olho fora do tapete. E encostando a boca ao auscultador:

-Alo, alo: chauve-souris, morcego, talvez bat. Nao, nao sou doido (ele diz que sou). Chauve-souris, talvez bat, in my room. Venha, por favor. Help! Help! Au secours! Alo, ato! (Do aparelho chegaram blasfemias e palavras incompreensiveis: depois ouviu-se o taque do auscultador pousado.)

-O que e que disse?-perguntou a voz abafada.

-Vem ja, nao, nao e ja, mas vem... talvez venha. Nao sei se percebeu. Mas espera, querida, espera um pouco.

Tinha-se levantado com uma coragem e uma decisao que o espantavam. Tirou o tapete dos olhos e sentou-se numa poltrona de ramagens, a unica do quarto. A sombra convulsa continuava a esgaravatar na concha de alabastro e a luz desaparecia de espaco a espaco, em pancadas, a toda a volta:

-Espera um pouco-continuou ele.-Tens a certeza que morcego se diz bat? Tens mesmo a certeza? Sim? Tambem aquele asno do porteiro repetiu bat como se fosse uma palavra compreensivel. Acalma-te, agora vem ai com uma vassoura -a broom-deve ter dito broom-e pora tudo em ordem. Mas o Bat-diz la-nao era o restaurante onde nds nos conhecemos, a primeira vez? Parece-me que por cima da porta da entrada estavam pintadas umas grandes asas negras...

-De certeza, de certeza-insinuava a voz chorosa do subsolo da estopa.-Era o aMorcego~, e isso mesmo.

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-Estranho-continuava ele, com a concha debaixo de olho.-Sabes que o morcego foi o unico animal que eu matei? Diziam-me que era impossivel atingi-lo, por causa do seu voo irregular. Basta uma balazinha para o fazer descer, basta um furo nas suas asas viscosas. Mas quem e capaz disso, quem e capaz de Ihe acertar com essa balazinha? Dispararam todos, duas, tres, quatro pessoas, e nenhum morcego caiu, pelo contrario, outros sairam, em maior numero. Parecia que trocavam de nos. Depois disparei eu, quase ao acaso; era a primeira vez que dava um tiro com uma calibre doze. E o morcego caiu, bateu no chao como um lencinho mole, agitou-se ainda um pouco... e morreu...

-(Ai, ai, ai!)

-Nao sao feios, sabes? No fundo sao uns pobres ratinhos com asas de teia de aranha. Alimentam-se de mosquitos, nao fazem mal a ninguem. E o meu, desgracadamente, nao estava morto, mexia... como este. (Ai, ai!) Nao chores, vem ai esse outro animal, o porteiro. 11 preciso dar-lhe dois ou tres xelins; talvez mais, conforme o tempo que durar a ca,cada. Nao chores, que nao custa muito. Mas estou a pensar: este nao e o segundo, e o terceiro morcego importante da minha vida. O primeiro ja tu sabes; o segundo... es tu, ou quase, nao te ofendas; o terceiro caIu aqui esta noite e nos recebemo-lo assim, atirando contra ele revistas de papel couche, chinelos, tapetes; daqui a pouco, se esta meio-morto,-acabara a vassourada. Nao sei se e justo, nao sei... nao sei. (Ai, ai!) Nao, nao chores, falo por falar. Agora veremos o que se ha-de fazer. A unica coisa seria agarra-lo com delicadeza e po lo la fora. Se tornasse









a meter-se no cesto dos papeis, por exemplo. Se pudessemos atirar tudo pela janela, a gaiola e aquela alma negra. Ah, ah! Deixa-me pensar...

Atirara-se sobre a cama, enfiando a cabeca entre os cobertores amontoados, ate encontrar a cabeca dela:-E se fosse-sussurrou-lhe ao ouvido-, se fosse o meu pai que tivesse vindo visitar-me?

Com um grito, ela atirou ao ar cobertores e almofadas e sentou-se hirta na cama. Ja quase nao pensava na alma negra que ainda palpitava na enorme concha.

-Enlouqueceste, pela certa-disse-lhe depois, olhando-o fixamente.-Anda, pomos qualquer coisa pelas costas e descemos. Mudar-nos-ao de quarto ou passearemos um pouco no jardim. Faz calor e la em baixo nao ha mais ninguem. Falare; eu com o porteiro da noite. O teu pai? Porque? Um morcego?

-Nao sei-dizia ele quase a chorar.-Foi o unico animal que matei; com qualquer mosca ou formiga, compreende-se. O unico, e o meu pai ficou muito consternado. Creio que ele volta de vez em quando a minha procura, num ou noutro disfarce. -Encontrar-nos-emos em qualquer parte-disse-me na vespera de morrer.-Es pateta de mais para te governares sozinho. Nao te preocupes, arranjarei uma maneira, tratarei eu disso.-Mas quase me esqueci: so, as vezes, quando vejo esvoacar um destes animais, levanto o dedo, aponto e pum, vejo-o cair como um trapinho. E agora a recordacao dele...

Levantou o dedo para a concha e logo o rapido voo pavoroso se ergueu, bateu contra o tecto e passou atraves da janela, engolido pela escuridao densa

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,

do siroco. Ela, com outro grito, aEundara-se de novo entre as almofadas. Ao mesmo tempo alguem bateu a porta.

-11 o porteiro-disse o homem apressando-se a fechar a janela, e em voz forte:-Um momento, se faz favor, um momento.-Depois, baixinho: -Ve se tens uma meia coroa, qualquer coisa de prata, mas pouco, no fundo aquele idiota nada fez.

Agarrou na maeda, abriu a porta e sussurrou muito tempo no corredor. Ela, com os olhos esbugalhados, olhou ainda para a concha, agora quieta, e pensou no restaurante das asas negras; depois, lembrando-se de repente de que, poucos anos antes, a curiosidade de assistir ao Morcego de Strauss a salvara da morte, da bomba que destruira a sua casa, teve um novo impeto e atirou-se perdidamente sobre o amontoado de cobertores com um riso prolongado e confuso.

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O ANJINHO

Na escuridao do quarto ouve-se de repente um som quase inverosimil, como o retinir de um sistro suavissimo, que parte do fundo de uma mala de pele de javali. Para o ouvir e preciso estar acordado e estar muito atento; basta um suspiro, um bocejo, o ranger da cama, um passo abafado no corredor para sufocar aquela voz, para fazer com que ela morra sem ser ouvida. Mas isso nao acontece quase nunca. As oito e meia da manha, mesmo nos dias mais escuros de Inverno, mesmo quando todas as vozes no hotel estao ainda adormecidas, ele e ela velam a espera de serem acordados pelo poqueno despertador marca Anjo que tem escondido na mala. 11 um despertador quadrado, fechado num belo estojo vermelho, e se fosse posto em cima da mesinha de cabeceira brilharia tambem de noite porque tem os ponteiros luminosos, fosforescentes. Mas ele nao suporta o levissimo tiquetaque daquele coracaozinho mecanico e ela nao gosta daquele fervilhante brilho de fogo a dois palmos de si. Poe no quarto um nao sei que, un souppon, diz ela, de fantastico, a que nunca se habituou. E depois e melhor deixar o tempo correr, sem o controlar a cada se

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gundo. A unica solu,cao e sepultar o Anjo no fundo da mala e ficar de olhos abertos a espera de serem despertados. Raramente acontece que toque sem ser ouvido, encontrando-os aos dois adormecidos. Ele soEre de insonias e ela dorme pouco. Como pode suceder um facto tao inverosimil? Surgem entao discussoes muito pouco pacificas.

-Ruim anjinho-diz o homem sacudindo a caixita de pele vermelha e encostando-a ao ouvido. -Fizeste-o de propbsito? Perdeste a voz? Ou entao (e volta-se~ zangado para a mulher) foste tu que te esqueceste de lhe dar corda?

-Dou-lhe corda ha vinte anos, todas as noites a mesma hora. As vezes levanto-me ate duas vezes para verificar se lhe dei corda. Deve ter tocado enquanto ressonavas. Tem pouco som, bem sabes, e a medida que envelhece vai tendo sempre menos. Mas tomando bem atencao ouve-se perfeitamente.

-Ressonar, eu-diz ele afastando do queixo a cabeca da maquina de barbear.-Nao sabes que as quatro estou sempre acordado? Certamente tocou quando as tres negras do quarto ao lado fizeram aquele barulho infernal. Tu nao as ouviste, ha?, as Paprika Sisters? Entram a altas horas e salve-se quem puder, ate as paredes tremem.

-Esta noite voltaram as quatro-diz ela limpando o vidro do anjinho a uma ponta da camisa. -E o menino deve ter tocado perto das nove. Nao ha desculpa que pegue.

Batem a porta, entra um criado que traz dois cafes e um jornal que parece cheio de noticias. Ha um momento de silencio. Os dois estao ainda sos e o homem passa pela nuca a maquina de barbear,

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que solta um fastidioso chalreio. Depois desliga o fio da tomada, estende-se na cama e abre o jornal. E pouco depois, quase com um sobressalto:

-O menino?-diz.-Que menino? 11 um disparate tratares assim este pobre despertador sem folego. O Anjo nao e um menino, e um relogio.

-Foste tu que disseste que e quase como nosso filho. Viaja ha mais de vinte anos connosco. Proibo-te de o ofenderes. (Pega no anjinho, beija-o, coloca-o com ternura num saquinho de tecido escoces e poe o saquinho no fundo da mala.)

-Basta-diz ele exasperado.-1! preciso acabar com estas infantilidades. Nada de filhos espurios, nada de desejos de pessimo gosto, nada de sentimentos crepusculares. A vida torna-se cada vez mais dificil. 11 preciso pensar em coisas concretas, pensar a serio. Queres que experimentemos? Comecemos esta manha, comecemos ja.

-Pois experimentemos-diz ela com um suspiro de resignacao. Mas ja o homem, que esta passando os olhos pelas noticias do jornal, desata numa risada.

-Viste?-diz, mexendo a chavena do seu cafe. -Morreu Blackie Halligan, o heroi do Pacifico, ferido e supercondecorado por merito. E sabes quem era? Um pombo-correio que salvou a vida de trezentos homens.

-O nosso pacto comeca bem-diz ela.-Nao me dizes se rebentara a guerra, se o cardeal Mindszenty foi drogado ou nao, recusas-te a explicar-me o que e a ciencia atlantica; e depois basta um pombo para te por em alvoroco.

-O nosso pacto pode tambem comecar dentro

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de meia hora. Que Diabo! Ha trinta anos que dizemos tantos disparates, e nao se pode acabar assim, de um momento para o outro. Reparo que tambem eles, que ate venceram a guerra, nao tomam as coisas tanto a serio. Infelizmente, a Italia tornou-se uma terra de burocratas e de pedantes. Como nasceu a lenda da nossa incuravel anarquia? Somos formalistas, conservadores e rabulas mesmo nas mais inocuas questoes. Atribuir uma personalidade humana a um pombo ou mesmo a um despertador e um inocente animismo, e o animismo e a posicao espiritual mais digna do homem e tambem a mais 16gica. Porque o homem nao pode sair de si prdprio e nao pode avaliar as coisas com uma medida diferente da sua.

O contrapelo nao o satisfaz e torna a ligar a <<cigarra~ a tomada. Ela mergulhou na leitura de uma revista estrangeira e levanta a cabeca perguntando:

-O que e que quer dizer high-brow? Na America ha milhoes de pessoas que leem livros, mas apenas vinte e cinco mil high-brows. Esta escrito aqui.

-Deixa-me pensar. Quer dizer rigorosos, leitores de paladar dificil, emunctne naris. E que propoem fazer deles? Fuzila-los?

-Pelo contrario, pensam aumentar-lhes o numero. Queria-se que fossem pelo menos um por cento da populacao. Entao tambem os livros raros os livros abstrusos, os livros que nao contem golpes de teatro, aventuras policiais, ~crdnica negra>>, teriam um milhao e meio de leitores. E os noventa e nove por cento de americanos continuariam a ler os livros habituais. Seria um paraiso para todos.

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-E se nos-diz ele, alisando as faces-, e se nos fossemos high-brows da vida, em vez da arte? Tu nao les senao revistas futeis, eu ja so leio livros policiais. Temos um gosto grosseiro, grosseirissimo. Mas na vida... na vida tudo e diferente. Anjos na mala, e no ceu pombos prodigiosos; eis o que se quer para nos.

-Para nos?-diz ela com amargura.-Fala por ti. Eu fiz tudo para que te calejasses na vida. Temos a nossa frente dias tremendos. O anjo... foi o meu caso pessoal, o meu f lirt privado. Deveria ter-me habituado a um despertador Roskoff, daqueles que parecem maquinas de cilindrar. Repara: deves tornar-te um homem duro, muito duro se queres ser tomado a serio.

Do fundo da mala ouve-se um som imperceptivel,

~. quase um fiozinho de som, que dura poucos segun

`t dos e se extingue. Ele salta da cama e os dois, exci

~S!'~ tadissimos, disputam o pequeno saco de tecido escoces. Depois levantam o relogio, sacodem-no, acariciam-no e olham por muito tempo o mostrador.

-Nao esta nada estragado-diz ele, envergonhando-se de sentir a voz alterada.-Estava marcado para as nove e um quarto, nao para as nove. O ponteiro pequeno descaiu para a frente. Daqui

i~ para o futuro, se me das licenca, dou-lhe eu corda.

`; -Depois torna diante do espelho, mira-se para verificar se tem realmente uma cara de ~um por cento~ e, voltando-se para tras, murmura:

-E se 0 nosso pacto.. .

-~ ~ u 1lv~v ~.v... come,casse amanha? Sem falar, ela baixa ligeiramente a cabeca para dizer que sim. Esta pondo novamente o anjinho no estojo.

.

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RELIQUIAS

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-Nao encontro a fotografia de Ortello-disse a doente, remexendo nervosamente numa caixa onde tinha recortes, velhas cartas atadas com uma fita e alguns santinhos que nao ousava destruir (nunca se sabe...)-Tu, naturalmente, nem sequer te lembras quem fosse.

-11 ou era, se estiver morto, um cavalo, um belo cavalo que venceu o Grand Prix em Longchamp. Recordo-me perfeitamente. A sua fotografia esta ali dentro, tenho a certeza. Nunca o viste correr, mas foi a tua paixao durante certo tempo. Assim acabou no teu relicario privado, e agora pos-se a andar, ao que parece. Era um pedacinho de jornal, tera voado com o vento.

-Ah-fez ela compondo os cabelos cor de palha seca.-Tu falas do meu relicario como se fosse uma mania que nao te diz respeito. Ja o esperava. O certo e que o vento tera levado qualquer coisa mais que nao se encontra.

-O Ocapi?-perguntou o homem calvo com um estremecimento.-Impossivel, procura melhor.

; -Precisamente 0 Ocapi, aquele esthpido animal

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meio cabra e meio porco cuja membria querias eternizar. Voou com o cavalo. Para as coisas que te interessam tens boa memoria.

-Meio porco?-disse ele agitando-se.-Diz meio burro, meIo zebra, meio gazela, meio anjo. Um exemplar unico no mundo, de uma especie que se julgava desaparecida ha seculos. Eu queria ir propositadamente a Londres para o ver no Jardim Zool6gico. Treme de terror se ve os homens: e delicado de mais para estar entre feras como nos. Oxala tenham podido mante-lo vivo. De acasala-lo nem se fala. Onico, compreendes?, unico.

- -Feliz dele-foi a resposta, que queria ser cortante.

Calaram-se por muito tempo. Ela estendera-se numa cadeira de repouso e olhava as cenas alegGricas que apareciam entre os lacunarios do tecto, cenas de animais e de deuses, mas nao dos seus animais e nao de um Deus que ela sentisse perto de si. Ele fixava, para la dos vidros, a copa de um choupo inclinado acoitada pelo vento. Mais ao longe apareciam as faldas, ja com neve, dos Pre-Alpes. Depois comecou a chover e os vidros inundaram-se de grandes gotas. Era quase noite, as ninfas e os cisnes do tecto comecavam a ser engolidos pela sombra. So deram por isso quando entrou a criada para o cha e um candeeiro se acendeu a um toque da sua mao. Uma luz discreta espalhou-se entre os moveis a imitar o antigo. E ate o som da chuva pareceu mais alegre.

-Oh! um pouco de luz-disse ele ajudando-a a embrulhar-se num xaile.-Fala-se mal no escuro. Mas muitas vezes nao se repara que bastaria acen

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der uma luz e fazer claro tambem nas ideias. Estas hoje ma.

-Nao, faco simplesmente o inventario das nossas recordacoes, o unico fio que nos liga depois de tantas aguas passadas. Entretanto, as da caixa desapareceram, nao sei se por incuria minha ou tua. Mas~ha tantas outras que deveriam estar fechadas na caixa do nosso cerebro e que no teu ja nao existem, a julgar pela tua frieza, pelo teu silencio de marmota.

-Marmota eu?-protestou ele, passando uma mao sobre os aespinhos>> do cranio, reduzido por uma passagem, nao muito recente, da navalha.-Em questao de marmotas parece-me que a tua recordacao podia escolher melhor. Onde e que vimos uma, vamos la ouvir?

-Perto da abadia de San Galgano; tinha-a um cacador, aquele que se ofereceu para nos vender tambem o filho, um belo mamao branco e vermelho, uma maravilha. Ele estava decidido, falava a serio, dizia a mulher: e so por outro na maquina, que mal faz? Mas o filho nao o trouxemos; teria custado muito depois para o manter.

-Parabens pela tua memoria. Essa era uma simples marta, morta ainda por cima. As marmotas, as tres marmotas...

-Vimo-las numa pequena gruta, num rochedo posto a descoberto pelo funicular de Gornergrat. Dancavam alegremente, agitando as patinhas e saudando os viajantes. Sentiam-se em seguranca. Mas nao eram tres, era uma familia mais numerosa, pai, mae e filhos. Leite ou limao?

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-Simples-disse ele pegando na chavena. Depois olhou em redor, e quando a criada deixou a sala perguntou com falsa indiferenca, depois de um breve silencio:-E... a raposa?

-A raposa vermelha, queres tu dizer? Prirneiro tinha-se metido na sua casota dentro da jaula, em Zermatt. Nao queria deixar-se ver. Disse para comigo: conto ate vinte, se sair a tempo sucedera aquilo que deve suceder, e se nao sair... para o Diabo este homem. E contei, lentamente, cada vez mais lentamente. Aos dezanove a raposa saltou ca para fora.

-E assim te decidiste a casar comigo-disse ele, sustendo a respiracao sobre a chavena muito quente.-Percebo, percebo ate muito bem. Depois de tantos anos aprendemos sempre coisas novas.

-Nao te lamentes, contei lentamente de prop6sito. Talvez que depois dos dezanove tivesse feito uma longa pausa. Fui eu que a fiz sair... com o pensamento. Foi preciso, compreende-se, um pequeno truque. Tive de alargar os tempos. Como certos musicos.

-Ja que estamos em mare de confissoes, dir-te-ei que quando Mimi devia tornar a entrar na garrafa, em Vitznau, disse para comigo: se aparecer na garrafa da direita sucedera aquilo que deve suceder; mas se sair na garrafa da esquerda, entao... nao sei se me faco entender. Mimi, a cobaia branca e amarela, nao te lembras?

-Perfeitamente. E Mimi, quando saiu da manga do prestidigitador, ficou a direita? A nossa uniao tem portanto s61idas bases. Um biscoitinho?

-Nao, obrigado. Ficou a esquerda. Mas a prova

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foi repetida tres vezes e tu venceste por duas contra uma; era quanto bastava. Nao houve troques, como ves.

-A raposa e o porquinho da fndia, dois padrinhos interessantes. Estarao mortos ha muito sem saberem que desgraca suscitaram. A nossa vida e um bestiario, e uma jaula, mais propriamente. Julgas que os deitaste fora? Caes, gatos, passaros, melros, rolas, grilos, vermes...

-Oh! vermes-disse ele quase desdenhoso.

-... Tambem vermes e nao sei que mais. E os nomes? Buck, Pallino, Passepoil, Pippo, Bubu...

-Lapo, Esmeralda, Mascotto, Pinco, TartuEo, Margot...

Ia para continuar, porventura inventando, mas parou vendo que ela fechava os olhos, prostrada. Tirou de um prato um palitinho doce e levou-o a boca. Depois, quase automaticamente, estendeu uma mao para a caixa de cartao e comecou a remexer, entre os recortes, as fatografias e as velhas cartas. De um envelope que parecia vazio sairam dois pedacinhos de papel amarrotado, duas reprodu~coes de fotografias: um poldro nervoso e ousado e um curioso animal de olhar perdido, uma maravilha que parecia oscilar entre o Bedlington-terrier e o texugo, entre a porquinha e o cervo, entre a cabra e o burrinho de Pantelleria; talvez um despropbsito, um lapso que escapasse ao grande Proto, mas um paraiso para os olhos, uma esperanca inefavel para 0 coracao.

-O Ocapi! Ortello!-exclamou o homem, batendo com a mao na cabeca.-Encontrei-o! Encontrei-os aos dois!

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Mas ela continuava a dormir. La fora comecava a deixar de chover. Pousou-lhe com delicadeza os recortes sobre as maos em cruz e disse para consigo: desco a dar uma volta mas nao apago a luz. Assim, ao acordar, ve-los-a logo. E afastou-se nas pontas dos pes.

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O PRINCIPE RUSSO

-Ao Pied de Porc-dissera Carlos ao chauffeur; e ao pedido de um mais preciso endereco, acrescentara, em mau frances:-E! uma transversal a rua de l'Odeon; quando la chegarmos lhe indicarei 0 lugar.

O motorista partira resmungando. Um homem grisalho, de bigode, com uma casquette na cabeca. Mas os olhos...

-Viste aqueles olhos?-dizia Adelina.-Sao um mar, uma maravilha. Deve ser um nobre russo, talvez um principe.

-Um russo? E porque? Como e que sabes?

-Ha mil e quinhentos entre os motoristas de taxi de Paris, quase todos grandes senhores de origem. Da-lhe uma boa gorgeta, peco-te eu. Ou antes, deveriamos dizer-lhe qualquer coisa. (E voltando-se para o motorista, que carregava no acelerador:-Faz calor esta tarde, senhor, nao acha?)

-Bien sur, Madame-grunhiu o suposto principe, evitando a custo um velocipede.

-Parece-me que te da pouca guita-disse Carlos.-Deixa-o guiar em paz.

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-11 um homem fino, dei logo por isso. Hei-de apertar-lhe a mao. Achas que cinquenta francos de gorjeta chegarao? Mas quase tenho vergonha: nao queria humilha-lo.

A rua de l'Odeon estava a vista, mas Carlos, encostado a janela, nao via nada que lhe recordasse o Pe de Porco de que lhe haviam dado sumarias informacoes. O motorista, abrandando a marcha, voltava-se com ar interrogativo.

-Um pouco mais para la... um pouco mais acima... talvez a direita, nao, volte antes a esquerda -dizia Carlos, mas a tabuleta com o focinho do porco nao aparecia em lugar nenhum. O homem do taxi resmungava cada vez mais surdamente.

-Que figura estas a fazer-dizia Adelina.- Abusamos da sua paciencia. Por sorte que e um verdadeiro senhor.

-~ um bom grosseirao-dizia Carlos-; depois de tudo pago a taximetro.-O carro percorreu em ziguezague varias ruas, voltou para tras, seguiu todas as possiveis transversais e paralelas, mas sem resultado. A certa altura o motorista desceu e confabulou com um grupo de operarios parados a uma esquina. Depois voltou a subir e partiu de novo com ar de quem pensa: Achei!

Percorreu ainda meio quilometro, entrou numa rua escura e deserta e foi parar diante de uma tabuleta semi iluminada na qual se lia Au pied de cochon.

-VO'la le porc-disse, voltando-se para tras.

-Mas nao e aqui-disse Carlos, que estoirava de raiva.-Descreveram-mo de modo completamente diferente: uma praceta com arvores, um square, uma montra com ostras, faisoes e perdizes.

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E depois e porc, nao cochon. E para o motorista: Je cherche le porc, pas du tout le cochon.

-Eh bien, Monsieur-disse o motorista, abrindo a janela.-C'est bien la meme chose: c'est toujours de la cochonnerie.

Carlos queria replicar, mas Adelina agarrou-o por um braco. Desceram, deram trezentos e vinte francos ao velho, Adelina acrescentou mais cinquenta, e ele partiu, cumprimentado mas sem cumprimentar.

-Que tipo rustre-disse Carlos metendo no bolso 0 resto.-Deixou-nos onde ele quis.

-Aquela piada era deliciosa: c'est toujours de la cochonnerie. Qual era o motorista italiano ou frances que saberia responder assim? 11 um nobre russo, tenho a certeza disso. Que pretendias tu? Que soubesse de cor todas as gargottes de Paris? Devias dar-lhe uma direccao certa.

-Mas que russo! 11 um tratador de cavalos da Camarga, um provinciano dos quatro costados.

-E tu es um idiota.

-E tu uma imbecilzinha!

-E eu ja nao como.

-E eu tambem nao.

Sem dar por isso tinham-se sentado a uma mesa. O restaurante era triste, vazio, provavelmente caro. Um criado estendia a lista oferecendo: Nors d'oeuvre? Escargots?

A chorar, ela disse que sim, que comia os caracois.

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~TROCAR-TE-IAS COM...?~

Desde as primeiras horas da manha (as primeiras horas dos banhistas, as dez, as onze) que andam a girar pelos pinhais e pela praia. Observam, investigam, escutam e de vez em quando poem um sinal num livrinho de algibeira. Mas as horas mais frutuosas sao as da tarde, em que as pessoas fazem grupo, falam, se abrem em confidencias e, em suma, deixam escapar os seus segredos (se os tem).

-Trocar-te-ias com ele?-perguntou Frika a Alberice indicando um advogado peludo, em shorts, que estava curvado sobre as cartas. Atraiu-a a sua voz firme e forte, que a brisa nao consegue abafar (~Canasta porca>>... ~Sacrificar o Jolly~...).

-Eu? Imediatamente-diz Alberice, e faz um sinal no livrinho.

Passa uma mulher de cal,coes curtissimos, soutien e sandalias douradas. 11 uma bela estatua pintada de louro e de vermelho; vem todos os anos de Busto com um grande carro, um filho e uma preceptora.

-Trocar-te-ias com ela?-pergunta Alberice.

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E Frika:

-Que pergunta! Era ja.-E faz um sinal no livrinho.

Desce a praia uma velha oxigenada que segue atras de um caozinho branco, todo ele pelume da barriga para cima e todo tosquiado da barriga para baixo: um chumaco meio calvo e meio hirsuto, que deixa transparecer manchas de um rosa pulguento e olha com olhinhos pretos e irritados.-Vem Cheap, vem meu querido-diz a velha; e repete que o seu Cheap e como um filho, que agora ja nao o queria, tais sao as macadas que lhe da; mas que se ha-de fazer? Uma vez que o tem nao lhe deixa faltar nada, sem ela chora e desespera-se, pobre Cheap, e melhor que um cristao, sofre do figado mas pode viver ainda dez anos, pobre Cheap-vem minha cebolinha, vem a tua mama.

-Trocar-te-ias...-diz Frika.

-Com ela?-diz Alberice horrorizado.

-Nao, com Cheap.

-Imediatamente-diz Alberice, e faz um sinal no livrinho.

-E eu tambem com ela-diz Frika.-Tambem com ela, que ao menos tem o seu Cheap.-E poe por baixo o seu lindo sinal. Ou, antes, dois.

Chegaram ao sapateiro que trabalha na esquina da rua a sombra de um macico de lambugens poeirentas. Ela estende-lhe uma sandalia, e ele, curvado no banco, trabalha de barbante e trinchete. La do alto vem um canto longo, suave, pungente, triste e ledo. Um raio de luz na escuridao.

-11 uma toutinegra-diz o sapateiro.-Canta

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ha anos, mas nunca a pude ver. 11 a coisa mais bela que existe no mundo.

Escutam extasiados. Alberice faz um sinal no livrinho.

-Com o sapateiro?-pergunta ela num murmurio.

-Nao, com a toutinegra-diz ele-, mas agora que penso nisso, porque nao?-e acrescenta outro sinal.

A outra concorda e por sua conta poe so um sinal: para a toutinegra.

Passaram muitos anos desde o seu casamento, talvez so os nomes vagnerianos os tenham unido, mas agora ja nao ha nada a fazer. E, assim, durante horas e horas, na agua e em terra, a mesa e pelo caminho, na cama ou estendidos nas cadeiras de repouso; e a noite fazem as contas para verem quem totalizou mais pontos, quem e o mais infeliz dos dois, quem e aquele que mais se trocaria com qualquer outro...

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NOITE DIFICIL

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No primeiro die em que ele, na intimidade, lhe chamara, sem saber porque, ?<ratazana~, sue querida ratazana, ela nao se importara muito.-Ratazana? Que coisa e? Um animal, um sapo, uma flor?- Sim-havia respondido-, um animal, mas nao propriamente um animal: um gracioso animalzinho de pele, uma especie de furao ou doninha ou chinchila.-..

Mas naquela tarde, logo que a gondola, passada a ponte de Rialto, entrara num canal escuro, e um mergulho a sacudira, e ela erguendo o rosto que apoiara entre as maos, louca de felicidade, perguntara: aO que e?~, a resposta do gondoleiro: <<Ch' e uma ratazana~, o drama desenrolou-se em poucos momentos.

-~ um rato-disse ela com os olhos esbugalhados, fixando um remoinho na ague putrida do canal.-~ um imundo rato de ague. E tu atrevias-te...

-Eu?-balbuciou ele adivinhando a tempestade.-Um rato? Que dizes tu? Repara teem (o remoinho ia-se afastando) que e muito diferente de um

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rato; e qualquer coisa como uma lontra, um castor, com um pelo que e uma delicia...

O remoinho tinha desaparecido; mas um segundo mergulho mais forte fez-se ouvir, e quando a gandola passou ao lado de um pequeno icone com luzes acesas em volta da estatueta da Madona, ela pode ver uma ratazana que atravessava a agua, o corpo viscoso e gordo meio submerso, a longa cauda obscena, ondulada como um saca-rolhas, o focinho levantado entre a serradura e as cascas de limao a flor da agua, os olhos sujos, os longos bigodes gotejantes, as patas que batiam em turbilhao por entre a babugem do rio.

-A ratazana! Que horror!-gritava ela.-Sigam-na de perto, deixem-me ve-la melhor!

Ele voltou-se para o gondoleiro com um gesto de imploracao, para lhe pedir que seguisse a direito. Mas este ja virara com o remo e a gondola mantinha-se a dois passos da porca bestiola. Por um instante fez-se escuro, depois um peitoril iluminado lancou um feixe de luz sobre o sorvedouro do pequeno monstro nadante. Ela olhava esforcando os olhos miopes.

-Tenho estes olhos?-gritava chorando.- Tenho estes bigodes? Tenho estes pelos cor de chichi?

-Pois nao, patroa, 'ta tonta?-dizia o gondoleiro, e ele, o outro, continuava a estar junto dela e a dizer-lhe ansioso: ~Nao compreendes que e uma brincadeira, as ratazanas de Veneza, sim, sao outra coisa, sao ratoes nojentos, mas eu julgava, eu acreditava. . . >'

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[''~N '.4

Depois interrompeu-se e pareceu mais calmo. A ratazana saltara para fora da agua e desaparecera enfiando-se num cano de esgoto. Agora a gondola ia as escuras e a ponte dos Suspiros entrevia-se apenas a alguns metros. Ela chorava em silencio.

-Olha-disse o homem a tremer.-Efectivamente aqui, nestes esgotos... Porem, noutros lugares, onde a agua...

Mas ela cortou cerce, gelida.

-Logo que chegarmos ao hotel manda vir um motoscafo (1) _disse.-Parto esta noite. Escrever-te-ei depois a dizer-te para onde deves mandar-me a bagagem.

(1) Pequeno barco a motor usado como t~xi em Veneza por esta ser uma cidade lacustre. (N. da T.)

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OS COGUMELOS VERMELHOS

Ao fim da tarde reuniam-se num armazem vazio para fazerem calculos e planos sobre o modo mais conveniente de festejar a queda (e preferivelmente a morte) do Tirano. E ja que todos quatro eram glutoes, ou pelo menos gourmets, as imaginadas orgias tomavam sempre mais o aspecto de bons e suculentos repastos. Ambi,coes politicas nao tinham, e por outro lado a queda do patife era tao remota e imprevisivel que realmente seria estupido pensarem em recolher os restos da sua presa.

-Quando ~ele~ morrer-disse Abel em voz baixa (nunca se sabe, as paredes tem ouvidos)-, comeremos arroz a valenciana, caracois a bordalesa e um soufflet au vieux Prunier. Nesse dia pagarei eu, esta claro; mandarei vir o primeiro cozinheiro da cidade.

-Se conseguirem dar cabo dele-resmungou Egisto, olhando em redor com desconfianca-, preparo-vos uma sopa de pincas de lavagante como nem o Padre Eterno come. E quanto aos vinhos, quanto aos vinhos, tenho-os la em baixo na adega...

-Se lhe der um ataque-interrompeu-o Volfango com um grito (mas puseram-lhe a mao na

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boca para lhe moderarem a voz)-, far-vos-ei os cappelletti (1) como s6 eu sei, seguidos de um belo porquinho no espeto, um leitao bem tostado, e depois lambrusco (2) a rodos, a potes...

-Quando esticar o pernil-berrou Ferruccio pondo-se de pe, com os olhos vesgos e a respiracao entrecortada-quer-se uma coisa diferente! Um prato unico, daqueles que fazem perder a cabeca, um molhado, um picadinho de cervo, e juntamente...

-E juntamente?-disseram os primeiros tres.

-E juntamente uma boa tachada de cogumelos vermelhos, lavados com vinho verde, meia batata, meio tomate, um olho de aipo, um pitada de gengibre, uma gota de rum, um pozinho de funcho; e depois... depois de meia hora de fogo lento, uma leve camada de nata, um pingo, mas que pingo?, uma imagem de vinagre de Modena; e por ultimo...

-E por ultimo?-perguntaram ansiosos Abel, Egisto e Volfango.

-E por ultimo... ainda nao acabou... e por dltimo...

Rebuscou na memoria, gesticulou com as maos no ar, vacilou. So tiveram tempo de o levantar e de o deitar em cima de um sofa. Estava palidissimo, parecia ja nao respirar. Abel apalpou-lhe o pulso e abanou a cabec,a.

-~ preciso chamar imediatamente uma ambulancia-disse,-Para mim, foi-se. Eu ja sabia que estes discursos nao dao sorte.

(') Massa para sopa muito usada no norte da Italia. (N. da T.)

(2) Vinho italiano, da Emilia, bem conhecido. (N. da T.)

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O CAIR DA CINZA

A ponte de barcas que conduzia aos primeiros lugares, em frente a ilhota do Indiano, estava perto, mas infelizmente nao parecia acessivel a todos. Por ela tinham passado, pouco antes, algumas personagens de alta condi,cao, envoltas em capas negras, por entre os escassos aplausos e as homenagens de um grupo de piroforos que minoraram a escuridao com tochas fumegantes e lampadas de bolso empunhadas como pistolas automaticas. Agora estavam desencostando as barcas para impedirem a passagem ao comum dos mortais. O cou era cortado por grandes feixes luminosos de reflectores, e uma multidao enorme ondulava em torno da ilhota, tambem ela batida por potentes farois, sobre a qual corriam encenadores armados de megafones e de apitos, telefonistas, guarda-fios, enviados especiais e outros <<afectos aos trabalhos,>. Aproximando-me da ponte das barcas, tinha certamente despertado algumas suspeitas, porque um dos guardas do fogo chegou-se a mim cravando-me entre os olhos um tubo que irradiava uma desagradavel luz azul.

-Documentos-disse com um acento arrastado.

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Examinou demoradamente o meu bilhete de identidade, verificou se eu me parecia com a fotografia, e depois:-Por este lado-intimou secamente, indicando-me um declive do qual se passava para o parapeito do rio.

Em breve me encontrei ao lado de um murozito iluminado por um palido farol, longe da multidao, longe da ponte dos ~notaveis~ e perto de uma mulher de cabelos ruivos que parecia atenta a seguir as evolucoes de um caracol sobre o muro. A mulher podia ter 30 ou 35 anos, o homem que estava com ela, e que acabara de acender um grosso charuto tipo Minghetti, devia ser mais novo. Os dois falavam animadamente, mas o ruido de aeroplanos que passavam a baixa altura semeando espirais de manifestos sobre a multidao impedia-me de ouvir as suas palavras. Tinha comecado o 18 B. L., espectaculo ade massas~, representacao motorizada aerea e insular para todo e qualquer um dos cem mil espectadores que, no dizer da imprensa da epoca, devia partir definitivamente as pernas ao teatro burgues.

Nao segui muito bem o que se passava na ilhota, e durante algum tempo pensei em assuntos meus, sentado no muro, ate que enormes clamores me fizeram levantar a cabeca. No fundo tinha aparecido, entre as arvores e os arbustos, uma mesa armada em ferradura, sobre a qual estava escrito em caracteres de imprensa PARLAMENTO. Todos os farois assestavam sobre a mesa e os convivas, ameacados, uma e outros, por uma irrupcao de carros armados que, saindo das trevas, corriam de encontro a imunda barraca parlamentar, com o fim evidente de a atirarem para o Arno.

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-Encalhou-disse ela, mal olhando, e concentrou-se no caracol, que tinha chegado a meio caminho, entre os dois extremos do muro.

-Encalhou-admitiu o outro, tirando uma fumaca do seu Minghetti.

A mesa estava positivamente retida por qualquer obstaculo imprevisto e os carros que a tinham atingido e levantado ao ar nao conseguiam empurra-la para o rio, entre os gritos e as risadas do publico. Entretanto os crapulas dos sociais-democratas, pequenos como formigas, fugiam de todos os lados, perseguidos e atacados por animosos soldados condutores. Depois um reflector deixou de funcionar e o espectaculo perdeu, por minutos, o interesse. Passaram outros aeroplanos, voltou a luz sobre a ilhota, tiveram lugar algumas cenas coreograficas acompanhadas de trompas e de timbales.

-Nao vejo a razao...-disse em tom lamurioso a mulher dos cabelos ruivos; e parou, porque tinha parado o caracolinho salpicado de branco que brilhava a luz do farol.

-Nao e a primeira vez que se fala disto-disse o outro, fumando como uma chamine.

Por discricao dei dois passos para a direita. O ceu cobria-se de nuvens e ameacava chuva. Algumas ras conseguiam insinuar os seus coaxos ofegantes entre os rumores que vinham da ilha. No meio de uma forte concentracao de fardis, grandes arados e imensas maquinas agricolas iam rompendo as ja estereis terras do Imperio, das quais brotavam, obedientes aos apitos dos encenadores, espigas luminosas, plantacoes de algodao, rios de petr61eo logo metidos nos competentes oleodutos, densos

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pomares povoados de ninfas e de falsos bailarinos russos. Uivavam sirenes e fogos de artificio ardiam no horizonte. O publico silenciava alarmado pelos primeiros pingos, e quase logo as luzes da ribalta come,caram a falhar. Voltei pelo mesmo caminho.

-Que se passa la em baixo?-perguntava ela com voz mais tranquila, apontando para a ilhota. E olhava para o caracol, que retomara o seu arrastar baboso sobre o muro.

-Creio que arde a Sociedade das Nacoes-disse ele, consultando um programa e tirando outra fumaca. Depois observou com satisfa,cao a branca cinza do seu charuto, que ja fazia arco, mas nao se desprendia ainda.

-Deixa-a estar-disse ela.-Tenho uma ideia.

O vento crescia, a ilha era varrida por luzes e sombras confusas. Ouvia-se dos Lungarni (1) os klaxon que chamavam os clientes, e o publico iniciara uma debandada preocupante. Dois homens acompanhados por um chefe dos carabineiros passaram ao nosso lado apressadamente; vinham com certeza da ponte das barcas.-Nao ha disciplina -dizia um-; foi um fiasco. Vai haver complicacoes, sabes? Tambem Galeazzo estava aborrecido.

-Que ideia tiveste?-perguntou o jovem do charuto; e agarrou no seu charuto, pousado no parapeito do rio.

-~ uma ideia, uma pequenina lembran,ca que eu tive. Nao te mexas.

(') Avenidas marginais do Arno. (N. da T.)

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Um aeroplano passou em voo rasante com um barulho infernal, o formigueiro dos cem mil espectadores fervilhava todo ele. Depois, enquanto procurava distrair-se, ouvi um grito e vi a mulher dos cabelos ruivos agarrar-se ao pesco,co do seu homem e desatar em solucos convulsivos. A cinza do Minghetti caira inesperadamente e o lume do charuto brilhava vivo. No muro, nao estava ja o caracol.

-Passou-dizia ela, apertando-o com for,ca-, ja passou. Foi por meio segundo, sabes?, mas ja tinha contornado o parapeito...

-Meio segundo? Ja passou? De quem falas tu? -dizia 0 outro, espantado. E olhou para mim como que a pedir-me socorro. Ela, entre um soluco e outro, parecia incapaz de pronunciar palavra.

-Peco desculpa-intervim.-O caracol consegulu efectivamente contornar o parapeito antes que a cinza do seu charuto ca{sse, eis tudo...

-Ah, sim? Virou antes gue... E 0 que quer dizer com isso?

-Aqui come,ca o segredo, que nao e da minha competencia. Dir-se-ia que a senhora tivesse ligado a esta hipotese, a esta possibilidade, um significado muito preciso e muito intimo, qualquer coisa como um voto ou um desejo... que talvez lhe diga respeito a si, senhor. Sera assim?

A mulher anuiu com a cabe,ca, meia sorridente e meia confusa, depois continuou a solucar agarrando-se a ele.

O homem do charuto parecia cada vez mais intrigado e procurava

mim e disse:

consola-la. Por fim voltou-se para

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-Mas, desculpe, como conseguiu saber? Deita cartas, o senhor? 12 um prestidigitador?

-Pior ainda, se quiser; sou jornalista.

Afastaram-se juntos ao longo do parapeito do rio, voltando-se para tras, de vez em quando, para olharem para mim. Tambem eu os segui, lentamente, para nao ter de assistir a um novo desfile de hierarcas. Um grande ruido de automoveis andava no ar; os primeiros carros deviam ter chegado ja ao Viale dei Colli, que aparecia ao longe, pontilhado e percorrido por um rosario luminoso em movimento.

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O REALIZADOR

Aureolado, quase fundido na primeira neblina da manha, o homem que se parecia com Americo olhava para mim, parado em cima do passeio. Esbocei, depois contive um gesto de saudacao que nao lhe escapou.-Entao reconheces-me?-disse.- Sou eu mesmo, Americo. (.Maldicao~, disse para comigo. aComo e que eu o julgava morto? Qualquer informacao errada, alguma daquelas estupidas noticias que se recolhem sem se controlarem... Ainda bem que ele nao sabe de nada...~)

-Como estas?-continuou Americo.-Procurava-te tambem a ti, entre os outros. Estou de passagem e pOF pOUCOS dias. Nao devia dizer-to, as minhas incumbencias sao secretas, mas nao me esqueco do servico que me prestaste em Junho daquele ano, em Vallarsa, quando me mandaste de licenca na vespera da ofensiva. Eu sei, nao e que quisesses salvar-me a pele, pelo contrario, era-te antipatico, mas precisamente para reagires a essa injustificada antipatia quiseste ser cem por cento justo. E assim te devo a vida, o meu primeiro encontro com Y., que foi a minha sorte e aconteceu precisamente na

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queles poucos dias de licenca, e tudo o resto. Nao me agradecas e ouve-me bem (e sobretudo nao fales disto a ninguem, caso contrario deixo-te seguir o teu caminho e ninguem falara mais de ti): estamos a rodar um filme dos pr6ximos cinquenta seculos que depois os interessados verao, ou antes, viverao, a vez e durante a pequena parte que lhes diz respeito. Tu, como homem vivo, pertencias ao filme anterior, oh! nao, nao e um filme horrivel, nao o digas, mas certamente um pouco envelhecido, um pouco demode... Demasiados primeiros planos, demasiados travellings, demasiadas vedetas. Agora o enredo sera muito mais simples, muito mais corrente. E que musica, has-de ouvir! Forte como o troar do canhao e suave como o assobio do tordo. E compreende-se: la em cima modernizam-se, estao ao par. No fundo, temos uma seleccao que voces nao tem.

-Pois-balbuciei, encostando-me a uma parede onde estavam afixados os cartazes para o dia ada educacao na estrada^~.-Pois, compreendo perfeitamente, la em cima... ah!, pois, e natural, uma seleccao... muito selecta, muito rica...-(O cartaz sobre o qual eu apoiava as costas tinha escrito aA vida e breve, nao a abreviem mais~.)

-Ora-continuou-nao se trata de te dar um papel novo, o teu esta a acabar e nem sequer foi muito brilhante. Nao por tua culpa, bem sei. No teu tempo estavam na moda os galas, e tu nao nasceste para isso. Terias representado melhor no novo filme, mas repito que nao ha nada a fazer. Nasceste cedo demais. Mas nao te impressiones. Posso arranjar-te um furo no novo filme, dar-te um lu~ar na

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recordacao dos novos actores. Tu escreves, ou pelo menos escrevias, se bem me lembro. Nao tenhas muitas ilusoes, um lugar tipo Homero e-te interdito pelas notas informativas que estamos recolhendo e que nao sao extraordinarias. E nao creio tao-pouco que uma imortalidade (repara, s6 durante cinquenta seculos) tipo calimaco, duzentos leitores em cada seculo-mas que leitores!-,possa ser-te confiada. Uma sobrevivencia assegurada as tuas obras nao posso garantir-ta. Talvez a merecas, nao o excluo de modo nenhum. Mas que queres? As notas informativas sao o que sao, nao tenhamos ilusoes sobre a imbecilidade de quem as escreveu, mas atira-las todas para o cesto dos papeis nao se pode. O novo filme organiza e recozinha os dados do filme anterior, nao podemos fazer tabua rasa de tudo. La chegaremos um dia. mas por ora e preciso paciencia. Eu prdprio serei brevemente substituido por novos realizadores, muito piores do que eu. Portanto, que dirias tu se te oferecesse um papel de co-primario? Ninguem te lera, no novo filme, mas seras recordado como uma figura ja existente, como alguem que viveu noutros tempos. Queres ser o personagem de um libreto de opera, um personagem secundario, daro, qualquer coisa como o Angelotti da Tosca? Creio que existiu realmente. Ou preferes ligar o teu nome a um bife como o senhor Chateaubriant? Podia-se fazer-se preferes-com que um alfinete, uma gravata, um peitilho adoptassem o teu nome; ou uma nova subespecie de caes, se queres. Sei que gostavas de certos bastardos, podia-se estabelecer um tipo e apor-lhe o teu nome. Mas e pre";cm a~rlar A~nr~c:sa Estou muito ~tarefado

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te encontrasse nao sei se terias figurado no mou treatment. Sabes dar-me uma ideia, uma indicagao?

Vacilei, dei alguns passos no nevoeiro, Americo amparou-me, um sinal verde que estava nas minhas costas passou a luz vermelha, uma fila de carros arremeteu contra mim e depois, a uma apitadela, parou de repente. Um policia vestido com um impermeavel preto aproximou-se a correr.-Esta em transgressao-gritou.-Saia daqui e siga-me ao carro-patrulha.

-Tambem ele... em transgressao?-disse eu, olhando para Americo, que saltara para o carro-patrulha connosco.

-Ele? De quem esta a falar?-disse o agente tirando para fora um livrinho para me ~notificar~. -O senhor esta embriagado?

Evidentemente que nao via nada no nevoeiro, onde so eu divisava o rosto que me tinha solTido em Vallarsa, mais de trinta anos atras.

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AS VIWAS

Os meus melhores amigos morreram. Nao mais novas do que eles nem melhores, nem mais dignas de sobreviverem, ficaram na vida as suas mulheres. Perpetuam a membria deles, andam envoltas em crepes, enfeitadas de fitas e de borlas; sao obsequiadas pelos prefeitos, presidem a comites, cortam fitas inaugurais de exposicoes, partem garrafas de champanhe sobre quilhas prestes a serem lancadas ao mar, corrigem as provas dos defuntos, levantam as suas ossadas no tempo apropriado, concedem bolsas de estudo, mantem vivo um pavio que preferiria extinguir-se por falta de azeite. ~Deixai-nos em paz!>>, diz de debaixo da terra a voz flebil dos extintos. Mas as viuvas insistem; e quando as primeiras sombras do olvido se debrucam sobre as mesinhas de cha espalhadas pelos pinhais, a vista dos Apuanos, elas curvam-se sobre as cartas da canasta e dizem: <<Para tras! non praevatebunt!>>

Nao ficaram na cidade, as estimadas viuvas, dobradas sobre reliquias agora muito escaldantes. Espalharam-se pelo mar e pela serra, veem pelo binoculo os alpinistas que escalam o Cervino, flutuam

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como baleotas no mar liso do Lido, retemperam-se com um goulasch na barraquinha hungara do Cin

quale, reconhecem-se pelo cheiro, fazem grupo entre si e falam... falam daqueles que as precederam no reino dos Padres. Sao poliglotas, mundanas, reservadas, altivas, distantes; se tornaram a casar, mantem o culto do seu primeiro. aMein Mann~, diz uma; ~mon mari~..., diz a outra; ~my husband~, repete uma terceira. E uma quarta sussurra ao ouvido de uma quinta: ~Ate em certos momentos... compreende, preferia que eu tivesse as meias...~

Os mous melhores amigos morreram e so eu continuo a lutar contra o culto a eles votado pelas estimadas viuvas. Recordo-os a minha maneira, subindo para o electrico, tomando o aperitivo; reconheco-os no focinho de um cao, no perfil de uma palmeira, na trajectoria de um fogo de artificio. Encontro-os as vezes na babugem que o mar atira na direccao do Calambrone, no fundo de um copo de velho Barolo, no salto do gato que ontem a noite perseguia uma borboleta na praca de Massa. Nenhuma voz dizia ~my husband!,, e Eles eram felizes, viviam comigo.

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IV









O HOMEM DE PIJAMA

Passeava pelo corredor, de pijama e pantufas, galgando de quando em vez um montao de roupa suja. O meu hotel era de primeira classe porque tinha dois elevadores e um monta-cargas (quase sempre avariados), mas nao dispunha de uma arruma,cao para os lencois, fronhas e toalhas provisoriamente fora de uso, e as criadas tinham de os acumular, por aqui e por alem, nos cantos mais escusos. Noite alta, aparecia eu por esses cantos escusos e por isso as criadas nao gostavam de mim. No entanto, depois de distribuir algumas gorjetas, tinha conseguido autorizacao tacita para deambular por onde me apetecesse. Ja passava da meia-noite. OuvIu-se, baixinho, tocar um telefone. Seria no meu quarto? Adiantei-me, sem fazer barulho, mas percebi que alguem atendia; era no quarto 22, ao lado do meu. Ia para me retirar quando a voz que respondia, uma voz feminina, disse:-Nao venhas por enquanto, Attilio; anda um homem de pijama no corredor. A passear para ca e para la. E podia ver-te. Ouvi um grasnido confuso do outro lado. -Ora...-respondeu ela-sei la quem e. 12 um

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infeliz que faz sempre aquilo. Nao venhas, pe,co~te. Quando puder ser. aviso-te.-Desligou bruscamente, senti passos no quarto. Afastei-me a pressa, a deslizar, como se andasse em patins. Ao fundo do corredor havia um sofa, outro montao de roupa e uma parede. Ouvi abrir-se a porta do quarto 22; a mulher observava-me por uma fresta entreaberta. Nao podia deixar-me ficar la ao fundo; voltei lentamente para tras. Tinha uns dez segundos a minha frente antes de passar diante do 22. Examinei, num relampago, as diversas hip6teses possiveis: 1) voltar para o meu quarto e fechar-me la dentro; 2) idem, com uma variante, isto ~e, informando a senhora de que tinha ouvido tudo e estava disposto a ser-lhe agradavel, retirando-me; 3) perguntar-lhe se estava mesmo interessada em receber Attilio ou se eu nao passava de um pretexto que ela arranjara para se esquivar a um prelio nocturno que nao era do seu agrado; 4) ignorar a conversa telefonica e continuar o meu passeio; 5) perguntar a senhora se tencionava eventualmente fazer-me substituir o homem do telefone para os fins apontados no numero 3; 6) exigir explicacoes para o termo <<infeliz~ com que ela tinha achado por bem designar-me; 7) ... a setima hip6tese custava a formar-se no meu cerebro. Mas agora ja eu estava diante da fresta da porta. Dois olhos negros, um roupao vermelho por cima de uma camisa de seda, uma cabeleira curta, mas muito encaracolada. Foi so um instante, a fresta cerrou-se de repente. Sentia o coracao a bater com forca. Entrei no mou quarto e ouvi o telefone tocar outra vez no numero 22. A mulher falava baixo e eu nao lhe ouvia as palavras. Voltei para o corredor,

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pe ante pe, e entao consegui perceber alguma coisa: ~1: impossivel, Attilio, digo-te que e impossivel...

Depois o clique do auscultador no descanso e os passos dela em direc,cao a porta. Precipitei-me, de um salto, para o montao de imundicie numero dois, ruminando interiormente as hipoteses 2, 3 e 5. A fresta abriu-se de novo. Era impossivel ficar ali parado. Disse de mim para mim: sou um infeliz, mas como e que ela conseguiu sabe-lo? E se, continuando a passear, a salvasse de Attilio? Ou, porventura, salvasse Attilio dela? Nao nasci para ser arbitro de coisa nenhuma e muito menos das vidas alheias. Voltei para tras, arrastando uma fronha presa a uma pantufa. A fresta estava mais larga, a cabe~ca encaracolada via-se melhor. Eu estava a um metro daquela cabeca. Endireitei o tronco, na expectativa, depois de me ter libertado da pantufa com um pontape. Disse entao, numa voz excessivamente alta que ressoou pelo corredor fora:-Ja acabei 0 passeio, minha senhora. Mas como e que sabe que eu sou um infeliz?

-Todos nos somos-disse ela, e fechou a porta com violencia. La dentro, o telefone voltou a tocar.

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NO LIMITE

A viagem cujo inicio posso relatar foi precedida de um incidente desagradavel. Tinha saido de casa de uns amigos, na rua delle Carra, e poucos passos adiante conseguira encontrar um taxi no qual contava ir ate a praca Beccaria. Quando o carro atravessava o Prado, vi sair de um cruzamento um Chevrofet verde que veio direito a nos. Havia tempo de sobra para travar, se os condutores tivessem tido uma ponta de bom-senso. Mas nenhum dos dois se decidiu, ambos eles teimosos no seu presumido direito de <<prioridade,>. A distancia entre os dois carros ia diminuindo. <<0 estupido acidente do costume~, disse eu comigo, fechando os olhos. Passado um instante que pareceu eterno, deu-se um choque violentissimo e fui sacudido como um copo de dados no interior negro do carro. Depois senti que estava estendido no tejadilho do veiculo, que evidentemente se tinha virado. Por um vidro partido filtrava-se uma luz e chegavam ate mim as vozes da multiduo que acorrera. Os dois condutores discutiam um com o outro, os recem-chegados tomavam partido por este ou por aquele e ninguem

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parecia preocupar-se comigo.-Mas esta um homem aqui dentro-disse por fim uma boa alma, e alguem experimentou abrir a porta que me servia de apoio e da qual rolei imediatamente pare a estrada, pare logo a seguir me levantar. Nessa altura a dispute entre os automobilistas atingiu o nivel dos palavroes e eu tive tempo de limper o melhor possivel a poeira do casaco, de apalpar-me pare ver se estava vivo e de salter pare um electrico que ia ali a passer. O electrico ia meio vazio e toda a gente se apeou ao chegarmos a Porta, ate o proprio condutor, pare fumar um cigarro; no entanto, o carro tornou a partir com bastante velocidade e, passados poucos minutos, noted que tinhamos chegado a periferia da cidade, em sentido perfeitamente contrario ao destino que tencionava seguir. Paramos junto a um alpendre de madeira e o guarda-freio, convidando-me a descer, disse-me:-A carreira termina aqui. Momentos depots, o electrico partia, vazio, e eu fiquei sozinho debaixo do alpendre. Estavamos na Primavera, mas ja fazia calor. A julgar pela claridade do dia. deviam ser umas seis horas. Estranhei, porque calculava que fosse muito mais tarde. Apalpei-me a procure do relogio e entao vi chegar de um atalho uma pequena caleca, puxada por um burrico pardo e guiada por um moco de pijaina que trazia na cabeca um chapelinho de cacador alpino, mas sem a plume. A par do moco, vinha comodamente sentado um cachorro vermelhusco, de race mais que duvidosa, que desatou a latir demoradamente quando me viu.

Uma volta de manivela no travao, um puxao as redeas e a caleca parou. O cachorro saltou-me em

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cima, num delirio de festas, erguido sobre as pates, ofegante, e o moco de pijama veio ao meu encontro de mao estendida, com um sorriso palido.-Nao me reconheces?-disse-me ele.-11 natural, ja la vai tanto tempo. Sou o Nicolau.

-Nicolau?-disse eu, admirado.-Nicolau... que?

-Nicolau de apelido, meu caro; o aspirante dos ca,cadores alpinos que deixou, contigo, o batalhao em marcha, em Negrar, pare seguir, como voluntario, pare o Loner e o Corno. Ja nao te lembras? Bem sei que foi um conhecimento so de poucos dies; mas pare mim foi o ultimo. Talvez por isso me ficou na mente. Cheguei aqui pouco depots, apanhado por uma espoleta de shrapnetl. Chovia toda a especie de ferro-velho naquelas funduras do Leno. Recordas-te? Mas tu estavas noutro batalhao, talvez nem sequer tivesses sabido...

-Ora essa! Nicolau... pois... lembro-me perfeitamente-disse eu aliviado.-Foi muito gentil da tua parse. Uma espoleta, e isso mesmo... Li-o na ordem do die da divisao. Nicolau... ore quem a gente encontra!

-E estas a ver que nao vim so eu, hem? Vim com o Galiffa, o teu cachorro preferido quando eras pequeno, e com o Pinocchietto, o burrico de Vittoria Apuana a quem tu davas sempre um torrao de acucar. Vim em boa companhia ou nao?- e deu uma risada que me fez sobressaltar.

-Galiffa... Pinocchietto...-disse perturbado.- Mas tu, desculpa, que sabias tu disso? Nao vieste... aqui ter... por acaso?

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O hurrico e o cachorrinho lambiam-me as maos, dando evidentes sinais de reconhecimento. Nao tinha ali acucar e sentia-me inteiramente desprevenido para aquele inesperado encontro. Nicolau riu-se com um ar de superioridade e acenou-me para eu subir para a caleca.

-Estou na seccuo de chegadas, no Limite -prosseguiu ele-e quando ouvi o teu nome fui logo projectar o filme da tua vida. Ja o tinha passado varias vezes e, como estava revelado e completo ate esta data, poderia ter-te vindo esperar mesmo a hora certa. Mas, o que e que tu queres, ha muito que fazer e o pessoal escasseia. Assim, apanhaste-me quase de improviso. Podia ter trazido todos os animais da tua arca particular, FuEi e Gastoncino, Passepoil e Bubu, Buck e a Valentina... Mas nao tenhas receio, vais poder ve-los a todos.

<<Ah, a Valentina tambem>>, disse de mim para mim. (Devia ser a tartaruga que entrava na cozinha para fazer namoro ao Buck, o lobo de Alsacia, ... ha quantos anos isso fora?)

-Antes te tivesse trazido ja a Mimi, na garrafa onde a metia o prestidigitador; mas estava a fazer-se tarde e eu queria vir esperar-te a chegada. Has-de ve-la tambem. 11 Joana quem se encarrega dela.

-A Mimi, na garrafa... mas decerto... (Talvez fosse aquela cobaia que eu conhecera ha seculos, no Maloja; mas Joana, quem era? Animal ou criatura humana? O coracao deu-me um baque. Joana! Seria possivel que fosse... ela?)

-Joana-confirmou Nicolau, encaminhando o burrico por entre umas belas plantacoes que pareciam ser de ricino.-Tambem esta no Limite e

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arranja tempo para se ocupar ate mesmo do Jardim Zool6gico.

-Morta?-arrisquei eu, de olhos baixos, a baloicar no assento estreito. E chupei uma ponta de cigarro que me pareceu estranhamente sem sabor. -E... esta bem?

-Viva-advertiu secamente-, isto e, tambem para ela as coisas mudaram; como para mim, como para ti. Dize antes morta, se preferes.

-Ah-balbuciei. E aquela certeza fez-me vergar a cabeca sobre o peito. Depois reabri os olhos e vi que a calecinha passava junto de algumas tendas onde longas filas de mulheres aguardavam em bicha. O campo, a toda a volta, era incolor e ao longe avistava-se um grupo de casas brancas.

-Fez-te uma certa impressao, hem?-motejou Nicolau com uma alegria que parecia for,cada.- Bem sei, a primeira vez esta-se ainda agarrado as historias de antes. 12 o mesmo que me acontecia quando estava entre os vivos, que digo eu?, entre os mortos do Antelimite, donde tu chegaste agora; sonhava e, ao despertar, lembrava-me ainda do sonho, mas depois aquela lembranca desvanecia-se. Sucede-te o mesmo agora a ti; sao ainda uns residuos terrestres que irao apagar-se no teu espirito; e questao de pouco tempo. Mais tarde, quando Joana te mostrar o ~registo>> daquilo a que chamaste a tua vida, vais ter dificuldade em reconhece-la. Parece que e assim ate a Zona I, a estacao aonde se deslocam muitas vezes Jack e Fred, aquele pintor que fez o teu retrato em Spoleto, deves-te lembrar. Dizem que depois se perde esta memoria e se adquire uma outra. Para te dizer a verdade, tanto eu como a

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Joana ja podiamos ter chegado ao novo destino; creio que no Centro ja nos reconheceram titulos bastantes para isso, mas o que e que tu queres?, no Limite podemos tornar-nos muito uteis e Joana e uma interprete preciosa. Teve sempre uma bossa apuradissima para linguas e garanto-te que isso e muito necessario aqui. 11 certo que na Zona II havera muito trabalho para ela, no instituto das entelequias superiores, onde come,ca o processo de desmaterializa,cao. Mas as noticias que nos chegam de la nao sao muito encorajadoras; parece que a atribuicao de cartoes e por ali muito rigorosa e que e dificil encontrar alojamento. O teu pai tinha prometido dar noticias de la, mas por enquanto... E assim preferimos prolongar o nosso compasso de espera no Limite.

Enquanto ia falando, Nicolau continuava a acoitar mecanicamente o burrico e iamo-nos avizinhando de uma regiao alta e abrigada, toda ela em socalcos. As arvores dos campos eram baixas e uniformes e o Sol parecia parado acima do horizonte. Deitei fora a ponta de cigarro, que se tinha apagado.

-E eu-disse, coberto de suor-tambem devo ficar aqui com voces?

-Claro que sim, pelo menos durante algum tempo. Mas isso vai depender de Fred. Pobre Fred, tu sabes que ele tinha muitos ciumes de ti. No fundo nao e mau rapaz, mas tem pouca utilidade nesta vida. Da outra sabes como e que ele veio, depois de uma zaragata com uns bobedos. Mas como ele se lembrava bem da Joana! Quando a vimos no filme, fechada no vagao selado, ela e o Jack, berrou como um doido furioso. Quis ser ele so a ir

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espera-los. Foi o ter-te conhecido que me valeu a amizade deles. Vao ficar com pena de nao terem vindo esperar-te. Mas o que e que tu queres? Sao os privilegios de quem esta na secc,ao de chegadas e pode examinar milhares de filmes individuais. Esta noite, se quiseres, podemos passar uma parte do teu. Escolheremos qualquer episodio inocente que nao faca aborrecer... o Fred. Eu ca por mim aguento tudo; fui o ultimo a juntar-me a voces, embora seja aqui o mais antigo. E o Jack e tao bom... tao tolerante.

Agachei-me no banco. O Galiffa lambia-me afectuosamente as maos e o burrico agitava as compridas orelhas sob as chicotadas. Depois la consegui murmurar a custo:-Nicolau. A caleca deu a volta para enfiar por um caminho ladeado de arvores que p areciam castanheiro s da fndia e ao fun do do qual varias casas de uma brancura imaculada encobriam a vista da paisagem.

-Que ha?-disse Nicolau, e fez estalar festivamente o chicote no ar.

-Nao se poderia adiar este assunto?, este encontro?, quero dizer. 11 natural que me compreendas, isto para mim era um caso arrumado. Esforcei-me tantos anos por desviar o meu pensamento destes... amigos, julguei que ia endoidecer com esse esforco e o destino tinha-me poupado, ainda assim, a noticia do vagao selado. E agora tu... Nao, nao, e demais, e demais... Queria que houvesse alguma coisa de acabado na minha vida, percebes? Qualquer coisa que fosse eterno a forca de estar acabado. Nao posso recomecar, Nicolau, nao posso, leva-me a minha mae... se ela ca esta.

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-Poderas comunicar mais tarde com a Zona III. As sues ultimas noticias eram boas. Mas devo informar-te de que la a membria e muito limitada. Fica connosco umas dezenas de anos, vais-te habituar; ves como eu continuo jovem?

Pinocchietto parou diante de uma construcao once uma janela aberta no andar terreo deIxava ouvir o tiquetaque de uma maquina de escrever portatil. Nicolau saltou da caleca e estendeu-me a mao. Galiffa dormia nos meus bracos, feliz.

-11 ela que esta a fazer o seu servico extraordinario-sussurrou Nicolau.-Vem, tome coragem, nao esta mudada. Esquecer era demasiado comodo. Recome,ca a viver como nos... que chegamos antes de tit

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:!

NA PRAIA

O bilhetinho amarelo que encontrei esta manha em cima da areia, no luger once costumo estender-me ao sol, ao lado dos jornais e da cadeira de repouso, a poucos passos dos grandes guarda-sois da pensao Hunger, avisa-me de que chegou a cidade uma encomenda pare mim, proveniente dos E. U. A. Se nao for levantada ate ao die 28 deste mes, informa o bilhetinho, o precioso embrulho revertera em beneficio da Cruz Vermelha. Uma encomenda enviada por quem? E enderecada realmente a mim? Para satisfazer a minha legitima curiosidade esta aqui um postal devolvido de Florenca, e tambem ele chegado de alem-mar, que dissipa sodas as duvidas. 1! ela, e uma miss Bronzetti que se lembra de mim e teve a ideia de mandar-me cacau com acucar e outras gulodices; espera receber as minhas boas noticias, envia-me os seus cumprimentos e lembra-se da paciencia que eu tive com aquele seu gato que roubava a came no talho, nos baixos de minha case. Seguem-se algumas amabilidades, a promessa de novas encomendas e uma sigla: A. B.-A. B.- remoo de mim pare mim.-Mas, sem duvida, por

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que nao? Devia chamar-se Analena ou Anagilda ou Analia.

Dirijo-me a Antonio, que volta pare a cadeira de repouso, deixando estampada na areia a forma dos pes descalcos. Deve ter sido ele quem ouviu o assobio do carteiro ciclista, foi ao encontro dele e deixou no meu luger o meu quinhao de correspondencia. E talvez ele, que conviveu com quase sodas as pessoas minhas conhecidas destes ultimos anos, saiba mais do que eu a seu respeito.

-Anactbria ou Anabela-confirmou ele.- Lembro-me muito teem dela. Morava pare os lados de Sao Gervasio. Era de Vercelli ou deli perto. Era professora num college do Wisconsin ou de Vermont, mas estava de licenca, nessa altura, e passava o Inverno em Florenca.

Um relampago iluminou-me o espirito, um verdadeiro relampago na escuridao. Tornei a ver um bairrozito econdmico, em Cure, um apartamentozinho de rapariga solteira muito teem arranjado, cheio de grawras baratas e de oleografias-a Venus de Botticelli, o fresco de Masaccio da igreja do Carmo, anjinhos de Gozzoli-e livros, muitos livros de encadernacoes wlgares, livros de biblioteca circulante, desumanos, que me assustavam logo pelos titulos: Misunderstood, Kidnapped, Upstarts... e ao pe deles os nossos classicos de tipo floral, o Renascimento pare uso de estrangeiros: os cantos carnavalescos e, porventura, um pequeno Dante em ingles, com o texto original a par, e uma selecta de canticos do seculo ~. E, naquele refugio, ela, Anabela ou Anactbria, a piemontesa magra, pequena e tenacissima que, em vinte ou trinta anos de ensino nos

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Estados Unidos, se tinha radicado cada vez mais a Italia, a terra que sempre continuara a ser a sua, em sodas as situacoes, em sodas as mudan,cas do bardmetro historico e politico.

-Anactoria... como nag?, recordo-me perfeitamente-disse eu a Ant6nio, tentando mostrar-me seguro do assunto.-Foi muito gentil. Tenho de escrever-lhe ja, antes mesmo de mandar levantar o presente. Contudo e uma boa macada, estando aqui... Ha que passer uma procuracao, mandar o bilhete de identidade, sei la que mais...

Para dizer a verdade, sinto-me muitissimo vexado. Penso nas partidas da membria, no po,co de Sao Patricio da recorda~cao. Julgava-me credor em relacao a mim prdprio e em relacao aos outros, supunha que infinitas coisas desaparecidas viviam ainda dentro de mim, encontravam no meu intimo a sue derradeira justificacao; julgava-me rico e era afinal um indigente. Alguem de quem me tinha esquecido apanhou-me de surpresa; sou eu quem ainda existe na mente de Anactbria ou de Analena, sou eu que sobrevivo nela e nao ela em mim. Tal qual; e como pode uma lembran,ca desaparecer ate este ponto? Tinha consciencia de guarder no escrinio da membria uma multidao de fantasmas possiveis, virtuais, que eu nao evocava pare nao despertar sombras nem sempre grates, mas que, no entanto, afloravam, por vezes, a superficie da consciencia e constituiam, de certo modo, a sue riqueza. Reminiscencias desta natureza, esporos que ficaram por explodir, granadas de espoleta retardada, podem explicar-se e justificar-se sem custo. Mas que dizer de um facto que irrompe, ex abrupto, da nossa subs

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tancia cinzenta inerte, que pensar do fenomeno de um desaparecimento total que se revela, de subito, como uma presen~ca? Eu acreditava, em suma, em esquecimentos relativos e semivoluntarios, num processo, como lhe hei-de chamar?, tayloristico do espirito, que poe de reserva tudo o que lhe nao pode servir, mas conservando sempre o fio da meada. Mas aqui nao ha que discutir: Anactoria ou Anabela foi totalmente eliminada do meu pensamento durante quatro, cinco ou seis anos, e agora voltou porque quis Yoltar' e ela quem me concede o favor da sua presenca, nao sou eu que me digno ir acorda-la amadoristicamente, numa busca do tempo perdido. ~ ela, a intrusa amoravel e digna que, escavando no seu passado, topou com a minha sombra e quis restabelecer uma <<correspondencia>> no melhor sentido da palavra.

-O episodio do gato-disse eu a Ant6nio- deixa-me muitas duvidas. Antes de mais nada, nunca houve nenhum talho nos baixos da minha casa. Depois, eu havia de ter posto um nome qualquer ao animalejo, e dos nomes dos animais nunca me esqueco.

-Havia um gato, havia-afirmou Antonio.- Era uma gata. Queria que lhe pegassem ao colo, que lhe fizessem festas e lhe alisassem o pelo, e miava doentiamente se nao lhe faziam a vontade. Deve ter caido da janela abaixo ou entao fugiu poucos dias depois. A dona ja se tinha ido embora. Fora com as pequenas, suponho; com Patricia... e as outras.

-Oh, Patricia; tenho-me lembrado dela muitas vezes. Como e entao Analena quem...

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A luz refulge sobre os Alpes Apuanos, muito limpidos entre duas tempestades de fim de Agosto. Os banhistas comecam a rarear, mas abrem-se ainda na areia humida muitos guarda-sois cor de laranja, verdes e amarelos. Nao consigo bronzear-me como queria e, atraves dos 6culos escuros, vou seguindo os ultimos vendedores ambulantes que passam em frente das barracas desertas. Chegam ate mim os seus pregoes monotonos e ja desalentados: ~Cogumelos, bebidas geladas, amoras, framboesas e morangos. .. ~ Passa depois 0 cego, guiado por um cao de agua-uma figura negra de Velasquez-e das entranhas do seu harmonio de fole irrompem os gemidos do eterno Besame mucho. Ja deve ser tarde.

-Mas, sim, lembro-me muito bem, tenho uma memoria de ferro. Embora estivesse em ferias de Inverno, Anastacia-quero dizer, Anactoria-tinha-se encarregado de chaperonner pela cidade as pequenas do col~gio de miss Clay, quando elas saiam da sua villa do Giramontino. Seis ou sete milionariazinhas que tinham vindo arranjar uma especie de cultura. Estudavam historia da arte, musica, ballet, historia do fascismo e outras raridades. Na Primavera, havia uma distribuicao de premios na villa, comparecia ate o prefeito -His Excellency-e os tres ou quatro chefoes do gang politico local. As pequenas estavam desejosas de conhece-los e miss Clay punha nisso um verdadeiro entusiasmo. Algum deles seria nobre e teria ate mesmo uma mulher americana. Deve ter sido numa dessas festas que encontrei pela primeira vez o Sr. Stapps. Patricia, a mais viperina do grupo, dizia que tinha

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uma ainclina,cao>> por ele. Quando deixou Giramontino para ir hospedar-se em casa duns certos nobres, na cidade, Anactbria foi encarregada de estreitar a vigilancia ainda mais de perto. Acompanhava-a aos museus e aos concertos, ao teatro e aos jardins Boboli, e certificava-se de que nas outras noites ela fosse para a cama com as galinhas. Mas, por volta da meia-noite, Patricia ja andava ca fora com o Sr. Stapps. Pobre Anactbria, se o tivesse sabido... Ou talvez soubesse e nao quisesse julgar. O seu destino era deixar os outros inflamarem-se, mas quanto a si... Alem disso, era ja velha demais para se por a dan~car a java. Tera vivido trinta ou quarenta anos sozinha, num apartamento de duas divisoes, na cidadejardim de um imenso vespeiro de mulheres, comendo no refeitbrio com o seu grupo de raparigas, e outras vezes ainda mais s6, fritando dois ovos com presunto no fogao electrico da sua cozinha. Todos os seis ou sete anos a visita ao lar, a Italia, mas agora ja um pouco distante e dando-se ares de americana (aEntre nds nao acontecem estas coisas... ~), para depois morrer de nostalgia num bosquezinho animado em vao por espectaculos shakespearianos de estudantes, concertos de artistas alemaes em decadencia e conferencias de academicos franceses em tourne'e. Oh, compreendo-a bem. Fomos pouco amaveis, Ant6nio, deviamos ter sido os primeiros a escrever-lhe, ou antes, deviamos ter-nos preocupado mais com ela, enquanto ca esteve...

-Estas doido?-interrogou Anthnio, admirado, levantando os olhos do jornal.-Continuas a pen

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sar nesse pobre diabo? Manda-lhe um cartao a agradecer e acabou-se. Alias, quem e que ja se lembrava dela? Se nem sequer lhe sabemos o nome!

-Nao lhe sabemos o nome, Ant6nio!-disse eu indignado.-Lembro-me absolutamente de tudo, podes ter a certeza. S6 essa histbria do gato e que nao estou a ve-la muito bem. Mas, quanto ao resto, compreendo tudo, mesmo aquilo que Anactbria-Anastacia me nao deu a conhecer, nem agora nem entao. Pensa nas noticias que la devem ter chegado quando caimos nas maos de um bando de ladroes, depois da outra guerra. Pensa no seu juizo franco de uma situacao que devia ser dificil de ver a milhares de milhas e com 0 bourrage de crdnes da propaganda. Anactbria estava-se nas tintas para venerar Sua Excelencia, lembro-me muitissimo bem. E nao partilhava os sentimentos politicos de nenhum amante, o que ja nao sucedia com as suas outras companheiras, encarregadas de guardar o rebanho perdido no bosque. Era a pureza e a justica em pessoa, AntOnio, e nds compreendemo-lo tarde demais. Pensava pela sua pr6pria cabeca: como eu... e melhor do que tu.

Ant6nio ergue-se da cadeira, a bocejar e a espreguicar-se. Caem alguns pingos grossos sobre a areia e levanta-se vento, que escurece os pinhais cor de reseda. Os ultimos vilegiaturistas encaminham-se apressados para o terraco da pensao Hunger, onde se nota um vaivem de criadas atarefadas. O banheiro fecha e recolhe a pressa os poucos guarda-sdis que ainda estavam abertos. Nao ouvi o gongo, mas ja deve ter tocado ha um bom pedaco.

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-Tudo e sempre demasiado tarde pare ti-diz Antdmo.-Mas ainda podes oferecer uma reparacao a tua Atanasia. Vamos andar depressa e ver se a cozinha do hotel continua a ser digna do seu nome?

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PAUSA EM EDIMBURGO

Em Edimburgo, cidade once as pracas mais importantes tem a forma e o nome de <<crescente>>, isto e, de meia-lua, ergue-se uma igreja de perimetro poligonal que tem a toda a volta uma inscricao bastante mais extensa do que as muitas que decoravam as paredes das nossas aldeias ate aqui ha dois anos. Essa interminavel inscricao que vamos seguindo, de nariz teem no ar, de uma parede pare outra, dando a volta complete a igreja, nao cerebra nenhum chefe terreno, nem nenhuma gloria do nosso mundo perecivel. Desenvolvendo-se atraves de sapientes exclusoes e negacoes, aquela desmesurada espiral, pintada em caracteres de oiro ou, talvez, construida de pedras de mosaico (quem e capaz de se lembrar ao certo?), diz ao transeunte desmemoriado once e que o Chefe Celestial nao se encontra, once e inutil procure-lo... God is not where, Deus nao esta onde...-e quem le deve deslocar-se algw~s passos e enfrentar outra fachada do poligono: God is not where...-e todos os lugares once a vida se antolha facil, agradavel e humane e once, na verdade, Deus se poderia encontrar ou procurer

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sao enumerados em longas fileiras que prosseguem naquele reiterado momento: Deus nao esta aqui, nem aqui, nem mesmo aqui...

Aconteceu-m e um dia de Verao an d ar a ro da de toda aquela densa meada, voltando constantemente aos mesmos sitios e dizendo comigo prdprio, com a angustia na alma e vertigens na cabeca:- Mas, no fIm de contas, onde e que esta Deus, onde e?

Talvez eu tenha proferido realmente em voz alta a minha pergunta porque um cavalheiro distinto, que atravessava o acrescente~ e que eu soube mais tarde que era um coronel da reserva dos Highlanders, parou ao pe de mim e negou resolutamente que naquelas paredes presbiterianas, dentro ou fora delas, escrita ou nao escrita, pudesse encontrar-se a solucao do problema.

-God is not here, Sir-disse ele com um ar seguramente informado: extraindo da algibeira uma pequena Biblia comecou a ler-me em voz alta alguns versiculos. Outras pessoas pararam e fizeram circulo a roda do leitor: primeiro algumas mulheres e dois ou tres operarios, depois o magote cresceu, um dos circunstantes rapou da algibeira outra Biblia e leu por seu turno, demonstrando querer decididamente contrariar a tese do oficial preopinante. Dai a pouco, os grupos eram ja tres ou quatro e em cada um deles havia um director do encontro, um arbitro improvisado que dava ou retirava a palavra, resumia os varios argumentos pr6 e contra, tentava conciliacoes e mediacoes porventura impossiveis. Presbiterianos de observancia estrita ou arminianos de largas mangas, baptistas, metodistas, darbyistas e unitarianos, tibios e indiferen

tes, homens, mulheres e rapazes, burgueses e operarios, funcionarios e pessoas que viviam dos rendimentos, todos escutavam ou falavam com uma luz estranha no olhar. Confuso por ter despertado inadvertidamente aquele mistico vespeiro, afastei-me alguns passos, virando para o lado da Princes' Street, a grande avenida construida de um lado s6, que deixa a descoberto a visao imponente (para os Escoceses) do Rochedo, com os seus bons trezentos pes de altura, e do Castelo. Na Princes' Street situam-se os clubs onde e dificil entrar, os circulos <<selectos>>, protegidos por janelas de vidracas duplas, onde se perfilam as libres de mordomos severos. Sopra sempre vento e na via principal nao passa ninguem, mas ao lado dos ediffcios maiores veem-se descer ruas mais populares, que conduzem a novos acrescentes~, a outras pracas com outras igrejas e jardins. God is not where... Onde estava, entao? Teriam chegado a encontra-lo? Sentia uma grande ansiedade dentro de mim e censurava-me por nunca ter posto a mim prdprio durante tantos anos, no meu pais, o problema em termos precisos. Quando regressei a praca, ja la encontrei pouca gente. O velho coronel, que estava a guardar na algibeira a sua Biblia, veio juntar-se a mim, comentando com vigorosa cortesia-hearti~-a marcha da discussao. Nao lhe perguntei o resultado, nem talvez tivesse conseguido recolhe-lo daquela catadupa de palavras de que eu perdia metade.

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OS QUADROS DA ADEGA

O bore comecava a soprar. Eu e B. tinhamos acabado de sair do museu Revoltella e dirigiamo-nos pare o cafe Garibaldi, quando um moco alto e magro, com um impermeavel de gabardine meio revirado pelo vento, passou apressadamente ao nosso lado, cruzando-se connosco, e se voltou pare cumprimentar com um aceno de mao. Nao tinha nada de especial, no entanto perguntei a B.: -Quem e?

-Oh, nao e ninguem -respondeu B. indiferente-, um futurista.

Passados dois ou tres anos, ainda em Trieste, visited a exposi,cao de um certo Jorge Carmelich, que morrera pouco tempo antes, tuberculoso, num sanatorio da Alemanha. O catalogo dava algumas informacoes sobre o artiste, desaparecido aos 20 anos, e sobre as poucas obras que deixara. Tinha na minha frente a sue opera omnia, uma trintena de pastels, guaches e desenhos, mas sobretudo pasteis. A arte do defunto nao me parecia de um interesse por ai alem, nem eu, pelo menos em pintura, me empenho em descobrir novos talentos; todavia,

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pedi mais algumas indicacoes a seu respeito ao mou cicerone triestino.

-Nao te lembras-disse B.-daquele rapaz, um futurista, que nds encontramos ha dois anos na praca? Era ele, o Carmelich.

Confesso que a resposta me surpreendeu porque me recordava muitissimo bem do encontro e nao compreendia a razao por que logo haviamos ambos de nos lembrar dele assim tao bem. Demorei-me a olhar para as suas reliquias. Nao eram precisamente aquilo a que se chama obras de arte: hesitantes, quanto ao estilo, entre a dissidencia de Munique e o recente expressionismo centro-europeu, e de caracteristicas literarias nos temas, nos assuntos. Via-se ali a macabra obsessao realista, o cheiro a carne de cavalo que e peculiar a Kafka, a Ungar e a outros escritores de Praga, ja nessa altura muito lidos em Trieste: caveiras, figuras disformes, naturezas mortas abstractas e paisagens, naturalmente, metafisicas; tudo isto diluido em pequenos pasteis de tons assaz estridentes e de uma superficie gessosa. Mas o pintor estava morto, a sua historia acabada, e do conjunto da sua primeira (e derradeira) aindividual,> dimanava qualquer coisa de patetico e de sincero que ia muito para alem do problema, por vezes insignificante, da arte e da nao-arte; estava morto. Carmelich, o futurista, tinha-o visto eu passar, bem vivo, acenando com a mao, no meio da ventania, tinha perguntado quem era e lembrava-me dele, nao sei porque... Como poderia libertar-me daquele moco defunto? O resultado foi que, meia hora depois, saia da exposicao com dois pasteis debaixo do bra,co, pagos, ao preco de entao,

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por uma miseria. Comecava ali, e quase acabava ali tambem, a minha carreira de cliente, pelo menos em materia de arte. E tinha a certeza de ter comprado o melhor que havia na exposicao.

Os dois pasteis emigraram comigo para uma cidade onde a arte tinha, e ainda hoje tem, outras raIzes e um rosto mais humano. Destoaram logo, quer da casa, quer do ambiente que os iria acolher; eles proprios mostraram relutancia em se adaptar a umas paredes demasiado distantes e diferentes. Mas depois estabeleceu-se entre mim e os quadros uma especie de modus vivendi, uma tolerancia reciproca. O maior dos dois pasteis-aquele que representava uma Praga sepultada na neve, com varios homens de cartola e rabona esbocados a lapis ao pe do grande monumento a Joao Huss, e as casas de telhados pontiagudos em cores acidulas de caramelo e coriandro-, o pastel mais berrante, encontrou o seu lugar num quarto de arrumacoes, onde os ~elementos>> do aquecimento central estavam sempre desligados, como medida de economia, e onde so a Agata, costureira e metedica, punha os pes uma vez por outra. O pastel mais pequeno, uma gondola em frente de um palacio veneziano, todo ele rendilhados e janelas geminadas, e, a um lado, a sombra, a dissolver-se, de um monumento equestre, esse, pelo contrario, fui po-lo corajosamente na cave onde eu dormia, mas onde durante o dia nunca entrava. Ficou pendurado debaixo de uma misula carregada de livros e nenhum quadro lhe fazia concorrencia. Os verdadeiros quadros, os De Pisis e, mais tarde, um Morandi, estavam no andar de cima, aonde as visitas tinham acesso. O

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pobre Carmelich estava out of bounds, se bem que nao houvesse ainda ingleses na cidade, ou so la estivessem como h6spedes. So eu e que o via, de noite, se calhava acender o lume. Um serao descobri um gato branco a dormir ao pe dele, em cima de um escadotezinho. Mas, em regra, nas outras noites, se o <<guarda>> nao me acordava ao entrar

no Jaruim, nem sequer eu o via. E o gato nao voltou mais a fazer-lhe companhia.

Decorreram varios anos tranquilos para os dois Carmelich. Depois houve uma mudanca complicada e passei da cave para o quinto andar de uma casa que aqui na Toscana parece um arranha-ccus. Tinha muitos livros, varios outros quadrinhos, baus, caixotes e malas; e o espa~co, na minha nova casa, era bastante mais reduzido. Quando ficou tudo arrumado, reparei que os dois Carmelich ja ali nao estavam: disse-me a inevitavel Agata que tinham passado para a adega, com muitas outras coisas inuteis. Senti alguns remorsos, mas um facto novo cedo veio abrandar aquele meu sentimento: a guerra, a segunda grande guerra da minha vida depressa me obrigou a amontoar na adega moveis e quadros e livros que me interessavam muito mais do que os dois pasteis adquiridos tantos anos atras. Tentava (e efectivamente consegui) salvar alguma coisa das bombas que enxames de vespas zumbidoras deixavam tombar na periferia da cidade. A estacao do Campo de Marte era ali proximo e bastava que os bombardeiros se enganassem num centimetro... Era melhor nao pensar nisso. No apartamento meio vazio ficaram so os moveis mais necessarios e as pilhas do rebotalho dos livros,

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quase todos eles oferecidos, de versos. Mas as coisas melhores, e entre elas os De Pisis e o <<morandinho~, ja estavam no subsolo, acondicionadas o melhor possivel. De resto, quem se lembrava delas? Enchiam-nos o coracao outras preocupac,oes e outras esperancas. O problema ressurgiu agora, apos a libertac,ao e depois de uma emergencia que ate fez dispersar os inquilinos de uma casa e de um bairro onde, durante onze meses, dormiram homens barbudos e inqualificaveis, munidos de documeptos falsos e encarregados das missoes mais secretas. Desci a adega e ajudei a boa Agata a acarretar para cima moveis, estantes e papeis; abri caixotes, fiz ruir pilhas de livros poeirentos e uma ratoeira disparou-se-me na mao, aprisionando-me os dedos. O apartamento vazio foi-se enchendo pouco a pouco, os livros, os quadros melhores, as gravuras de Manzu, surgiram de novo a luz do sol. Restam, no fundo de um bau, com os vidros manchados e o passe-partout estragado pela humidade, a pequena Praga e a minuscula Veneza de Carmelich.

(E agora: ~o que e que se faz a isto?,>, pergunta-me Agata impaciente, a esEregar os dedos.) O que e que se faz, velha Agata embusteira? Talvez pudesse responder-te alguma coisa. Bendigo o dia em que cedi o grande quadro de Bolaffio a um digno coleccionador daquele pintor, que lhe deu um abrigo honroso e estavel; se bem que esse gesto de <<cego desamor>> me tenha valido uma frechada, uns versos escritos ab irato, de um insigne poeta

triestino, poeta e por isso justamente susceptivel. Mas que se ha-de fazer, Agata, aos pobres Carmelich? Posso eu, porventura o ultimo depositario do

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segredo e da tristeza daquele nobre moco, deixa-los morrer assim? Ou devo insistir (e a minha desgraca de sempre) numa ultima tentative de repechage daquilo que a Vida, cruel, repeliu, atirou pare fore dos seus trilhos? Encosto-me a porta da despensa e fico im6vel numa corrente de ar. A gondola e o monumento ao grande reformador brilham no fundo de um bauzinho. Passaram mais de vinte anos e parece que foi so um dia. Um moco alto e delgado a atravessar a praca fustigada pelo vento, as:- abas do impermeavel que esvoacam, depots um aceno de mao e eu a perguntar distraido:-Quem e, Bobi?

(-Oh, nao e ninguem, um futurista-e prossegulmos em direccao ao cafe.)

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-A ANGI)STIA

Sou muito sensivel a Stimmung das cidades nordicas e o espectaculo de uma Zurique encarapucada de neve nos pinaculos do revival gotico, coura~cada de places de gelo, once deslizavam grandes carros silenciosos, colorida de reclamos luminosos de neon, espectral, vazia e, ao mesmo tempo, fervilhante de vida (ate as cinco da tarde), mantinha-me fascinado junto as vidracas duplas da janela. Eram cerca das quatro, ainda restava a cidade uma hora de vida. O meu bafo embaciava levemente a vidraca interior. O quarto estava sobreaquecido, mas la fore o termometro marcava vinte e dois graus abaixo de zero. O telefone tocou. Era o porteiro do hotel.

-Esta aqui Frau Brentano Lowy que diz ter um encontro marcado com o senhor. Posso manda-la subir?

-Sim, ela que suba.

Devia ser uma daquelas intelectuais de turbante que me tinham felicitado na noise anterior, no fim da minha conferencia. Tinha-me solicitado uma conversa a sos, uma entrevista pare um magazine de grande tiragem. A sue especialidade era a dos gran



des homens en pantoufles. A falta de homens grandissimos, contentava-se tambem com pessoas de meia estatura, desde que oferecessem algum interesse. Poucas noticias indiscretas, uma nota de cor local, uma fotografia, e o artigo estava feito. Entrevistadora profissional, dotada de faro e sensibilidade, e paga muito caro, segundo me haviam dito. Bateu a porta e entrou. Trazia um turbante azul encimado por uma pluma vermelha, um tailleu; muito elegante, um casaco de peles valioso, que tirou logo. Cabelos escuros, provavelmente pintados, idade indefiniveL, dos 35 aos 45.

-Uma chavena de cha?-propus eu.

Aceitou. Telefonei para que levassem dois chas ao meu quarto.

-Nao tenho muitas perguntas a fazer-lhe, Sr Montana-disse ela.-Tem aqui um pequeno ques tionario. E! a favor da uniao dos Estados europeus' Uniao federal com renuncia parcial das soberanias individuais, ou simples covenant defensivo, uma alianca que ponha em comum um exercito poderoso? Cre que seja util a ac,cao periferica da U. N. E. S. C. 0.? 12 favoravel ou contrario ao enforcamento do negro Mac Gee, que dizem que violentou uma mulher americana? Se tivesse de atribuir um premio da Paz, que pessoa indicaria? Cre que os direitos da mulher estejam suficientemente protegidos em Italia? Prefere o existencialismo ateu ou o cr~stao? Pensa que o figurativismo ainda tenha sentido no campo das artes visuais? 11 a favor ou contra a eutanasia? Considera que haja urgente necessidade de uma lingua basica europeia? Parece-lhe que uma contribuicao de tres por cento, da

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parte da lingua italiana, seria suficiente para essa nova linguagem?

Parou, sorveu um golo de cha, depois continuou:

-Muito simples, como ve. Ha mais umas perguntas de indole pessoal. Gosta de animais? Quais sao os que prefere? Tem a certeza de os ter defendido bastante? Prefere os gatos aos caes, ou vice-versa? Ja desenvolveu alguma ac,cao efectiva contra a vivissec,cao dos animais?

Calou-se e mirou-me atraves do mon6culo. Seguiu-se um momento de silencio, interrompido por um rel6gio a dar horas.

-Sempre julguei que preferia os gatos aos caes -disse eu depois, pedindo-lhe desculpa de principiar pelas respostas mais simples.- Mais tarde, a paixao histerica de algumas senhoras pelas tribos de gatos que as rodeiam fez desviar o meu interesse para os caes. Mas

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^'''~~~~~~ r~- a minha conversao e recente e e devida ao facto de que os caes (mais do que os gatos) nos ficam na mem6ria, procuram sobreviver em nds. Teoricamente sou contrario a ideia de uma vida futura e creio que seria sumamente digno que tanto o homem como o animal aceitassem sombrer no eterno Nada. Mas na pratica-por hereditariedade-sou cristao e nao consigo furtar-me a ideia de que alguma coisa de nds pode, e ate mesmo deve, permanecer. O cao Galiffa, cuja fotografia lhe posso mostrar, minha ilustre colega, morreu ha mais de quarenta anos. Nesse retrato, que e o unico que dele existe, figura ao lado de um amigo meu que morreu antes dele. Sou assim a unica pessoa que ainda conserva a lembranca daquele bastardo festeiro de pelo verme

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lhusco. Ele amava-me e, quando ja era demasiado tarde, amei-o eu tambem.

-Passepoil-prossegui-foi o meu segundo cao, um scottish terrier de pureza muito duvidosa. Nao nos queriamos muito e cedi-o a uns amigos. Nao tenho o seu retrato, mas talvez ele se lembre, la nos Campos Elisios dos caes, de que lhe salvei a vida num choque de automoveis. O terceiro cao foi Buck, um lobo de Alsacia. Era bom, muito afeigoado a uma tartaruga minha, com a qual partilhava as refei,coes. Quando apanhou a esgana consegui manda-lo para junto duns camponeses, em Val di Pesa, perto de Florenga. Mas na noite seguinte fugiu e voltou para casa, apos uma viagem de trinta quilometros. Contudo a esgana piorava e uma injec~ao de veneno tirou-o deste mundo. Nao o vi depois de morto. Eutanasia ou quase, Frau Brentano, como ve estamos quase no nosso assunto. O quarto cao era Pippo, um Schnautzer de raca. Nasceu na vilta de Olga Loser, uma casa no meio de um olival, com oito quadros de Cezanne la dentro. A velha dona morreu ja, eu vivo ainda. Pippo ainda vive tambem, numa cidade das Marcas. Era muito susceptivel e nunca me perdoou eu te-lo dado. Mas, a certa altura, a vida impossibilitou-me de ter caes.

-Oh, a vida!-disse Frau B. L., suspirando-, a vida em Italia! Tenho recordacoes maravilhosas de Italia, onde estive por muito tempo. Terra adoravel, mas os homens... se soubesse como tive de lutar... Sempre prontos para uma emboscada! Tambem e como os outros, o senhor?, ou e diferente?

Uma lagrima regava-lhe a face, avancando com

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dificuldade por entre o po-de-arroz; dois olhos de fogo perscrutavam-me.

Disse algumas palavras numa voz pouco firme.

-Sim, Frau B. L., sou diferente, muito diferente (e vendo nela um trejeito, porventura de desilusao)... mas no fundo, nao, nao muito diferente (e receando uma atitude agressiva)... mas, em definitivo, creio que sim, diferente, diferente de todos. Suava, cada uma das palavras parecia-me uma gaffe tremenda.

O telefone tocou.-Chegou o carro de Frau Brentano-disse o porteiro.

-Obrigada pelas suas interessantes declaragoes, Sr. Fontale-disse a dama, sacando o tubinho do baton.-Nao deixarei de apontar... a sua diversidade.

Saiu com um aceno de cabega. Mais tarde mandou-me o recorte da entrevista. Nao se falava nela de caes nem de emboscadas masculinas, mas, sim, de Herr Puntale e do moderno problema da Angustia.

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-~-

1 1

UM SENHOR INGL2S

Conheco um senhor que passa as ferias do Natal na Suica para praticar um desporto inventado por ele: o do afalso ingles>>. Adivinhei as razoes que o levam a representar esse papel fora de Inglaterra. Com efeito, nas ilhas britanicas, os ingleses sao um produto trivial, nao gostam nem de si proprios nem dos estrangeiros de passagem e nao conseguem afazer de ingleses>> capazmente na sua propria terra. Para fazer de ingles e necessario outro ambiente, um mundo educado, neutro, essencialmente incomodo, mas na aparencia confortabilissimo. A feroz (la muito no seu intimo), atarefadissima e excessivamente perturbada Albion e, realmente, o ultimo pais do mundo onde se possa, com vantagem, fazer de ingles.

Provavelmente o falso ingles que eu conheco, e com quem, de ha anos a esta parte, tento debalde competir, nao conseguiu ocultar a sua verdadeira identidade a gerencia do hotel que o hospeda e ao seu perspicaz concierge; mas isso nao importa: uma vez feita a apresentacao dos <<documentos>>, o jogo comeca dai por diante. E o jogo consiste em re

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nunciar a qualquer manifestacao desportiva, em ficar o dia int eiro no h atl, a cons umi r, as ho ras es -tabelecidas, tea and cakes e em aceitar sem hesitacao o menu do hotel, mesmo que este lhe ofereca aquelas despreziveis comidas que os clientes italianos, apos terem soltado imprecacoes pitorescas em dialecto romano, substituem por sanguineos filetes de lombo ou listrados paillards de vitela

Se na ementa vem, por exemplo, Irish stew, mistura adocicada de carneiro cozido com cenouras e ervilhas de lata, o falso ingles espetara no garfo todos os tendoes de bode, todos os pedacos de cenoura, todas as ervilhas, e enguli-los-a com religioso cuidado, tal como fingira ter ingerido em sua casa, ao romper de todas as manhas, uma serie infinita de arenques fumados e de papas de aveia.

O falso ingles fuma charutos holandeses e bebe o cafe que lhe dao, sem pedir que lhe sirvam cafe-filtro; passa as tardes aEundado numa poltrona a ler artigos sobre a oligarquia de Berna do seculo xvor e sobre as opinioes que formou do assunto o grande Gibbon; investiga diligentemente as noticias da Gazette de Lausanne, sem esquecer os anunCiOS funebres, e acaba porventura o seu dia a folhear um livro da biblioteca do hotel, escolhido entre os mais inofensivos, desde Wilkie Collins a Ouida. O falso ingles e amavel com toda a gente e nao fala com ninguem; dos seus labios nao saem senao alguns aquius>> de agradecimento quando outros estrangeiros ou os criados de mesa tem qualquer atencao para com ele. O falso ingles veste, a noite, aquele casaco preto que os Italianos-nao os Ingleses-chamam smoking e usa-o com desen

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voltura, como se tivesse anos de adestramento. Na noite de Sao Silvestre, o falso ingles assiste ao reveitlon dancante, mas nao danca porque nao sabe dancar ou porque nao conhece ninguem.

Manda que lhe tragam um balde com uma garrafa de champagne brut, deixa que lhe ponham na cabeca um barretinho de papel colorido, leva a boca uma corneta e toca como os outros, envolto em estrelas cadentes, feliz e estupidificado. Quando a meia-noite soa e a orquestra se cala e a sala tomba, por momentos, na escuridao e todos os presentes se levantam e erguem as tacas e as rolhas saltam e comecam os abracos e os brindes e os votos de um feliz ano, o falso ingles levanta-se tamb~m, ergue o pe da sua taca e bebe a sua propria saude ou a de alguma pessoa longinqua. Depois, se o baile continua, levanta-se com dignidade, murmura um aqulu~ de agradecimento a quem lhe da passagem, sopra um segundo aquiu>> ao rapaz do tif t que lhe abre a porta e deixa-se elevar condignamente ate ao seu quarto.

No dia seguinte, correctamente vestido de cinzento, e um dos primeiros a descer para o b~eakfast. Tem o ar de quem ja se resignou ao poqueno-almoco ~-continental,, sem porridge e sem salsichas, contentando-se com cha e fatias de pao com manteiga. O hotel esta deserto: os outros dormem ainda ou ja partiram, mascarados de ursos, para os seus funiculares. O falso ingles estende-se numa poltrona e retira a marca que colocara num velho romance ilegivel. Olha os flocos de neve que borboleteiam nas vidracas tenta em vao acender 0 seu charuto

com um lTgnter 1n~vl~"v~,l,_~_ .

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fosforo na caixa, chega lume ao charuto, alarga-se a sua volta uma espiral de fumo aromatico. O falso ingles reclina a cabe~ca, le. nada no meio do fumo dorme, sonha. Amanha vai partir. Para onde? So eu o sei.

Ignoro o nome deste senhor que encontro de vez em quando pelas ruas de Milao, transformado num loquaz e enfastiado cidadao ambrosiano. Nao sei se ele ja reparou em mim, assim como eu reparei nele. Nao sei se ele sabe que desde ha anos procuro em vao, mas obstinadamente, imita-lo. Nao sei se ele ja esteve alguma vez em Inglaterra e se la sentiu o mesmo aborrecimento admirativo que eu senti. Sei tao-somente que, numa imaginaria associacao de falsos ingleses, a presidencia deveria caber-lhe a ele e a vice-presidencia a mim.

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O VOO DO GAVI4O

Chove a cantaros. Para alem do patio interior e de um tortuoso ziguezague de telhados, ergue-se a ramada de uma arvore muito alta, despida de folhagem. A chuva, batida em rajadas, encobre-a ou destapa-a, fazendo dela uma agua-forte gravada com vigor ou um pastel desmaiado. Agora um ponto negro descido do ceu poisa no ramo mais alto, um raminho delgado e torcido que logo se encurva sob o peso. Nao e um passarinho, e um passaro grande, a julgar pela flexao do ramo e pela mancha escura que o volatil estampa de encontro ao ccu cinzento. Um ou outro passaro que rompe as cordas da chuva -andorinha ou pardal-e um ponto bastante mais pequeno. Nao, aquele la em cima nao e um passarito, nem sequer um pombo; desceu num voo picado e veloz, pondo a descoberto tracos de luz por entre as penas das asas franjadas. Vira a cabeca para tras, debicando a cauda, que parece compridissima; e o ramito serve-lhe de baloico. Fixando-o atentamente parece maior, enquanto o emaranhado dos ramos quase deixa de se ver. A arvore e gigantesca, deve ser secular; de quantas centenas de janelas e pos

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sivel mira-la? Talvez so eu me tenha dado conta daquele visitante celeste; mas talvez nao... Com efeito, apurando um ouvido interior, parece-me captar muitas outras vozes que escuto pela primeira vez e que decerto nao tornarei a ouvir.

-11 um pombo-correio, e um pato, e uma pega perdida-dizem quase que em coro os habitantes do decimo quarto andar de um arranha-ceus cor de tijolo.

-Sera um milhafre? Mas nao Ihe vejo o bico. Da-me o binoculo, Adalgisa-diz o naturalista anichado num andar alto da rua Borgospesso.

-11 o corvo de Edgar Poe-diz o velho pintor da rua Bigli, 17, que ha trinta anos ilustrou aquele poema.

-aTu nao podes morrer, ave imortal!,>-diz de um s6tao da rua Pietro Verri um homem calvo que ficou achumbado~ duas vezes nas provas para o ensino da literatura inglesa.-Quem foi que escreveu estas palavras? Keats ou Shelley? Por favor, Pasqualina, da-me aquele livro amarelo que esta em cima do fogao de sala. 11 uma cotovia ou um rouxinol? Mas nao, aquele e do tamanho de uma galinha. aTu nao podes morrer...~. Com mil demdnios! E lembrar-me eu de que me esErangalharam exactamente por causa desta poesia...

-Parece um pavao. Mas como e possivel que se tenha ido empoleirar la em cima?-diz um mordomo na rua Santo Andre.-Vem ca ve-lo, Anita Vamos, nao te facas presumida, fica aqui um boca dinho, enquanto nao chegam os patroes. Ja alguma vez comeste pavao?

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Um rumor mais confuso, um estalido (seria um beijo.~), uma breve discussao.

-11 um gaviao-diz uma voz de mulher, vinda de um telhado por detras do meu.-Um gaviao jovem, feliz... e livre. Pode ir para onde muito bem lhe apeteca. O temporal nao o incomoda: nao tem aborrecimentos, compromissos, preocupacoes. Voa e vive. Daqui a pouco estara em Cologno, depois em Parma, depois na Sicilia. Poisa na arvore e ninguem lhe pede o bilhete de identidade. Come aquilo que encontra, ervas, ratos, insectos; bobe um elixir de petalas de rosa, mais doce do que o Chablis. 11 um Deus vestido de penas, mas e sempre um Deus. 11 um gaviao, digo-te eu. Quem me dera ser ele.

-Estas doida?-diz a voz de um homem que deve estar ao pe dela.-Os gavioes vivem nas montanhas, acabam por ser embalsamados e nao sao nada felizes. Aposto que aquilo nao passa de um gaio, um velho e misero gaio que talvez daqui por umas horas ja foi morto por um cacador. Ainda para mais, incomestivel. Que estas tu para ai a resmungar? Vale mais uma hora de liberdade que uma vida de escravidao? Romantismo estupido! Tu nao ves que quando nao vais ao escrit6rio, ao domingo, te sentes desamparada, mais morta do que viva? O homem cria inumeras obrigacoes, mergulha num mar de dificuldades s6 para ter a alegria de as vencer. O homem cultiva a sua pr6pria infelicidade para ter o gosto de combate-la pouco a pouco. Ser-se sempre infeliz, mas nao demais, e a condicao sine qua non de pequenas e intermitentes felicidades. Falo como um professor? lts burra! Que farias tu, ali em cima da arvore, encharcada... e sem mim?

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Querias talvez partir para Codogno ou para a Sicilia? Ah, sim? Tens a coragem de o dizer? Entao experimenta, minha tola! Voa! Experimenta la voar desgracada!

Uma rajada faz estremecer os vidros da janela e sacode tambem a arvore. Com um bater de asas o gaviao destacou-se do ramo, recorta-se no ceu como um emblema heraldico e mergulha por tras dos telhados mais altos. Prosseguiu a viagem. O ramo onde ele pousava oscila longamente. A chuva crepita cada vez mais forte. Chega ate mim uma balburdia de vozes que nao entendo. Depois distingo a voz do mesmo homem, que diz:

-Tens razao, desculpa, era mesmo um gaviao, um gaviao forte, livre, maravilhoso. Gostarias de ser ele... compreendo. Tambem eu gostava de ser ele... mas contigo. Ai e que esta a diferenca, uma pequena diferenca. Que dizes? Que nao e uma diferenca assim tao poquena? Era um gaviao, sim, perdoa-me, nao sei porque insisti tanto em nega-lo. Percebo tao pouca coisa de aves. A estas horas talvez ja esteja em Casalpusterlengo, talvez mesmo sobre o Po. Era um gaviao, afirmo que tens razao, afirmo-to de Joelhos, perdoa-me, perdoa...

Outra rabanada de vento, um som esquisito (um beijo, talvez). Depois, um ultimo fio de voz:

-Com leite ou com limao? Ja nao me lembro. Estamos t30 pouco em casa... Bela ave. no entanto. Penso que ja estara em Piacenza, na praca dei Cavalli.

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CEIA DE FIM DE ANO

-O senhor fez a marcacao pelo telefone?-perguntou o ma~tre, consultando um livrinho de notas.-Tenha a bondade de me dizer o seu nome. Pantaleoni? Perfeitamente: reservamos-lhe a mesa n.? 15, ao centro, e longe da orquestra, conforme os seus desejos.

-De-me o menu, se faz favor.

-Aqui o tem, Sr. Comendador. Creme Parmentier, linguado a moleira, galinha no espeto com chic6ria roxa de Treviso. Pessego Melba e espumante: nacional, e claro.

-Tudo isso por 4500 liras-disse o cliente, fazendo uma careta.-Nao e caso para elogiar a vossa imaginacao. Queria qualquer coisa melhor.

-O senhor prefere jantar d ta carte? 11 uma boa ideia. Veja a lista. Tem aqui muito por onde es.

O Sr. Pantaleoni inclinou-se sobre 0 enfeitadissimo papiro, franzindo as sobrancelhas; depois, batendo nervosamente com o punho na mesa, disse:

-Mande-me ca os responsaveis, o chef e o sommelier. Esta aqui escrita demasiada coisa, e eu quero ficar sabendo de que morte vou morrer.

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O martre encolheu os ombros e afastou-se: para tornar a aparecer acompanhado pelo chefe de cozinha, de barrete branco, e pelo homem dos vinhos, que transportava um precioso livrinho encadernado em pele.

-Meus amigos, chamei-os para uma consulta -disse o Sr. Pantaleoni.-Nao olho a despesas, mas quero comer como um principe. Estou muito hesitante: vejo que podia comecar por umas tostas de caviar e vodka, mas, se nao me levam a mal, preiro um pratinho de feijoes verdes toscanos, de conserva. Estamos de acordo, chef ? S6 uma amostra, mornos, e, a parte, uma chavena de caldo forte com uma gota de sherry. Tocon, por exemplo, dry e levemente amargo. Tem Tocon, senhor dos vinhos? Excelente. Passemos agora aos pratos fortes. Confesso que me tenta muito uma posta de pregado do Adriatico, na grelha. Mas sera realmente do Adriatico, ou vira de Basileia, como os vossos detestaveis linguados? Se tem coragem de mo recomendar, tentarei a experiencia. Vamos la entao pelo mais precioso habitante da Laguna; tal como aqui vem, com salsa e limao, ou entao com um molho tartaro, como quiserem. E agora estou em duvida entre um assado e um estufado. Narceja estufada ou Javali a ca,cadora? Hum... Nao seria possivel, mou amigo, arranjar-se uma fressura de cordeiro guisada, com cogumelos e batatas? 11 um prato que demora certo tempo: e preciso uma cacoula de barro e nao esquecer um pedacinho, quase nada, de hortela-pimenta. Tome nota, ma~tre. Depois temos o problema do dessert. Eu, pessoalmente, dispensa-lo-ia, mas ha que respeitar as conveniencias. Vamos

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entao provar os crepes au Grand Marnier. Quase ninguem sabe faze-los; veremos. Muito obrigado, chef, pode retirar-se. E agora n6s, sommelier. Um Valtellina branco pode ir bem com o peixe, que lhe parece? Mas hesito muito num vinho tinto leve para acompanhar a fressura. Um rose do Anjou? Podemos tentar. Com o dessert quero uma garrafa de Roederer brut ou de Charles Heidsieck, mas de um bom ano. Conto consigo e agradeco-lhe. E agora, maitre, que ja estamos s6s, vamos passar a conta.

-Nao e pressa nenhuma; faz-se depois.

-Desculpe, quero-a ja.

O ma~tre pareceu ficar muito surpreendido. Foi conferenciar com o homem dos vinhos, tomou uma porcao de notas e, minutos depois, veio de volta com uma conta extremamente minuciosa.

-23 500 liras com as taxas e 0 servico-disse 0 Sr. Pantaleoni.-C)ptimo. Aqui tem vinte e cinco mil liras e pode guardar o resto. A prop6sito.

-Diga, Sr. Comendador.

-Fique desde ja esclarecido que o pode poupar-se 0

cozinheiro trabalho de preparar este ban

quete para mim; a menos que voce e todo o seu estado-maior prefiram oferece-lo a si pr6prios bebendo a minha saude. Aqui em cima da minha mesa nao quero senao um prato com algumas cascas de nozes, um cha de camomila e uma garrafa de espumante vazia. Evidentemente, em face dos outros clientes, quero ter o ar de alguem que ja comeu o seu jantar. Para lhe dizer a verdade, e talvez ate ja a tenha percebido, a mim nao me interessa o meu jantar, interessa-me 0

-?

deles. Esti bem claro?

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- Ja fai um bom garfo e, mais tarde, um gourmet requintado. Mas hoje o unico prazer da minha vida e ver os- outros comerem. Os que me conhecem este fraco chamam-me o Vidente. Na realidade, porem, eu nao sou um curioso, sou um moralista epicureu. Como nao posso estudar o homem em todas as suas faculdades e habitos, escolhi a mais duradoira e tambem a mais agradavel: a alimentacao. Da maneira de os outros comerem, daquilo que escolhem, do modo como se comportam neste ritual quotidiano, extraio consideracoes de ordem geral e subo ate as Causas e aos Fins. Estou a explicar-me?

-?

-Compreendo a sua objeccao: porque e que eu nao convido muita gente para jantar e nao faco as minhas observacoes em casa? Primeiro que tudo, custar-me-ia muito mais caro; e, alem disso, um convidado nao e um homem livre, nao e ele proprio quem escolhe o seu repasto, e acha-se manietado nos seus movimentos e nas suas reaccoes. Acrescente-se que os meus convidados pertenceriam inevitavelmente a um unico tipo de humanidade, nem sempre o tipo mais interessante. Poderia fazer-me criado de mesa ou musico ambulante, desses que andam a zangarrear na guitarra pelas casas de comidas, mas nao podia observar com muita insistencia. O unico meio e aquele que escolhi: adquirir o direito de me sentar a uma mesa e comer de enfiada, uma duzia, pelo menos, de magnificos jantares. Quando o trinchar de algum volfitil raro ou o aroma do respectivo molho ou o chamejar de um fogareiro de alcool produza um efeito especial nas minhas

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glandulas salivares, posso sempre seguir as opera,coes mais de perto, fingindo que fui chamado ao telefone. A este respeito, caro ma~tre e amigo, entrego-me nas suas maos: sempre que eu fizer um sinal, mande o boy avisar-me de que a interurbana chama por mim; eu levantar-me-ei, passarei junto a mesa que me interessar mais e seguirei o espectaculo em todos os seus pormenores, procedendo muito lentamente a ida e a volta, identifico-me com tudo, ate a indigestao, ate a embriaguez. Por isso o meu medico ja me disse para nao abusar. Quando

se chega a uma certa idade, ate mesmo um vidente tem de tomar cuidado. Mas ai estao ja os, primeiros clientes. Confio em si, cher ma~tre; desojaria que ninguem suspeitasse de nada. Prepare a minha mesa e mande-me chamar quando me parecer que haja qualquer coisa digna de ser observada. Seja cexpedito aos meus acenos~, como o Spoletta da Tosca. Estou nas suas maos, cher ma~tre.

-Esteja descansado, meu caro senhor. Sera ser

vido a seu gosto.



O CONDENADO

Numa daquelas tinas de zinco que servem para demolhar 0 bacalhau, sobressaia acima de dois dedos de agua o lobster, vulgo lavagante ou navegante, ja cantado por Lewis Carroll na imortal historia de Alice. A sua courac~a era de uma cor entre o azul-cinzento e o verde da podridao; os olhos, duas bolinhas pretas que brilhavam no cimo de dois pauzinhos; e as pincas, muito grossas, estavam fortemente apertadas com um barbante. Se alguem levantava um dedo para lhe tocar, o lobster seguia com atencao a trajectoria do dedo e depois erguia rapido uma pin,ca, talvez para lhe arrancar a falange com uma boa tesourada. Mas o barbante impedia-o de actuar e, assim, a tesoura afiadissima tombava de novo na agua. Estavamos em Trieste, na peixuria da esplanada junto ao mar. O ceu estava encoberto e principiavam a cair uns choviscos.

-Daqui a meia hora talvez esteja na panela -disse um senhor de grandes oculos-,e no entanto ainda tenta fazer mal. Ve-se bem que nao e possivel eliminar o instinto agressivo, nem dos homens nem dos animais.

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-Eu diria que se trata do instinto de defesa -disse um senhor de boina basca.-Ferra quem o quer apanhar para o comer. Nao deixa de ter alguma razao.

-Mas nao-disse um terceiro senhor-,com aquelas tesouras de jardim, sabe-se la quantas ostras ja abriu. Ostras e conquilhas e mexilhoes. Os lavagantes sao gulosos de marisco.

Todos tres, cada um por seu turno, levantaram um dedo e por tres vezes o lobster ergueu a arma inofensiva e tornou a deixa-la cair. Os seus olhitos estavam muito atentos, mas nao pareciam malevolos.

-Penso que ele brinca como um gato-disse o segundo senhor.-Nao quer fazer mal a ninguem. O gato tambem pode arranhar, quando brinca. Talvez nao se de conta de que esta condenado a morte. De qualquer modo, sabe que a tesoura agora ja nao funciona.

-Percebe muito bem o que lhe esta a acontecer-disse o primeiro senhor-, e procura vender cara a pele, isto e, a carapa~ca. Quando estiver cozido, vai ficar com uma cor de purpura, uma cor cardinalfcia. A pin,ca e a parte melhor; tenra e um pouco gelatinosa; o resto ~e bastante coriaceo.

Todos eles deram estalos com a lingua; depois tiveram de deixar o lugar a um novo grupo de comentadores.

-11 o classico homard que os franceses preferem a lagosta-disse um jovem magro, dirigindo-se a um senhor mais idoso.-La e muito caro. Em Paris, o homard a l'americaine aparece em todos os menus.

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-Isso e um estropiamento! Na origem e homard a l'armoricaine-disse o senhor de idade.-Quando eu era sous-chef no Ritz, era assim que se escrevia. Bons tempos!

-Ena, que lindo camarao!-disse um menino.-Posso tocar-lhe, papa?-E antes que o pai dissesse que sim ou que nao, meteu o dedinho na tina e enfiou-o precisamente numa daquelas garras, donde o seu gesto fizera escorregar o atilho de cordel. O lobster apertou a tesoura, demorou-a um instante sobre o dedo, como a acaricia-lo, e depois largou a presa. Toda a gente gritou: <<Cuidado! Nao lhe toque!>>. Mas o dedo nao tinha qualquer arranhadura. Entretanto aparecera o peixeiro, que pegou no crustaceo para lhe atar de novo 0 cordel; mas, com uma pancada na cauda, o lavagante deslizou para o chao e, apoiado nas pin,cas e nas rijas placas da cauda, aos saltos e aos sacoes, como se tivesse dentro dele um motorzinho avariado, foi na direccao da muralha para se lancar de novo ao mar. Houve uma breve persegui,cao, uma confusao em torno do fugitivo, que, poucos segundos depois, embrulhado num papel amarelo, mas ainda a debater-se, era atirado para uma balanc,a. Quem e que o queria? Foi oferecido a um prec,o mais baixo, so para o tirarem dali. O cliente que levou consigo o embrulho informe e estranho, donde provinha ainda um cansado chocalhar de pincas, foi seguido com os olhos por todos os presentes.

-Vao mete-lo na panela?-disse o menino numa voz lamentosa.-Mas porque? Ele estava com vontade de brincar comigo.

-Vai vivo para a panela-responderam-lhe.

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-Qual panela!-disse o velho subchefe de cozinha.-Eu fazia-o no forno, com um bom molho de conhaque, antes de arrefecer. Mas quem e que se preocupa ja com essas coisas?

Abriu o guarda-chuva e afastou-se com outras pesosas, a falar dos velhos menus do Ritz.

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A ESTATUA DE NEVE

Esta frio, Saint Moritz esta sepultada na neve, o aquecimento central funciona maravilhosamente e eu passeio (no meu quarto) de pijama. Nao sou esquiador, patinador ou excursionista; nao ando de tren6, echo a montanha aborrecida no Verao e insuportavel de Inverno. Venho aqui nos fins de ano pare ver o ballet que organize o meu amigo Kind, pare receber de presente um burrinho de pasta, uma corneta, um barretinho, uma parvoice qualquer; e pare gozar o espectaculo das familias que se abra,cam enquanto vao disparando garrafas de champanhe. E venho sobretudo pare ver a estatua, o grande boneco de neve que o Sr. S. constroi diante do seu hotel, mesmo defronte do meu. Gozo da minha janela o espectaculo do boneco. Tem tres metros de altura, um chapeu de plumes, o charuto na boca com a cinza presses a tombar, duas cenouras em vez de orelhas, duas cebolas no luger dos olhos e tres cabe,cas de nabo a servirem-lhe de botoes do casaco. 12 assim uma coisa intermedia entre Churchill e Grock. Mas sao os olhos-cebolas que me atraem. Desde o primeiro die despertaram em mim, por associa,cao de ideias, o mais lacrimoso dos sen

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timentos. O enorme papao chora, isso sem duvida. 11 ele a unica personagem que, nestes dias festivos, e capaz de chorar de verdade. Chora lagrimas rubras, pungentes, que lhe caem em gotas do tamanho de bolas de bilhar. Mas ninguem, a nao ser eu, o ve brotar aquelas lagrimas. Nao e o mesmo boneco dos outros anos, em cada ano e feito de novo, mas para mim e sempre o mesmo. Nao chora apenas por ter as cebolas no buraco dos olhos, chora tambem por outras razoes que nao consigo explicar, mas que me parece inutil perscrutar. E quando se embrulha numa nova camada de neve e os olhos se lhe tornam mais remelosos e enfarinhados, deixa de ser parecido com Churchill, s6 se parece com Grock. 11 entao que ele diz: <<Voces divertem-se? Pois divirtam-se bem. Eu choro por voces todos, a espera de me derreter e de deixar cair estas cebolas na lama suja do caminho.~

Nunca me encontrei com Moby Dick, a baleia branca, mas vi mais vezes Grock e, encostado a vidraca que o meu bafo embacia, procuro conversar com o maravilhoso palhaco. <<Consinta, Mestre-digo-lhe eu-, que me associe tambem ao seu pranto irreprimivel, totalitario, universal. Vim aqui de propbsito para o ver; imerecidamente, sou talvez eu a unica pesosa capaz de entrever as razoes do seu pranto. Tambem eu me hei-de fundir na sua lama, tambem eu tenho duas cebolinhas nos buracos dos olhos e um nabo no lugar do nariz... Consinta, Mestre, que eu...~

Uma leve pancada na porta e entra a criada que pendor para o misticismo.

me traz o cha. 11 uma toscana, utilitaria e com fraco

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-Ja viu?-disse, ao ver-me embasbacado em frente da janela.-La tornaram a por este ano aquele espantalho de pardais.

-Pois-digo com indiferenga.-Aquele grosseiro boneco. Como e possivel?

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A BORBOLETA DE DINARD

A pequena borboleta cor de acafrao que vinha ^A^c oc rlinc ter comi~o ao cafe da praca Ae Dinard

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e me trazia (assim me parecia) noticias tuas, tera voltado alguma vez, depois da minha partida, aquele larguinho frio e ventoso? Era pouco provavel que o gelido Estio da Bretanha tivesse feito surgir nos jardins hirtos de frio muitas daquelas centelhas, todas iguais, todas da mesma cor. Talvez que eu tivesse encontrado nao as borboletas, mas a borboleta de Dinard, e o ponto que faltava resolver era se a matutina visitante vinha ali de proposito por minha causa, se descurava deliberadamente os outros cafes porque no meu (o da <<Cornualha>>) estava eu, ou se, simplesmente, aquele cantinho se incluia no seu mecanico itinerario quotidiano. Em suma, passelo matutino ou mensagem secreta? Para aclarar a duvida, na vespera do meu regresso, resolvi deixar um bom pourboire a criada e, com ele, o meu endereco em Italia. Ela teria de me escrever um sim ou um nao; se a visitante tornara a dar sinal de vida depois de eu ter partido ou se nunca mais se deiY~ra ver. EsT,erei entao aue a borboletinha poisasse



num vaso de flores e, tirando da algibeira uma note de cem, um pedacito de paper e um lapis, chamei a rapariga. A gaguejar, num frances mais indeciso que o do costume, expliquei-lhe o assunto. Nao o assunto to do , mas uma parse . Eu era um entomologista amador, queria saber se a borboleta ainda ali tornaria e ate quando seria capaz de aguentar com aquele frio. Em seguida calei-me, aterrado e em suores.

-Un papillon? Un papillon joune?-disse a graciosa ~ Filli, arregalando um par de olhos a Greuze.-Naquele vaso? Mas eu nao vejo la nada. Ora repare melhor. Merci bien, Monsieur.

Enfiou na algibeira a note de cem e afastou-se, segurando na mao um cafe-filtro. Baixei a cabeca e quando voltei a ergue-la vi que a borboleta havia desaparecido do vaso das dalias.

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INDICE

I

Historia de um desconhecido .... As roses amarelas

~Donna Juanita~

A regata ......... A aBusacca~ .... Laguzzi & C.~ ......... A case das duas palmeiras A mulher barbuda ........ O melhor vem depots ...... Em crave de ~fa~ ......... O sucesso .............. ~II lacerato spirito...~ .. A plume de avestruz ......

... ... ... ...

II

Os inimigos do Sr. Fuchs ............

O Sr. Stapps  ~ 

Domingos ... ... Visita de Alastor

Honey  ...... ...

Clizia em Foggia A tempestuosa ... Mulheres do <`karma~ .................. Bailarinos no ~Diabo Vermelho~ ...... Os olhos limpidos ...... Numa ~buca~ florentina Slow ... ... ...

99 103 109 115 119 127 135 143 147 153 161 1h7



III

O morcego .. O anjinho .. Reliquias ... .. O principe russo ............... aTrocar-te-ias com... ?,. ... ... ... Noite dificil ..................... Os cogumelos vermelhos ...... O cair da cinza ...... O realizador ............ As viuvas ......

O homem de pijama .. No limite.............. Na praia .............. Pausa em Edimburgo .. Os quadros da adega .. A angustia .................. Um senhor ingles ..... O voo do gaviao ..... Ceia de fim de ano ..... O condenado ........ A estatua de neve ..... A borboleta de Dinard

IV

173 181 187 193 197 201 205 207 213 217

221 225 233 241 245 251 257 261 265 271 275 279

Colecpso Premio Nobel

1-Retrato de Gru~po, com Senhora Heinrich B511 .........

2-O Pavilhao dos Cancerosos (e.' edicao) Alexandre Soijenitsine ......

3-A Arvore do Homem ~Patrick White .....

4-Agosto, 1914 Alexandre Soijenitsine

?~...... ~  95S00

... ... ... ... ... 1 46S00

, ... ... ... ... ... ...

1.g Volume ...........................

2.9 Volume ..............................

5-O Senhor ~Presidente

Miguel Angel Asturias .....

6-A Borboleta de Dinard ~Eugenio ,Montale

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. . 1 1 O$OO

80SOO 75S00

..... 80$OO

....... 95SOO



EDIgAO 6 E 429

Tiragem: 3000 ex. Bste livro acabou de se imprimir em Dezembro de 1975 rotas oficinas de Guide-Artes GrAficas, Lda. pare Publicacoes Dom Quixote Rue LuciaDo Corddro, 119-Lisboa

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